
Carro elétrico ou carro a combustão: qual deles apresenta a melhor realidade para o reparador? Colocados lado a lado na Avaliação do Reparador, quadro da Oficina Brasil no YouTube, o Geely EX2 e o Hyundai HB20 mostram que a resposta depende menos de escolher um vencedor e mais de entender como a evolução da tecnologia está mudando a rotina da oficina.
Na mesma faixa de preço, os dois modelos representam arquiteturas completamente diferentes. De um lado, o Hyundai HB20, um dos modelos mais vendidos no Brasil, equipado com motor 1.0 turbo de 120 cv, conjunto já conhecido pelos reparadores e que concentra diversos componentes de manutenção sob o capô. Do outro, o Geely EX2, elétrico de 116 cv e tração traseira, com menos itens mecânicos aparentes e uma estrutura que exige uma nova preparação profissional.
Para Kleberson Diego, sócio mecânico da Arcar, o primeiro impacto da comparação está justamente na quantidade de componentes. “O motor a combustão tem muito mais componentes. A gente tem motor, bico, vela, bobina, tem faísca, módulos, correias, várias coisas agregadas que têm manutenção. É diferente do motor elétrico”, afirma.

No HB20, a facilidade de acesso aos componentes foi um dos principais pontos destacados durante a avaliação. Segundo o reparador, turbina, bicos injetores, corpo de borboleta, bomba de alta pressão, bobinas, velas, bomba de vácuo e outros componentes estão posicionados de maneira relativamente acessível para os procedimentos de manutenção.
A troca de óleo e o acesso a componentes periféricos do motor também foram considerados simples. A mesma percepção se estende a itens como bateria de 12 V, caixa de fusíveis, reservatório do fluido de freio e fixação superior do amortecedor.
“O bom desse HB20 é isso, é facilidade de acesso. Turbina, bico, é fácil. Tirou o coletor pequenininho, a borboleta está aqui, a bomba de alta pressão também. Bobina e vela têm fácil acesso. É um motorzinho pequeno, fácil de acessar. É um carro bem bacana para o mecânico mexer”, avalia Kleberson.
Essa arquitetura, no entanto, também significa uma quantidade maior de sistemas sujeitos à manutenção. Injeção, ignição, lubrificação, correias e outros periféricos fazem parte de uma realidade já consolidada na oficina independente.
Na visão do reparador, essa ampla rede de manutenção ajuda a explicar uma das vantagens do veículo a combustão no Brasil: a disponibilidade de peças e de profissionais familiarizados com sua tecnologia. “Qualquer oficina, dependendo do local que você está. Preciso trocar uma bobina, preciso de uma peça, você encontra com facilidade. O combustão está enraizado aqui”, comenta.

Ao abrir o capô do Geely EX2, o cenário muda. Se no HB20 a avaliação percorre uma longa lista de componentes mecânicos, no elétrico há menos itens aparentes para manutenção.
A arquitetura concentra diversos sistemas sob proteções plásticas, enquanto componentes como a bateria de 12 V e o reservatório do fluido de freio aparecem entre os itens acessíveis na região dianteira. A comparação também evidenciou que determinados procedimentos podem exigir desmontagem de várias peças de acabamento.
No caso do acesso à região superior da suspensão, por exemplo, a avaliação apontou a necessidade de remover componentes plásticos, travas, parafusos e até os limpadores do para-brisa. O veículo também precisa ser colocado em modo de manutenção para determinados procedimentos.
“Tem que desmontar bastante coisinhas para poder se adequar lá e com cuidado. São peças plásticas, então tem que ter um pouco mais de cuidado para não quebrar”, explica Kleberson.
Para o reparador, essa é uma das diferenças que começam a alterar o perfil do profissional necessário para atender os novos veículos. “Hoje em dia esse carro praticamente, o coração todo do carro, é eletrônico. Praticamente tudo é eletrônico nesse carro”, afirma.
A redução dos componentes tradicionais de desgaste não significa, porém, o fim da necessidade de reparação. Na avaliação, o próprio Kleberson aponta que o mercado deverá migrar parte de seus serviços para outras especialidades. “Vai ter manutenção de bateria, vai ter outras coisas que a gente vai se adequar também. Vai diminuir talvez algum tipo de serviço, principalmente de motores. Não vai precisar abrir um motor de carro, trocar um bico ou uma bobina, mas a gente vai se adequar a outras coisas também.”

Outro ponto que diferencia o EX2 é a necessidade de atenção aos sistemas elétricos. A avaliação identificou um ponto de corte para situações de emergência, utilizado para o desligamento do sistema em caso de acidente ou necessidade de intervenção.
Os cabos e componentes ligados ao sistema de alta tensão também exigem conhecimento específico e procedimentos adequados. Para Kleberson, as proteções e coberturas existentes têm dois lados para a oficina.
“É uma vantagem e desvantagem. Tem mais dificuldade para acessar, mas também é segurança. Não é qualquer um que vai mexer, não vai meter a mão em qualquer cabo achando que pode mexer”, alerta.
A fala reforça uma mudança importante para o setor de reparação: no veículo elétrico, conhecer mecânica convencional continua sendo fundamental para freios, suspensão e demais sistemas, mas passa a ser necessário incorporar conhecimentos de eletrônica, diagnóstico e segurança elétrica.

A arquitetura do Geely EX2 também chama atenção pela posição do motor elétrico no eixo traseiro e pela utilização de tração traseira. O modelo conta ainda com suspensão traseira multilink, solução que amplia a sofisticação do conjunto quando comparada a sistemas mais simples.
Para o reparador, trata-se de uma configuração positiva, mas que pode tornar os procedimentos de manutenção mais complexos. “Suspensão é mais chatinha, não é qualquer um que mexe”, resume.
A comparação mostra, portanto, que a menor quantidade de componentes no trem de força não significa necessariamente que todo o carro elétrico será mais simples de reparar. A redução de itens como velas, bobinas, bicos injetores e componentes internos de um motor a combustão é acompanhada por novas arquiteturas, sistemas eletrônicos e procedimentos específicos.

Mesmo especializado há mais de duas décadas na reparação de veículos a combustão e com forte atuação em linhas francesas, Kleberson afirma que já está se preparando para a chegada dos elétricos à oficina.
“Estou fazendo cursos já. O mecânico, se não for atrás, vai ficar para trás. Estou fazendo cursos, estamos nos adequando com equipamento, porque é a realidade. Daqui a pouco vai bater na nossa porta”, afirma.
Para ele, a principal orientação aos profissionais é investir em atualização. “É só atualizar, ir atrás de cursos, se profissionalizar na área. Vai precisar. A gente que é jovem tem que se adequar a isso, porque é o futuro, e é futuro próximo.”
No fim, a batalha entre Geely EX2 e Hyundai HB20 não tem um vencedor absoluto quando o assunto é reparação. O HB20 leva vantagem na familiaridade da oficina, facilidade de acesso e disponibilidade de uma mecânica amplamente conhecida. Já o EX2 reduz significativamente a quantidade de componentes tradicionais de manutenção, mas transfere o desafio para novas áreas, especialmente eletrônica, diagnóstico e sistemas elétricos.
Para o reparador, a principal conclusão da comparação é clara: o motor a combustão continuará exigindo conhecimento e manutenção por muitos anos, enquanto o carro elétrico já começa a exigir uma nova preparação técnica. Mais do que escolher entre um ou outro, a oficina terá de aprender a conviver com os dois.