Artigo
Artigo do reparador
Cambagem – Fazer o mais fácil ou o correto?
Cliente trouxe seu veículo, um Ford Focus Sedan PowerShift 2014 2.0 16V, para revisão geral e relatou um ruído na suspensão dianteira ao passar por relevos e irregularidades da via. Segundo o cliente, o barulho lembrava desgaste em coxins ou rolamentos dos amortecedores.
Iniciamos o diagnóstico com uma volta de teste e rapidamente confirmamos o sintoma apresentado. A partir daí, realizamos uma inspeção completa dos sistemas de suspensão e direção, analisando cuidadosamente:
bandejas;
buchas;
pivôs;
terminais;
braços;
colunas dos amortecedores;
fixações do agregado;
entre outros componentes.
Após a análise inicial, identificamos desgaste nos coxins e rolamentos dos amortecedores dianteiros. O orçamento foi aprovado pelo cliente e iniciamos a desmontagem do conjunto.
Foi então que encontramos a primeira surpresa.
Ao desconectar o montante da ponta de eixo do amortecedor, identificamos uma chapa metálica instalada entre os componentes (Imagem 1). Claramente, a intenção da adaptação era deslocar o montante para alterar artificialmente a cambagem da roda, deixando-a mais negativa.
Mesmo diante da descoberta, prosseguimos com a desmontagem completa do sistema. Durante a desmontagem dos amortecedores, constatamos outras irregularidades importantes:
coxins paralelos;
peças de marcas diferentes entre os lados;
ausência da placa metálica de apoio do rolamento em um dos lados (Imagem 2 - peça esquerda).
Entretanto, as surpresas ainda não haviam terminado.
Ao examinar os montantes das pontas de eixo, observamos danos físicos no lado esquerdo do veículo (motorista). As marcas encontradas eram compatíveis com impactos provocados por talhadeira (Imagem 3), provavelmente utilizados para impedir o encaixe correto do amortecedor no montante.
Na prática, isso elevava artificialmente a posição da coluna do amortecedor, permitindo o uso das chapas metálicas para modificar a cambagem.
Com isso, concluímos o diagnóstico completo:
chapas metálicas instaladas em ambos os lados;
montante esquerdo danificado;
coxins e rolamentos comprometidos.
Neste momento, realizamos uma conversa técnica com o cliente para apresentar as falhas encontradas e explicar os riscos envolvidos naquele tipo de adaptação.
Solução aplicada
Os serviços executados foram:
substituição dos coxins e rolamentos dos amortecedores;
correção do encaixe interno do montante esquerdo;
remoção das chapas metálicas improvisadas.
Após a montagem, o veículo foi encaminhado para análise geométrica em alinhador eletrônico.
Durante a medição, verificamos que:
cambagem;
caster;
KPI;
estavam dentro dos limites especificados pelo fabricante.
A única correção necessária foi o ajuste da convergência das rodas dianteiras, procedimento já previsto originalmente pelo fabricante do veículo.
A Imagem 4 apresenta os parâmetros finais dentro da faixa ideal após o ajuste.
Conclusão
Este caso demonstra a importância do diagnóstico correto e da análise de causa raiz (Root Cause Analysis – RCA).
Em muitos casos, adaptações são realizadas buscando o “caminho mais fácil”, sem considerar:
segurança;
integridade estrutural;
durabilidade dos componentes;
perda de garantia;
riscos ao condutor e terceiros.
No caso apresentado, além dos danos causados aos componentes da suspensão, os amortecedores tiveram sua garantia comprometida devido às modificações realizadas.
Devemos sempre buscar soluções técnicas fundamentadas em:
normas técnicas;
procedimentos do fabricante;
literatura confiável;
análise profissional.
Fazer o mais fácil não significa fazer o correto.
A ética profissional e o compromisso com a segurança devem sempre estar acima de improvisações.
Obrigado pelo seu tempo de leitura e aprendizado.

Ricardo Alexandre Malaquias