
Os veículos híbridos já começam a ter um bom número de vendas, o que deve impactar a rotina de muitos reparadores no futuro. Com diferentes arquiteturas e estratégias de funcionamento, esses modelos exigem uma abordagem diferente durante o diagnóstico, principalmente quando o assunto é sistema de ignição. Diferentemente dos veículos convencionais, uma simples falha de combustão pode interferir diretamente na interação entre o motor elétrico e o motor a combustão, comprometendo desempenho, dirigibilidade e até estratégias de segurança do veículo. Além disso, segundo dados da Anfavea, os híbridos já representam 4,3% da frota de automóveis de passeio em circulação no Brasil em 2025, tendência que amplia a necessidade de capacitação das oficinas para lidar com sistemas cada vez mais complexos. Embora sejam agrupados sob a mesma classificação, os veículos híbridos possuem arquiteturas bastante diferentes, o que influencia diretamente a estratégia de manutenção. Nos sistemas MHEV (Mild Hybrid), o motor elétrico atua apenas como auxiliar do motor a combustão, principalmente durante partidas e acelerações, como no Fiat Pulse, Peugeot 2008 e Jeep Renegade. Já os modelos HEV (Full Hybrid) conseguem percorrer pequenos trajetos utilizando exclusivamente o motor elétrico, como acontece no Toyota Corolla Cross. Os PHEV (Plug-in Hybrid) possuem baterias maiores e podem rodar dezenas de quilômetros sem acionar o motor térmico. Inclusive, essa categoria é dominada pelos chineses, como BYD Song Pro e Flex, GWM Haval H6, Jaecoo 7, entre outros. Enquanto os EREV (Extended Range Electric Vehicle), tecnologia presente nos modelos da Leapmotor, utilizam exclusivamente tração elétrica, deixando o motor a combustão responsável apenas pela geração de energia para recarregar as baterias. Essa diferença operacional altera completamente a forma como o sistema de ignição trabalha e, consequentemente, a interpretação dos sintomas pelo mecânico. "Nos veículos MHEV e HEV o motor a combustão trabalha de forma muito semelhante à de um veículo convencional. Já nos EREV, ele opera praticamente sempre na faixa de maior eficiência. Nos modelos PHEV, dependendo da utilização, o combustível pode permanecer muito tempo no tanque, favorecendo seu envelhecimento. Além disso, trajetos curtos podem impedir que o motor alcance sua temperatura ideal de funcionamento", explica Hiromori Mori, consultor de Assistência Técnica da Niterra. Nos motores convencionais, uma falha de ignição normalmente resulta em perda de desempenho, aumento do consumo ou no acendimento da luz de injeção eletrônica. Nos híbridos, entretanto, o gerenciamento eletrônico monitora constantemente a transição entre o motor elétrico e o motor a combustão. Quando ocorre uma combustão irregular, a central eletrônica pode modificar instantaneamente a estratégia de funcionamento do veículo para preservar o conjunto mecânico e elétrico. Leia também Dependendo da condição detectada, o sistema pode reduzir torque, limitar determinadas funções do veículo ou acionar modos de proteção, tornando o diagnóstico mais complexo do que simplesmente identificar uma falha de cilindro. Por isso, interpretar corretamente os códigos de falha e compreender a estratégia de gerenciamento eletrônico passa a ser tão importante quanto verificar os componentes mecânicos do sistema de ignição. O avanço dos veículos híbridos também trouxe mudanças importantes nos componentes do sistema de ignição. Velas equipadas com eletrodos de irídio e platina oferecem maior resistência ao desgaste provocado pelos constantes ciclos de partida e desligamento do motor, além de suportarem temperaturas elevadas e produzirem centelhas mais precisas. Segundo Mori, essas características favorecem uma combustão mais eficiente e contribuem para melhorar partidas a frio, estabilidade da marcha lenta, resposta nas acelerações e redução das emissões de poluentes. À medida que a frota eletrificada cresce, cresce também a necessidade de atualização técnica das oficinas. Além do conhecimento sobre sistemas de ignição, o reparador precisa compreender o funcionamento dos diferentes tipos de híbridos, utilizar equipamentos de diagnóstico compatíveis e seguir procedimentos específicos de segurança para trabalhar em veículos equipados com sistemas de alta tensão.Nem todo híbrido funciona da mesma forma
Nos híbridos, a falha de ignição ganha outra dimensão
Velas de ignição acompanham a evolução dos motores
Capacitação passa a ser parte do reparo