
Durante muito tempo, os veículos elétricos foram vistos como modelos distantes da rotina das oficinas independentes. A baixa participação nas vendas, a pequena frota circulante e o desconhecimento sobre sua arquitetura faziam com que a maioria dos reparadores enxergasse esses veículos como algo reservado exclusivamente aos concessionários.
Todavia, esse cenário está mudando rapidamente com a chegada de fabricantes chinesas ao mercado brasileiro e a ampliação da oferta de SUVs elétricos, como o BYD Yuan Plus e o Leapmotor B10 começam a aparecer com frequência cada vez maior nas ruas e, inevitavelmente, também nas oficinas. Na visão do Professor Scopino, ainda há mecânicos com medo das novidades. "Muita gente ainda tem medo de atender um veículo elétrico, mas esse receio vem muito mais da falta de informação do que da dificuldade do carro. Quando entendemos onde está a alta tensão e quais sistemas exigem capacitação específica, percebemos que grande parte da manutenção continua sendo exatamente aquela que o mecânico já faz todos os dias. Suspensão, freios, pneus, amortecedores e diversos componentes podem ser reparados normalmente. O importante é conhecer os limites da atuação e acompanhar a evolução tecnológica, porque esses veículos já começaram a chegar às oficinas e essa tendência só vai aumentar”, analisou. Embora não sejam rivais diretos, ambos têm sistemas eletrificados distintos e, por isso, esse comparativo visa apresentar as novidades técnicas de cada um deles. Desta forma, a principal dúvida do reparador permanece a mesma: qual deles será mais fácil de manter? Foi justamente com essa proposta que o Professor Scopino, Sócio Mecânico do Scopino Auto Club, realizou uma análise técnica comparativa dos dois modelos, observando aspectos que normalmente passam despercebidos nas avaliações voltadas ao consumidor. Em vez de discutir apenas potência, autonomia ou acabamento, o foco esteve naquilo que realmente interessa ao mecânico: arquitetura mecânica, acesso aos componentes, facilidade de desmontagem, suspensão, sistema de freios e os desafios que cada projeto apresenta durante a manutenção. O vídeo completo pode ser visto no YouTube da Oficina Brasil. Entretanto, o resultado demonstra que, embora ambos pertençam ao universo dos veículos elétricos, as soluções adotadas por BYD e Leapmotor, essa uma marca do Grupo Stellantis, seguem caminhos diferentes e podem influenciar diretamente a experiência do reparador. Muitas comparações coloquem o BYD Yuan Plus frente ao Leapmotor C10, mas o Professor Scopino considera que o B10 também merece entrar nessa disputa por representar uma alternativa competitiva dentro do segmento de SUVs eletrificados. “Os dois modelos nasceram com propostas semelhantes: oferecer um utilitário esportivo totalmente elétrico, repleto de tecnologia embarcada, sistemas avançados de assistência ao motorista e autonomia suficiente para atender ao uso urbano e rodoviário”, avaliou. As semelhanças, entretanto, praticamente terminam aí. Logo nos primeiros minutos da avaliação técnica fica evidente que cada fabricante adotou uma filosofia distinta de engenharia. O Yuan Plus aposta em um projeto mais sofisticado, com acabamento interno superior, maior integração entre sistemas eletrônicos e um nível elevado de refinamento construtivo. Por sua vez, o Leapmotor B10 privilegia uma arquitetura mais simples e racional, facilitando o acesso aos componentes e reduzindo a complexidade em diversas operações de manutenção. Para o reparador independente, essa diferença pode representar economia de tempo durante diagnósticos, inspeções e substituições de componentes. Ao abrir o compartimento dianteiro dos dois veículos, a diferença de conceito aparece imediatamente. No Leapmotor B10, diversos componentes de manutenção periódica permanecem facilmente acessíveis. A bateria auxiliar de 12 volts fica posicionada de forma visível, a caixa de fusíveis pode ser localizada rapidamente e reservatórios como o do lavador do para-brisa e do fluido de freio permanecem próximos ao reparador, sem exigir desmontagens complexas. Até mesmo o sistema de inspeção visual se