
A chegada do BYD Song Pro Flex 2026 às ruas brasileiras coloca uma nova variável na rotina das oficinas: um sistema híbrido plug-in associado a um motor 1.5 aspirado capaz de trabalhar com gasolina e etanol. Para chegar a essa configuração, a engenharia precisou modificar componentes diretamente relacionados ao combustível, além de alterar o gerenciamento eletrônico do conjunto. Em avaliação para o Oficina Brasil, Bruno Santos, engenheiro da BYD Brasil, detalhou as principais mudanças e os pontos que podem fazer diferença na manutenção e no diagnóstico do veículo.
A principal novidade mecânica do Song Pro 2026 é a adoção do motor 1.5 aspirado flex. Segundo Bruno Santos, a transformação não ficou restrita à calibração eletrônica. O desenvolvimento envolveu profissionais da BYD e da Bosch no Brasil, China e Alemanha, com validações realizadas nos três países. “Esse motor foi um desenvolvimento em parceria com a BYD China, Brasil e a Bosch, tanto Bosch Brasil quanto Bosch China e Bosch Alemanha. Então, ele é um projeto bem global. O Brasil entrou com todo o know-how do flex, porque esse conhecimento está aqui. Toda a parte de validação, horas em dinamômetro e testes foi feita em conjunto, já pensando na gasolina dos três países e no combustível brasileiro.” Para o reparador, a informação mais importante está justamente nos componentes que receberam alterações. O sistema de alimentação foi redesenhado para trabalhar com as características do etanol, combustível que exige maior vazão e apresenta propriedades diferentes da gasolina. De acordo com o engenheiro, bomba de baixa pressão, bomba de alta pressão e injetores foram adaptados. Os bicos, por exemplo, passaram por mudanças para entregar a vazão necessária ao funcionamento com etanol. O conjunto interno do motor também recebeu modificações, incluindo os pistões.“As linhas de combustível foram totalmente modificadas e adaptadas justamente para o combustível que ele possui. O etanol é um combustível mais seco e não tem o mesmo poder de lubrificação. Então, toda a linha de combustível e as bombas, tanto de alta quanto de baixa, foram totalmente adaptadas. Os bicos também são novos, justamente devido à vazão, porque para o álcool você precisa de uma vazão maior.” Outro ponto que merece atenção do profissional de oficina está na estratégia de gerenciamento do motor. O Song Pro Flex recebeu um sensor instalado na admissão para identificar o combustível utilizado, permitindo que a ECU tenha uma informação antecipada sobre a composição do combustível. A estratégia representa uma diferença importante em relação a um sistema que depende apenas da leitura posterior realizada pelo sensor de oxigênio no escapamento. “Foi inserido um sensor justamente para identificar qual o tipo de combustível que está sendo usado. Antes, ele fazia o mapeamento posteriormente, pelo sensor lambda no escapamento, depois da queima. Agora ele faz antes. É um sistema mais moderno e tecnológico, sempre pensando em eficiência e emissões.” Na prática, o reparador terá mais um elemento para considerar durante uma investigação de falha relacionada à alimentação, mistura ou gerenciamento eletrônico. Em um veículo flex, problemas de identificação do combustível podem interferir diretamente na estratégia adotada pela central. Uma questão inevitável para quem trabalha com manutenção é o acesso aos componentes. No Song Pro Flex, o espaço disponível no cofre é influenciado pela arquitetura híbrida, que reúne motor a combustão e componentes eletrificados no mesmo conjunto. Questionado sobre a preocupação da engenharia com o acesso aos parafusos e componentes durante uma manutenção, Bruno reconheceu que existe um compromisso entre reparabilidade e limitações de espaço. “É pensado na reparabilidade, sim. Porém, existem determinadas situações em que há impossibilidades com relação ao espaço. Então, na oficina, na prática, determinadas peças precisam ser desmontadas para ter acesso a determinados parafusos. Infelizmente, é uma questão de espaço.” Por outro lado, o veículo apresenta uma característica que pode facilitar algumas intervenções: a ausência da tradicional “churrasqueira” na região superior do cofre, permitindo melhor acesso a determinados componentes, como os amortecedores dianteiros. Apesar de a bateria manter a mesma arquitetura básica na versão GS, o sistema híbrido passou por mudanças na evolução para a configuração DM-i 5.0. Entre as alterações está o reposicionamento de módulos que anteriormente ficavam na região traseira do veículo. Segundo Bruno, a mudança teve como um dos objetivos facilitar o acesso aos componentes. “Na versão 5.0, a gente mudou a parte de módulos. Alguns módulos saíram da parte traseira do carro e vieram para