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Fiat 500 1.4 Turbo Abarth tem sobrenome de respeito, mas poderia ser um pouco mais ousado!

Reparadores avaliaram o conjunto, a performance e a reparabilidade deste atrevido compacto, que ostenta a lendária grife Abarth, digna de um esportivo italiano puro sangue

Por da redação


Abarth é sinônimo de carros esportivos personalizados, preparação de motores para alta performance, vitórias, recordes e desafios inacreditáveis superados. 

A saga de seu fundador, Karl Abarth, começa na Áustria em 15 de novembro de 1908, quando nasceu sob o signo de escorpião; passa pelo período que antecede a segunda guerra mundial, quando mudou-se para a Itália em 1934, adotando a nova nacionalidade com o nome Carlo Abarth; e termina com seu falecimento em 23 de outubro de 1979, também sob o signo de escorpião, símbolo (foto 1) que ele adotaria para a sua mitológica empresa de preparação, a Abarth&Co., fundada em 1949.

A sua rica trajetória esportiva inclui uma vitoriosa carreira como piloto de motos (foto 2A), triciclos (foto 2B) e automóveis (foto 2C), sendo que ele mesmo era responsável pela preparação, projeto, e em muitos casos até mesmo pela fabricação de seus bólidos. Vencer desafios era um de seus vícios, e em 1930 ele encarou e saiu vitorioso em um improvável desafio contra o famoso trem Orient Express, numa disputa de 1.372 km entre Ostende (Bélgica) e Paris (França).

Dois acidentes gravíssimos, um com moto e o outro com triciclo, quase lhe custaram a vida, e isso acabou o levando ao mundo das quatro rodas, onde continuou vencendo nas pistas. Mas o que perpetuou a sua marca no mundo automobilístico foi a fabricação de kits de preparo para modelos de rua. Um dos primeiros modelos de grande sucesso foi o kit de modificação da transmissão e escapamento do popularíssimo Fiat Topolino, tornando-o mais esportivo.

A partir dos anos 50, a Abarth desenvolveu kits e modelos para a Fiat, Ferrari, Alfa Romeo e Lancia, sempre com enorme sucesso, seja nas pistas ou nas ruas. Em 1958, nascia uma parceria antológica com a Fiat, baseada no icônico modelo 500 (foto 2D), e até 1965, esta dupla (foto 2E) colecionou nada menos do que 900 vitórias e quebrou 6 recordes mundiais de velocidade. Em 1971, a Fiat comprou a Abarth, que hoje é responsável pela personalização em design, performance e tecnologia de ponta aplicados em modelos exclusivos da marca.

 De volta ao século XXI, para avaliarmos se o novo 500 Abarth faz jus ao glorioso passado da marca, convidamos 3 experientes reparadores do Guia de Oficinas Brasil para registrarem as suas impressões, e são eles:

 Alexsandro Rodrigo Mercadante (foto 3), reparador e empresário, 37 anos, há 20 anos no segmento automotivo e proprietário da Miki Motors Imports, localizada na cidade de Campinas-SP, empresa dedicada à manutenção de veículos do segmento premium, além de efetuar diagnósticos técnicos avançados em eletrônica e mecânica automotiva. Rodrigo da Miki Motors, como é conhecido, também é colaborador técnico do Jornal Oficina Brasil.

Marcos Aurélio (foto 4), 40 anos, reparador e empresário, trabalha desde os 14 anos no segmento. Começou com o pai, Sr. Aurélio, que fundou a empresa da Aurélio Imports em 1987, localizado no Jardim São Paulo, na Capital Paulista, onde atendem muitos clientes com carros importados do segmento premium.

Sílvio Pacheco Medeiros (foto 5), 53 anos, 43 anos no setor. Aos onze anos de idade já ajudava o pai, que tinha uma oficina. Em 1985 fundou a Interceptor, localizada no bairro Alto da Lapa, em São Paulo – SP, mais voltada ao segmento de preparação de motores para competição. Porém, com o falecimento de seu pai (há 16 anos) e do irmão (há 4 anos) que tocava a antiga oficina mecânica, Sílvio unificou as empresas e voltou a atuar na manutenção automotiva tradicional.