mostra bastante simples.Um exemplo citado durante a análise é o reservatório do lavador do para-brisa, que não possui sensor de nível. Isso obriga o mecânico a realizar uma inspeção visual convencional, procedimento semelhante ao encontrado em inúmeros veículos a combustão. No BYD Yuan Plus, por outro lado, a impressão inicial é diferente, uma vez que o acabamento é claramente mais elaborado. Grande parte dos componentes encontra-se protegida por capas plásticas, tornando o compartimento mais limpo visualmente, porém exigindo maior tempo de desmontagem quando é necessário acessar determinados sistemas. Segundo Scopino, essa diferença não representa exatamente uma desvantagem, mas demonstra que o projeto privilegia estética e integração, enquanto o B10 facilita o trabalho do reparador. Existe um mito bastante difundido de que veículos elétricos escondem completamente seus componentes mecânicos. Na prática, a avaliação mostra justamente o contrário. Nos dois modelos permanecem presentes elementos conhecidos de qualquer oficina: bateria de 12 volts, caixa de fusíveis, sistema hidráulico de freios, reservatórios de fluidos e diversos componentes convencionais. Naturalmente, os sistemas de alta tensão recebem isolamento específico e proteção adicional. Mas tudo aquilo que envolve manutenção preventiva continua bastante semelhante ao universo já conhecido pelos mecânicos. Essa organização dos componentes demonstra uma tendência importante da indústria: facilitar intervenções rotineiras sem comprometer a segurança dos sistemas elétricos de alta tensão. Se existe um sistema que surpreendeu durante a avaliação técnica foi a suspensão. Durante muitos anos, veículos chineses receberam críticas pelo acerto excessivamente macio, inadequado às irregularidades das vias brasileiras. Segundo Scopino, essa realidade mudou significativamente. “Os dois SUVs apresentam conjuntos muito mais robustos e bem calibrados, capazes de suportar o peso adicional das baterias sem comprometer a estabilidade ou conforto”, analisou. No Leapmotor B10, a suspensão chamou atenção pela robustez estrutural e pelo excelente equilíbrio entre conforto e estabilidade. O conjunto transmite confiança e demonstra que o fabricante realizou um trabalho cuidadoso de calibração. Segundo o especialista, esse é um dos melhores acertos encontrados no veículo. Já o Yuan Plus também evoluiu bastante.”A própria BYD realizou alterações importantes em relação às primeiras versões comercializadas no Brasil, tornando a suspensão mais firme e adequada às características do piso nacional, que é um processo conhecido no setor automotivo como "tropicalização””, disse Scopino. É somente quando os veículos são colocados no elevador que surgem as maiores diferenças. No Leapmotor B10, Scopino destaca que praticamente toda a manutenção de suspensão pode ser realizada de forma bastante simples. “Após a remoção das proteções inferiores, bandejas, bieletas, amortecedores e demais componentes tornam-se facilmente acessíveis. O sistema de freios segue arquitetura convencional, assim como sensores de ABS e rolamentos”, avaliou Scopino. Na avaliação do especialista, o modelo tem uma construção amigável para a oficina independente. “O conjunto traseiro utiliza suspensão multilink, oferecendo melhor distribuição das cargas geradas pelo peso das baterias e contribuindo para maior estabilidade dinâmica. Além disso, diversos pontos de regulagem permanecem acessíveis durante procedimentos de alinhamento e geometria”.. No Yuan Plus, a construção também impressiona, de acordo com o professor. “O SUV utiliza uma arquitetura mais sofisticada, incorporando suspensão independente multilink, sistema McPherson na dianteira e componentes dimensionados para suportar os elevados níveis de torque produzidos pelos motores elétricos. Outro detalhe observado foi o tratamento anticorrosivo aplicado em diversos parafusos e elementos estruturais inferiores, reforçando a preocupação da fabricante com durabilidade e proteção contra oxidação”, analisou. Embora o acesso a alguns componentes exija maior desmontagem devido aos acabamentos inferiores, a