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Com a resistência do Jeep e o conforto de um Aero-Wilys, a Rural foi a percursora dos atuais utilitários esportivos nacionais

Ao término da Segunda Guerra Mundial, a Willys-Overland Company, empresa norte- americana fundada em 1907, buscava novas aplicações para seu famoso utilitário Jeep

Por Anderson Nunes

A ideia era criar uma carroceria mais convencional, a ser montada sobre a mecânica do fora-de-estrada, que tinha como lema: “O sol nunca se opõem sobre um Jeep Willys”. 

A evolução do Jeep para o mercado civil havia começado ainda no front de batalha. Em 1944, foram desenvolvidos planos para utilizar o Jeep na agricultura. Com esse objetivo, a Willys-Overland produziu 22 protótipos do primeiro Jeep civil, com o nome de CJ-1A ou “Civilian Jeep”, a partir do primeiro modelo do exército.  

Em 17 agosto de 1945, era lançado o primeiro Jeep feito para as massas, o CJ-2A, ao preço de 1.090 dólares. A princípio os CJ-2A foram destinados principalmente para aplicações agrícolas, pecuárias e industriais. Vinham de fábrica apenas com o assento do motorista e espelho lateral esquerdo, porém havia uma farta lista de equipamentos opcionais, tais como: bancos para o passageiro dianteiro e traseiro, capota de lona, tomada de força na frente e atrás, limpador de para-brisa elétrico, aquecimento interno, proteção para os eixos.  

O sucesso do modelo foi estrondoso e até meados de 1947 mais de 214 mil Jeeps haviam deixado a linha de montagem na planta de Toledo, Ohio. A valentia do modelo ultrapassou fronteiras sendo vendido nos mercados europeus e asiáticos. A Willys avançou com a proposta de desenvolvimento da sua séria CJ com o lançamento do modelo CJ3A, que partir daí ganhou o mundo inteiro com o nome de “Jeep Universal”.  

JEEP PARA GRANDES FAMÍLIAS 

Após a Segunda Guerra Mundial a expansão econômica dos Estados Unidos aumentou de forma constante. Essa grande massa de trabalhadores e principalmente os veteranos de guerra que retornavam do conflito desejaram começar uma vida estável e mudaram-se em peso para os subúrbios. Casas com grandes jardins, rodeadas de cercas brancas, e casais com dois ou três filhos e mais um cachorro compunham essa nova família norte-americana.  

Para essas famílias deslocar-se até ao centro da cidade, havia somente os grandes sedãs ou utilitários de carga transformados em veículos de passageiros que nem sempre ofereciam o conforto e segurança necessário. De olho nesse filão de mercado dirigido para as grandes famílias, a Willys-Overland começou a trabalhar em um utilitário de passageiro que pudesse acomodar com conforto até sete passageiros mais bagagem.  

Para executar a tarefa de projetar o Jeep Wagon foi contratado o desenhista industrial Brooks Stevens. Entre as principais dificuldades que Stevens encontrou logo de início, era a grande demanda que os fabricantes de carrocerias independentes (companhia Fisher era a mais conhecida) tinham e que mal podiam atender principalmente às pequenas empresas como a Willys.  

Para contornar tal situação o projetista procurou uma alternativa. Stevens definiu-se por uma inovação: uma perua, com o máximo de componentes comuns ao Jeep e carroceria integralmente fabricada em aço. Isso ainda não existia nos Estados Unidos, onde as peruas eram elaboradas com estruturas de madeira adicionadas a sedãs. A carroceria de aço era eficiente para se produzir em massa, mais fácil de manter e mais segura do que as peruas dotadas de carroceria de madeira.  

Assim em 11 de julho de 1946, era lançado o Jeep Station Wagon montado sobre um chassi de 104 pol (2,64 metros) de distância entre-eixos e que baseava-se em linhas retas, para simplificar a estampagem da carroceria. Os para-lamas retilíneos eram os mesmos do Jeep militar e, para criar a impressão das conhecidas carrocerias de madeira, a única cor disponível era vinho com as laterais em creme e painéis em marrom-claro. 