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

A aparência externa não chega a empolgar os reparadores, mas agrada e evidencia que se trata de um 500 diferenciado (foto 6), equipado com rodas aro 16” e pneus de perfil baixo 195/45 R16, pinças de freio (nas quatro rodas) pintadas na cor vermelha (foto 7), para-choques personalizados (foto 8), escapamento duplo cromado (foto 9), faixas laterais, e principalmente os escudos do mítico escorpião da Abarth, espalhados pelo carro, tanto na parte interna quanto externa. A versão top de linha, equipada com teto solar e som original Beats, fica em R$ 100.741,00.

 

Já internamente, o compacto esportivo surpreende positivamente, e arranca muitos elogios. Rodrigo comenta: “O acabamento interno é muito bacana e refinado, com bancos em formato concha (foto 10), revestidos em couro com detalhes de costura aparente, e teto solar (foto 11)!” 

Marcos concorda, e se surpreende com outro detalhe: “Os italianos dão um show nesta parte de design e acabamento, e capricharam neste Abarth. E olha só este som original, é um Beats (Beats Premium Audio System – foto 12), coisa fina! O painel e os instrumentos em LCD (foto 13) formam um conjunto de muito bom gosto, e o carro é bem completo. Faltou apenas sensores ou uma câmera de ré.” 

 

Sílvio relembra seus tempos de preparador, e valoriza alguns detalhes de pilotagem: “o marcador de pressão do turbo (foto 13) é bem legal, e vai agradar os compradores deste tipo de carro. O volante com a base reta (foto 14), os bancos em formato concha que abraçam bem o piloto, e a transmissão manual são perfeitos para quem curte pilotar um carro esportivo.” 

DIRIGINDO O 500 ABARTH

Os números de desempenho divulgados pela montadora são respeitáveis:
 
 
 


 
 



 
 
 
Existem dois modos de condução, o normal que privilegia o consumo de combustível, e o Sport, com uma pegada bem mais esportiva. No modo normal, a pressão da turbina é limitada eletronicamente a 0,8 bar, enquanto no modo Sport a pressão é liberada até 1,24 bar. O torque no volante também é ajustado, e fica mais firme no modo Sport. E no comando do atrevido 500 Abarth, cada reparador resume as suas impressões:

Rodrigo: “A posição de dirigir e a visibilidade é muito boa, e o desenho, diâmetro, opções de regulagem e pegada do volante são bem adequados. Os bancos são excelentes, e a Fiat mostra mais uma vez que sabe posicionar muito bem um motorista. Para uso urbano, a suspensão é seca demais, principalmente a traseira, que pula muito, e a dianteira já faz um barulhinho incômodo. Em nossas esburacadas ruas, o pneu de perfil baixo agrava a situação, pois a dinâmica da suspensão é para velocidade, e não para absorção de irregularidades em piso urbano, pois o carro tem o centro de gravidade baixo, e fica bem rente ao solo. Em compensação na estrada, o carro é muito estável, não sai da trajetória, e a traseira não escapa.


A aceleração é boa, mas ela é progressiva, mesmo no modo Sport. A turbina poderia dar um pouco mais de pressão na saída, pois a percepção é de que o motor “enche mesmo” somente a partir dos 4.000 rpm. A eletrônica não deixa o motor dar aquele “spanco” que faz você grudar no banco, típico de carro turbo, e isso pode frustrar um pouco alguns compradores, pois faltou um pouco de “pegada” na arrancada. A potência e o torque são muito bons para a cilindrada do motor, mas para quem procura emoção, um Mini Cooper por exemplo é bem mais “agressivo” esportivamente falando, e mais gostoso para acelerar.”

Marcos: “Infelizmente este não é um carro projetado para andar em nossas ruas, e nem todo consumidor brasileiro entende isso. Veja só, com 7.000 km rodados este carro já faz alguns barulhos internos e na suspensão, mas é um carro com proposta esportiva, com suspensão rígida, e o problema na verdade são as nossas ruas. Esse é um carro para se usar nos finais de semana para pegar uma boa estrada, bem asfaltada. Não é recomendável para o uso no dia a dia urbano. A Engenharia da Fiat fez um belo trabalho neste motor, e no modo Sport ele fica bem esperto, bem divertido, e a turbina já atua desde as rotações mais baixas. Mas infelizmente nas áreas urbanas, não temos ruas e nem avenidas para andar com este tipo de carro. Os ajustes entre o modo Normal e Sport são bem interessantes na performance e no volante, mas a suspensão permanece a mesma, e por isso vai ser muito castigada em cada lombada, buraco ou ondulação das ruas.”