manutenção mecânica permanece bastante convencional para qualquer oficina equipada com elevador e ferramental adequado. Sob o ponto de vista do consumidor, o Yuan Plus impressiona pela potência, uma vez que na versão avaliada, o SUV conta com dois motores elétricos, tração integral (AWD) e aproximadamente 449 cv combinados. Já o Leapmotor B10 segue um conceito diferente, pois utiliza apenas um motor elétrico traseiro, entregando cerca de 218 cv, privilegiando eficiência energética e simplicidade construtiva. Entretanto, para quem trabalha na oficina essa diferença vai muito além dos números.A presença de dois motores significa maior quantidade de componentes eletrônicos, sistemas adicionais de arrefecimento, maior complexidade na gestão térmica e uma arquitetura elétrica naturalmente mais sofisticada. Já o Leapmotor aposta em uma construção mais enxuta, reduzindo a quantidade de elementos envolvidos em futuras intervenções mecânicas. Vale lembrar que o modelo da Stellantis é mais barato, vendido a partir de R$ 182,9 mil, enquanto o SUV da BYD sai por R$ 269,9 mil. Leia também Outro aspecto que chama a atenção durante a análise é a forma como cada fabricante organizou os sistemas de gerenciamento térmico. Nos veículos elétricos, controlar a temperatura deixou de ser uma preocupação exclusiva do motor. Baterias, motores elétricos, inversores e conversores trabalham constantemente sob controle térmico para garantir eficiência, desempenho e vida útil. No Leapmotor B10, o conjunto é relativamente compacto e bem distribuído. O reservatório do sistema de arrefecimento apresenta uma configuração diferente da encontrada nos veículos convencionais e faz parte de um conjunto integrado que reúne componentes do sistema elétrico e do ar-condicionado. Embora o conceito seja moderno, a disposição dos componentes facilita a identificação dos circuitos e torna a inspeção visual mais intuitiva para o reparador. No BYD Yuan Plus, a solução segue um conceito ainda mais integrado. Durante a avaliação por baixo do veículo, foi possível observar o percurso das tubulações de arrefecimento que ligam a parte dianteira ao conjunto motriz traseiro, refrigerando motor elétrico, conversor de corrente e demais módulos eletrônicos. O sistema demonstra um nível elevado de engenharia, utilizando trocadores de calor e gerenciamento eletrônico para controlar simultaneamente diferentes componentes do powertrain elétrico. Para o reparador, entender essa arquitetura será cada vez mais importante, principalmente em diagnósticos relacionados ao controle térmico dos veículos eletrificados. Se a comparação fosse feita apenas sob o ponto de vista do consumidor, potência, autonomia ou acabamento provavelmente seriam os fatores decisivos. Na oficina, porém, a lógica muda completamente, visto que o reparador observa facilidade de acesso, tempo de desmontagem, localização dos componentes, arquitetura da suspensão, simplicidade dos sistemas e possibilidade de executar serviços sem interferir na alta tensão. Nesse aspecto, o Leapmotor B10 leva vantagem em diversos pontos, uma vez que a arquitetura permite acesso mais rápido à bateria de 12 volts, caixa de fusíveis, reservatórios e diversos componentes mecânicos. A remoção das proteções inferiores também é relativamente simples, facilitando inspeções e substituições de itens de desgaste. O Yuan Plus, por sua vez, apresenta uma construção mais sofisticada e um nível maior de integração entre sistemas. Isso exige desmontagens um pouco mais elaboradas em algumas operações, mas também revela um projeto bastante refinado, pensado para oferecer maior proteção aos componentes eletrônicos. Segundo Scopino, nenhuma dessas características representa dificuldade para o reparador qualificado. “O que muda é apenas a estratégia de manutenção adotada em cada projeto”, analisou. Talvez a principal mensagem deixada pelo comparativo não esteja relacionada a potência, autonomia ou acabamento. O maior ensinamento da avaliação é mostrar que existe uma enorme quantidade de serviços que podem ser executados sem qualquer intervenção nos sistemas de alta