cá, justamente para facilitar o acesso.” A bateria da versão GS permanece com capacidade de 18,3 kWh, enquanto a versão GL teve aumento de capacidade, passando de aproximadamente 12 kWh para cerca de 13 kWh. Mas a evolução da autonomia não depende apenas da capacidade da bateria. O conjunto recebeu um novo motor elétrico, com uma estratégia mais direcionada à eficiência. “A autonomia não foi aumentada somente por causa da bateria, mas também por causa do sistema. A gente tem aqui um motor elétrico diferente da versão anterior. O conjunto é mais focado em eficiência. Então você teve uma pequena perda de torque e potência, que dirigindo você quase nem vai reparar, ao passo que teve uma melhora significativa na eficiência.” O novo Song Pro Flex entrega 220 cv de potência combinada e 300 Nm de torque combinado, números que colocam o SUV em uma faixa de desempenho ainda elevada para sua proposta. A mudança de calibração e do motor elétrico, portanto, não deve ser interpretada simplesmente como uma redução de desempenho. A proposta da nova configuração é trabalhar com maior eficiência energética. Para o mecânico, isso também significa entender que alterações de potência e torque em sistemas híbridos não podem ser analisadas apenas pelo motor a combustão. O resultado final depende da interação entre motor térmico, motor elétrico, bateria, módulos eletrônicos e estratégia de gerenciamento. Na suspensão, não houve alteração na arquitetura. O Song Pro continua utilizando McPherson no eixo dianteiro e multilink no eixo traseiro, mantendo o mesmo número de braços. Leia também A mudança está na calibração do conjunto para atender às características de rodagem esperadas pelo consumidor brasileiro.“Ele não teve modificações no tipo de suspensão. Ela continua sendo McPherson na frente e multilink atrás, com o mesmo número de braços. Porém, ela teve uma suspensão recalibrada, mais adaptada ao gosto do consumidor brasileiro.” Segundo o engenheiro, foram realizados ajustes principalmente na calibração dos amortecedores. Para a oficina, isso significa que peças de suspensão não devem ser avaliadas apenas pela aparência ou pela compatibilidade dimensional. Em veículos com calibrações específicas, características de carga, amortecimento e comportamento dinâmico também fazem parte da especificação do sistema. Outro ponto que merece atenção dos reparadores é a presença do ADAS 2.0, disponível nas versões GS e GL. O sistema reúne recursos como controle de velocidade adaptativo e assistência de permanência em faixa. Aqui surge uma nova demanda para o mercado independente: calibração dos sistemas de assistência à condução após colisões ou intervenções na região dos sensores. Bruno explica que as concessionárias estão preparadas para realizar o procedimento, mas ressalta que a operação exige equipamentos e referências específicas. “É um sistema que necessita de certos pontos para se chegar, como um gabarito. É necessário ir a uma oficina especializada que tenha esse gabarito, justamente para o sistema se referenciar e funcionar da maneira correta.” Para o reparador, o alerta é direto: em veículos equipados com ADAS, uma intervenção de funilaria, suspensão, direção ou colisão pode ter consequências que vão além da parte mecânica. O veículo pode voltar a rodar aparentemente normal, mas os sistemas de assistência podem exigir verificação e calibração específica. O BYD Song Pro Flex mostra como a manutenção dos veículos híbridos está deixando de ser apenas uma questão de conhecer motores elétricos ou motores a combustão isoladamente. O reparador precisa entender a interação entre os dois sistemas. No motor 1.5 aspirado flex, os principais pontos de atenção estão nas alterações realizadas para suportar o etanol, incluindo sistema de combustível, bombas, injetores, pistões e gerenciamento eletrônico. No sistema híbrido, entram na equação os novos módulos, o motor elétrico e as estratégias de eficiência. Já na parte de suspensão e ADAS, a arquitetura conhecida divide espaço com novas necessidades de calibração. O resultado é um veículo que pode parecer familiar para quem olha apenas para o motor 1.5, mas que exige uma abordagem diferente na oficina. E, como o próprio engenheiro reconheceu durante a avaliação, ainda existe uma distância entre projetar o veículo e desmontá-lo na prática. “É pensado na reparabilidade, sim. Porém, existem determinadas situações em que há impossibilidades com relação ao espaço.” Para o mecânico, talvez essa seja justamente a principal mensagem do Song Pro Flex: antes de colocar a ferramenta no carro, será cada vez mais importante entender a arquitetura do sistema.Flex de verdade: não basta mudar o software
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