O utilitário seguia a cartilha da simplicidade, robustez e economia. Levava sete passageiros com um comprimento total de 4,78 metros ou, se os bancos traseiros fossem retirados, mais de 2.700 litros de carga. O porta-malas tinha piso plano e a porta de acesso dividida na horizontal, uma parte se abrindo para cima e outra para baixo. A ausência de madeira facilitava a conservação da carroceria. O Jeep Wagon foi o primeiro produto Willys com suspensão dianteira independente que empregava um sistema de sete lâminas transversais. O conceito, batizado de "Planadyne" pela Willys, foi idealizada pelo chefe de engenharia Barney Ross em um projeto seu para a Studebaker na década de 30. 

O motor de quatro cilindros, com 2,2 litros e cabeçote em "F" (válvulas de admissão no cabeçote e de escapamento no bloco), era claramente subdimensionado. Oferecia apenas 63 cv e 14,5 m.kgf, lidavam com um peso 300 kg maior na perua, levando-a com esforço a 105 km/h de velocidade máxima. O câmbio de três marchas logo recebia um overdrive, mas a tração permanecia apenas traseira, somente em 1949 seria oferecida a perua 4x4, com feixes de molas semielíticas convencionais na suspensão dianteira. 

Em 1947 aparecia o Sedan Delivery, uma versão furgão da perua, sem as janelas laterais traseiras, com duas portas posteriores que se abriam para os lados e banco apenas para o motorista. No ano seguinte chegavam uma versão de luxo, a Station Sedan, e novas cores. Boas novidades eram os bancos mais confortáveis e a opção do motor Lightning (relâmpago) de seis cilindros em linha e 2,4 litros, com potência bruta de 72 cv, que melhorava bastante o desempenho. 

Para a linha 1950 foi adotada uma nova grade frontal em forma de V com cinco barras horizontais ao longo das verticais. Em 1953 a Willys foi absorvida pela Kaiser-Frazer Corporation. Em seu primeiro ano sob a posse da Kaiser foram adicionais detalhes de acabamento e pintura em dois tons ("saia-e-blusa"). A grande novidade era a introdução do novo motor de seis cilindros em linha Hurricane (furação) com potência de 115 cv, disponível somente para a versão com tração nas quatro rodas. 

Em 1955 a Willys retirou-se do mercado de carros de passageiros e renomeou seus utilitários para Utility Wagon. Versões para fins específicos passaram a ser oferecidas, como uma de seis portas, entre-eixos longo e três fileiras de bancos, para serviços de hotéis e aeroportos. Para a linha 1958 foi introduzida a série especial Maverick (seriado de TV patrocinado pela Willys), que acrescentava mais luxo ao utilitário. Externamente havia frisos, calotas e para-choques cromados. O cliente podia escolher oito combinações de pintura em dois tons que por sua combinavam com o acabamento interno. Já o interior trazia assoalho acarpetado, bancos mais anatômicos e rádio AM.  

Nove anos depois de lançada, a Willys Station Wagon deixava a linha de produção. Com mais de 300 mil unidades produzidas divididas entre versões de passageiros e de carga, foi um dos modelos pós-Segunda Guerra Mundial de maior êxito da Willys nos Estados Unidos. Em seu lugar foi apresentado o Jeep Wagoneer, que para muitos estudiosos do assunto foi o primeiro utilitário esportivo do mercado.  

O Wagoneer SJ ostentava um avançado motor de seis cilindros em linha, e que oferecia características inéditas na época em qualquer outro veículo 4WD convencional, como suspensão dianteira independente, direção hidráulica, transmissão automática, além do rádio de fábrica e ar-condicionado opcional.  