tensão. Suspensão, freios, pneus, rolamentos, buchas, amortecedores, molas, direção, alinhamento e diversos procedimentos preventivos continuam seguindo conceitos praticamente idênticos aos encontrados nos veículos equipados com motores a combustão. Segundo Scopino, muitos profissionais deixam de atender esses veículos simplesmente por acreditarem que qualquer manutenção exige certificação em alta tensão, quando, na realidade, boa parte da rotina da oficina permanece exatamente igual. “Naturalmente, qualquer intervenção envolvendo bateria de alta tensão, cabos laranja, inversores, motores elétricos ou sistemas energizados exige capacitação específica, ferramental adequado e cumprimento rigoroso das normas de segurança. Porém, isso representa apenas uma parcela dos serviços que esses veículos demandarão ao longo de sua vida útil”, disse o professor. Outro aspecto destacado durante a avaliação é que os veículos elétricos continuam evoluindo em ritmo acelerado. Scopino faz uma comparação interessante com a evolução dos sistemas de injeção direta de combustível. Assim como a pressão de injeção aumentou ao longo dos anos e obrigou o mercado de reparação a acompanhar novas tecnologias, os veículos elétricos também passam por constantes aperfeiçoamentos em autonomia, gerenciamento eletrônico, sistemas de suspensão e eficiência energética. Isso significa que a atualização técnica deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade para oficinas que desejam permanecer competitivas. Quanto maior a frota circulante de veículos eletrificados, maior será a demanda por serviços de manutenção preventiva, substituição de componentes de desgaste, diagnósticos e reparos mecânicos convencionais. A comparação entre o BYD Yuan Plus e o Leapmotor B10 mostra que os fabricantes chineses chegaram ao mercado brasileiro com propostas distintas, mas um objetivo comum: oferecer veículos tecnologicamente avançados e preparados para disputar espaço com modelos tradicionais. Sob a ótica da reparabilidade, ambos apresentam soluções modernas e bem executadas. O Leapmotor B10 chama atenção pela simplicidade construtiva, facilidade de acesso aos componentes e excelente projeto de suspensão, características que podem reduzir o tempo de manutenção na oficina. Já o BYD Yuan Plus demonstra um nível superior de refinamento, integração eletrônica e sofisticação técnica, compensando a maior complexidade com uma arquitetura robusta e muito bem planejada. Independentemente da escolha do consumidor, uma conclusão parece inevitável: esses veículos passarão a fazer parte da rotina das oficinas independentes muito antes do que muitos imaginam. Desta forma, o profissional que compreender sua arquitetura desde agora estará em posição privilegiada para atender uma frota que cresce ano após ano. Para o mecânico, o maior desafio não será desaprender Mais do que estabelecer um vencedor, o comparativo entre BYD Yuan Plus e Leapmotor B10 evidencia que a nova geração de SUVs elétricos chega ao Brasil com projetos cada vez mais maduros. Cada modelo segue uma filosofia distinta de engenharia, mas ambos demonstram que reparabilidade e tecnologia podem caminhar juntas. Para o mecânico, o maior desafio não será desaprender a reparar automóveis, mas compreender novas arquiteturas e reconhecer que boa parte dos sistemas segue familiar. A oficina que investir em conhecimento técnico, sem receio de atender essa nova frota, estará preparada para aproveitar uma das maiores transformações da reparação automotiva nas próximas décadas.
Dois projetos diferentes para um mesmo mercado
O primeiro contato já mostra diferenças importantes
Arquitetura elétrica continua amigável para a oficina
Suspensão: onde os chineses mais evoluíram
Debaixo do elevador começam as respostas que interessam ao reparador
Potência não é tudo. A arquitetura faz diferença
Sistema de arrefecimento e gerenciamento térmico também entram na conta
Reparabilidade: onde está a maior diferença entre os dois SUVs?
Alta tensão ainda assusta, mas não deveria afastar as oficinas
A evolução da engenharia também muda o trabalho do reparador
O que o mecânico pode esperar dos próximos anos?