Sílvio: “Como todo carro com proposta tipicamente esportiva, a suspensão é um pouco dura para uso urbano em decorrência da recalibragem de molas e amortecedores, e pela escolha de pneus com perfil mais baixo. Em compensação, na estrada ou em uma pista, a estabilidade e o controle é excelente em curvas de alta, e o carro gruda no asfalto, mesmo com algumas ondulações, tornado a pilotagem bem segura e divertida. A relação do entre-eixos curto e a bitola larga também favorecem a estabilidade. O modo Sport funciona como um “over booster” e transforma o carro, mudando o painel, pressão do turbo, performance do motor, volante, muito interessante. Comparado com o motor aspirado, a potência e o torque disponíveis são excelentes, mas devido aos controles eletrônicos, não dá para dizer que o carro é um “canhão”, empolgante, pois a aceleração, mesmo com pé em baixo é progressiva e controlada, ao contrário de um carro turbo montado, que despeja a potência de uma vez e com acelerações “estúpidas”. Lógico, a Fiat precisa privilegiar emissões de poluentes, consumo, segurança, e principalmente a durabilidade do motor, pelo menos acima de 100.000 km, e dentro deste contexto, o desempenho do 500 Abarth é bem interessante.” 

E Sílvio complementa: “gostei do câmbio manual de 5 velocidades, com marchas bem escalonadas, e trocas rápidas e eficientes que minimizam a variação de rotação do motor na faixa de 1.000 rpm, aproveitando sempre a faixa de torque máximo do motor. Gostei também do assistente de saída em ladeira (Hill holder), uma função bem útil e cada vez mais presente.”

Os reparadores valorizam ainda os diversos recursos de segurança implementados, como os sete air bags (dois frontais, dois Side Bags, dois Window Bags e Knee Bag), freios ABS com EBD (Electronic Brake-force Distribution), ESS (Emergency Stop Signal), ESC (Electronic Stability Control), TCS (Traction Control System) e TTC (Torque Transfer Control). 

 

MOTOR 1.4 MULTAIR 

16V TURBO

O motor 1.4 Multair preparado pela Abarth (fotos 15 e 16) chama a atenção pelas soluções técnicas e esmero no acabamento, com destaque para o turbocompressor com controle eletrônico da válvula de alívio (wastegate), e o duplo sistema de intercooler (foto 17), com um radiador de resfriamento de ar posicionado em cada lado do para-choque dianteiro. 





 

 

 

 

 

 

 

 

 E Rodrigo prossegue nas dicas: “Para mexer em componentes na parte frontal do motor como o turbo e sistema de arrefecimento por exemplo (foto 20), o ideal é remover todo o conjunto conhecido como mini-frente, que inclui a travessa, painel frontal e para-choque dianteiro. Este conjunto é de fácil remoção e montagem, pois as fixações são por parafusos.”


Marcos observa: “ A instalação da turbina é muito limpa e caprichada. O intercooler duplo (fotos 21 e 22) mostra a preocupação da Abarth em resfriar de forma eficiente o ar que vai para dentro do motor, pois isto diminui o efeito ‘turbo lag’ e gera mais potência e respostas rápidas.

 

Sílvio observa que o acesso para a sonda pré-catalisador é feito por cima (foto 20), e para a pós-catalisador é feito por baixo (foto 23), sem maiores dificuldades.


Mas na parte baixa do motor, um item causa preocupação dos reparadores, pois devido à baixa altura livre do solo, as extremidades do parachoque dianteiro, nas quais ficam abrigados os trocadores de calor do intercooler, raspam com bastante frequência no chão, principalmente em lombadas e valetas, e até mesmo as mangueiras de passagem do ar já apresentam marcas (fotos 24 e 25), e os reparadores alertam que se a mangueira furar, afetará seriamente o funcionamento do motor, e dependendo da situação poderá deixar o cliente na rua. Portanto em toda revisão, convém observar atentamente o estado destas mangueiras do intercooler. 