RURAL, A MÃE DOS UTILITÁRIOS ESPORTIVOS  

A Willys-Overland do Brasil S.A. foi fundada em São Bernardo do Campo, SP em 26 de abril de 1952. A empresa montava desde 1954 o Jeep Universal ainda com componentes importados dos Estados Unidos. Para diversificar a sua linha de produtos aqui no Brasil os dirigentes da Willys-Overland resolveram apostar na versatilidade e na robustez do Jeep Station Wagon. Na visão da companhia seria o modelo ideal para um país com vias de tráfego tão precárias quanto o nosso e além de atender às famílias que começavam a se motorizar.  

Em julho de 1956 a Rural começava a ser montada aqui, com peças importadas e com o mesmo desenho do modelo americano. A pintura "saia-e-blusa" (verde e branca, vermelha e branca ou azul e branca) dava um toque de charme a um utilitário rústico, com suspensões dianteira e traseira de eixo rígido com molas semielíticas, câmbio de três marchas com redução e tração 4x4. O motor a gasolina, de seis cilindros em linha e 2,6 litros, entregava modestos 90 cv. 

Três anos depois era adotado um motor nacional, fabricado em Taubaté - SP, mas ainda mantendo o visual do modelo estadunidense de 1946. Em 1960, era apresentada a nova Rural. O visual era obra do desenhista Brooks Stevens. Chamava a atenção sua frente dotada de um estilo próprio, exclusivo para o Brasil. Larga e agressiva, há quem diga que ela se parecia com a estrutura frontal do Palácio da Alvorada, em Brasília, se vista invertida. Vinham também o para-brisa e o vidro traseiro inteiriços, como no modelo norte-americano. 

A Rural caiu nas graças do público, tornando-se um veículo muito desejado. O mercado nacional era escasso de opções, havendo apenas a Volkswagen Kombi com capacidade de transportar uma grande família, ou um grupo de trabalho, por terrenos acidentados. Tornou-se comum ver a perua da Willys em frotas de serviços e também no uso urbano. O utilitário da Willys era visto cada vez nas ruas das cidades e isso motivou a empresa a lançar em 1964 a versão somente com tração traseira: tinha a alavanca de câmbio na coluna de direção e suspensão dianteira independente, com molas helicoidais, para um rodar mais confortável e melhor estabilidade. 

Outro fator que contribuiu para o sucesso da Rural foi seu constante aprimoramento tanto no tocante a mecânica como no conforto aos passageiros. Em 1965 ganhava limpador de para-brisa elétrico (não mais a vácuo), outra grade na versão 4x2 e câmbio de três marchas com a primeira sincronizada. Um ano depois, alternador no lugar do dínamo, carburador recalibrado para menor consumo e roda-livre para a 4x4. Novo painel de instrumentos, trava de direção, nova grade e câmbio de quatro marchas sincronizadas vinham em 1967. 

RURAL DA FORD 

Ainda em 1967 a Ford adquire as operações da Willys aqui no Brasil. Ciente do apelo que a Rural ainda mantinha perante aos seus proprietários, a marca do oval azul resolveu mantê-la em linha, ao contrário dos sedãs Aero-Willys e Itamaraty, que saíram de produção pouco tempo depois. A linha 1969 chegava às lojas nas versões, básica e Luxo, esta sempre em duas cores, além de contar com a nova coluna de direção para o modelo Luxo 4x2 (a mesma do Aero). No ano seguinte era introduzido o motor do Itamaraty, de 3,0 litros e carburador de corpo duplo, ainda com cabeçote em "F" e a opção do terceiro banco para passageiros.  

Em 1973 foi deflagrada a crise do petróleo e Ford teve de desenvolver um motor mais econômico para sua linha de veículos de passageiros e que de tabela também seria estendida ao utilitário. Para a linha 1975 a Rural passou a ser equipada com o novo motor de quatro cilindros de 2,3 litros, com comando de válvulas no cabeçote, este de fluxo cruzado, além de ser bem mais leve. O trem de força era o mesmo que passou a equipar o Maverick, mas na Rural foram efetuadas algumas modificações para atender melhor o perfil do utilitário.  