Sílvio registra as suas observações do motor: “A turbina deve ser bem resistente, e é refrigerada a água por uma bomba auxiliar. Outro aspecto positivo é o posicionamento alto da turbina, que favorece o retorno do óleo que lubrifica o sistema, aumentando a sua vida útil. A troca da correia de acessórios é relativamente tranquila pelo lado direito do motor (por baixo), e os comandos são acionados por corrente, ou seja, um item de longa durabilidade e baixa frequência de manutenção. O esgotamento de óleo do cárter seria bem tranquilo, mas para se executar um serviço limpo, o ideal é remover a travessa que fica bem na direção do bujão (foto 26).” Marcos e Rodrigo concordam, e também recomendam remover a travessa na troca de óleo, e observam que os parafusos que seguram esta peça também sofrem impactos contra o asfalto, e por isso é interessante substituí-los periodicamente se estiverem muito danificados.

Um aspecto técnico frustrou os entrevistados, que é a adoção da injeção indireta de combustível, e eles comentam: “se fosse um carro normal, sem problemas, mas trata-se de um Abarth, que deveria incorporar o que existe de mais avançado em tecnologia automotiva. A injeção direta proporcionaria um desempenho ainda melhor para este carro, e nisso eles ficaram devendo.”

 

SUSPENSÃO, FREIO E DIREÇÃO

A suspensão dianteira é independente (foto 29) do tipo Mc Pherson, e conta com molas, amortecedores, discos ventilados e pinça flutuante com pastilhas maiores, todos redimensionados e recalibrados para um comportamento de alta performance (foto 30).

Rodrigo observa que a bandeja é de ferro fundido e vem com o pivô prensado, e portanto em uma eventual troca o conjunto deve ser substituído, e comenta: “tecnicamente é a melhor solução, mas fica mais caro para o consumidor.” Marcos avalia que a manutenção na suspensão e freio dianteiro segue o padrão Fiat, sem segredos, e faz uma constatação: “não localizei o sensor de desgaste da pastilha, portanto é um item para ser observado nas manutenções periódicas.”

A suspensão traseira é semi-independente com travessa de torção (foto 31), e na versão Abarth recebeu uma barra estabilizadora adicional, e Sílvio comenta: “a barra estabilizadora deixa a suspensão mais rígida na traseira, e reduz com eficiência o efeito ‘rolling’, mantendo a altura das duas rodas traseiras mais próximas, evitando que o carro se incline demasiadamente nas curvas de alta velocidade. O amortecedor traseiro é inclinado, o que melhora o seu desempenho típico de carro esportivo, além de facilitar o processo de troca.”

Rodrigo faz algumas considerações: “o acionamento do freio de mão é na alavanca, que aciona diretamente a pinça traseira (foto 32). Nos procedimentos de manutenção, a liberação da pinça traseira é feita por scanner. Quando existe alguma função eletrônica no freio, como assistente de ladeira, por exemplo, que equipa este carro (Hill holder), é muito importante, antes de desmontar o sistema, conferir via scanner se há a opção de liberação do freio para manutenção. Se pedir, deve ser feito, pois isso evita o recolhimento acidental do êmbolo, e se desmontar o conjunto sem fazer a liberação, aí já é tarde.”

Marcos observa outros itens no ‘undercar’: “a coifa do amortecedor dianteiro é larga, e a mola é estreita. A do lado esquerdo está meio solta, e provavelmente é ela que está fazendo aquele barulho “cloc cloc” quando passa nos pisos irregulares. O silencioso traseiro exclusivo da Abarth é bem dimensionado e feito em aço inox. Além de muito bonito, produz um ronco bem legal. Deve durar muito tempo, mas na hora de trocar, vai ser difícil de encontrar, e vai doer no bolso. Ele (silencioso) ocupa o lugar do estepe, que foi substituído pelo kit de reparo e os pneus de rodagem são do tipo runflat, que deveriam ser mais resistente, mas na prática, tem apresentado muitos problemas de bolhas nas laterais.”

 

Rodrigo avalia que pelo posicionamento da caixa de direção (foto 33), será necessário abaixar o agregado para se ter um melhor acesso em caso de manutenção. O motor elétrico fica posicionado na coluna de direção (foto 34).

E Marcos alerta que carros turbos são equipados com bomba de vácuo no sistema de freios, que substituem a função do hidrovácuo, uma vez que o coletor de admissão trabalha sempre com pressão positiva, alimentado pelo turbocompressor. 