A potência foi reduzida de 99 cv para 91 cv, e o regime em que era obtida também baixou de 5.400 rpm para 5.000 rpm. O torque aumentou de 16,9 m.kgf para 17 m.kfg, e o regime em que isto ocorria passou dos 3.200 rpm para 3.000 rpm. Isto deixou o motor mais elástico, além de uma menor troca de marchas. A versão de quatro cilindros também surpreendia no desempenho, já que nos testes da revista 4Rodas de setembro de 1975 o modelo havia alçado velocidade máxima de 130 km/. Já o consumo média ficava na casa dos 7 km/l.  

Mas a Rural, renomeada Ford Rural desde 1972, estava envelhecida, com quase três décadas de mercado e a concorrência de outras grandes peruas, como a Chevrolet Veraneio, que embora bem mais cara preenchia a lacuna dos grandes utilitários. A produção da Rural chegava ao fim em 1977, permanecendo a picape Jeep por mais cinco anos. 

RURAL PREMIADA 

Encontrar um utilitário Rural em boas condições requer um grande exercício de busca e paciência. Foram carros criados para o serviço pesado e que até pouco tempo atrás não figuravam como um colecionável. Entretanto algumas pessoas de bom coração preservaram suas Rurais ao longo dos anos e hoje eles têm em mãos um pedaço da história automotiva brasileira. 

É o caso desta Ford Rural Luxo 1970 que ilustra nossa reportagem. De propriedade de João Ernesto de Paoli, um conhecido restaurador de carros da cidade de Vinhedo-SP, essa Rural é uma verdadeira volta ao tempo. O veículo foi totalmente desmontado e restaurado de forma minuciosa parte por parte. O charme do utilitário fica por conta linda combinação de cores: azul diplomata e branco alpino. 

A Parte mecânica e elétrica também foi revisada por completo. O motor 2,6 litros de 6 cilindros e câmbio está acoplado ao câmbio manual de 4 marchas na coluna de direção e funcionam em perfeita harmonia. Suspensão e freios também foram refeitos e deixam a Rural muito prazerosa na condução. 

O interior é outro chamariz já que possui ainda os bancos com os tecidos originais de fábrica. Outro atestado histórico é o manual do proprietário preservado. Porém, o que chama mais a atenção dessa Rural é o secador de cabelos Arno, que era entregue como um presente às mulheres dos proprietários, um item raro, além de ser uma bela peça de coleção. Devido a todos esses pormenores essa Ford Rural 1970 foi um dos carros premiados na Edição de 2018 do evento de carros antigos, em Águas de Lindóia, conquista merecida.  

Para realizarmos essa reportagem contamos a colaboração dos amigos da Frota do Cromado. A Frota do Cromado é uma empresa especializada na busca e comércio de veículos antigos e raros. Criada em 2018 por um administrador de empresas que preferiu não se identificar, a Frota do Cromado tem como visão compartilhar carros clássicos que marcaram gerações. “Para nós é uma grande satisfação quando encontramos aquele veículo antigo descansando em uma garagem ou estacionamento e que foi preservado ao longo tempo. Independente se seu dono queira vender ou não, a alegria de encontrar um pequeno tesouro, sob nosso ponto de vista já é uma grande satisfação”, explica o administrador. 

Acima de tudo o que move os ideais da Frota do Cromado é realizar o sonho de um amante de carros antigos a encontrar um veículo específico que marcou a sua vida. “Nós colocamos todo o nosso conhecimento em prática para que o cliente possa sentir a segurança e o prazer de dirigir um carro que marcou uma época de sua vida, sob esse ponto de vista nós o ajudamos a escrever essa história”, diz o fundador da empresa. 

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