 

ELÉTRICA E OUTROS COMPONENTES

Marcos avalia que o módulo instalado bem ao lado dos conectores da bateria (foto 35) exige critério na manutenção, e justifica: “é preciso utilizar baterias de primeira linha na reposição, e sempre observar o estado dos conectores. Já pegamos carros de clientes que usaram baterias baratas, e o zinabre formado nos terminais acabou corroendo e afetando o módulo.” 

Rodrigo constata que os acessos ao motor de arranque (foto 36) e alternador (foto 37) são razoáveis. Já o compressor do ar-condicionado, posicionado acima do alternador, vai exigir a remoção de outros componentes, como o coletor por exemplo.

Silvio observa a facilidade de acesso ao tanque de combustível (foto 38), canister, e conjunto bomba e filtro de combustível, que ficam dentro do tanque, com tampa de acesso pela parte superior.

O conector OBD é bem acessível e fica abaixo do painel, lado esquerdo (foto 39). 

 

 

INFORMAÇÕES TÉCNICAS

 

Os entrevistados reconhecem a importância da Fiat como uma das montadoras pioneiras na abertura de informações técnicas aos reparadores independentes, e fazem as suas avaliações:

Rodrigo (foto 40): “Informações técnicas vindas da montadora, através de um portal dedicado, é uma iniciativa excelente, porque ainda temos muitas restrições no mercado em relação às outras montadoras. Vez ou outra precisamos recorrer a informações vindas de outros países. No reparador Fiat, já temos um leque bastante amplo de informações, que ainda não é completo, mas já ajuda muito! Isso é muito positivo para nós reparadores e para aqueles clientes da marca que já não frequentam as concessionárias. A Fiat sai na frente das outras montadoras com esta importante iniciativa, ao contrário de algumas montadoras, que ainda estão preocupadas apenas em vender seus carros, e deixam que o mercado ‘se vire’ com a manutenção.”

 

Marcos (foto 41): “apesar da Fiat ter o portal do reparador, para este carro as informações são específicas, e provavelmente vamos precisar recorrer à literatura estrangeira. Mas pelo menos  a Fiat ainda dá essa ajuda para o reparador independente, e a tendência é a base de informações ficar cada dia mais completa. Com um scanner de mercado, consigo ler os principais parâmetros do veículo, e zerar os itens de manutenção, o que já é um bom indicador para as rotinas de manutenção.”

 

 

Sílvio: “as montadoras começam a abrir o acesso às informações técnicas, pois finalmente enxergaram que é o reparador que gera a demanda por peças, e principalmente pela venda do carro novo, pois boa parte dos meus clientes pedem a minha opinião quando vão trocar de veículo. E é evidente que se uma montadora dificulta o acesso às informações, e não possui uma boa logística de peças de reposição, nós vamos conscientizar o cliente sobre estes problemas, e acabamos indicando uma opção mais adequada às suas expectativas e necessidades. Nesse aspecto a Fiat está na frente, pois sempre é a pioneira em várias frentes, tanto na tecnologia quanto na visão de mercado. O conteúdo do portal é bom, mas pode melhorar ainda mais. Aqui na Interceptor, nós temos um treinamento interno por semana, e pelo menos um treinamento externo todo mês, mas o custo deste processo é alto. Aliás, o alto custo de treinamento e capacitação gera a dificuldade de contratação no mercado, pois a maioria das oficinas não quer investir na formação do profissional, e quem investe, muitas vezes perde esta mão de obra para os concorrentes. Mas se todo mundo pensar assim, não teremos mão de obra qualificada no mercado. Temos que mudar esta mentalidade, e persistir na formação de novos profissionais, e neste sentido, as montadoras poderiam ser um grande aliado, e ajudar as oficinas independentes, disponibilizando mais cursos e treinamentos.”

 

PEÇAS DE REPOSIÇÃO

 

O acesso ao catálogo eletrônico de peças no portal reparador Fiat (foto 42) é outra ferramenta muito elogiada pelos entrevistados, mas outros aspectos que envolvem peças de reposição precisam ser considerados, conforme depoimentos:

Rodrigo: “o acesso ao catálogo eletrônico, no qual podemos visualizar pelo número do chassi o código exato, vistas explodidas e imagem das peças, é uma ferramenta de utilidade gigantesca para os reparadores, e todas as montadoras deveriam oferecer esta solução. Mas se por um lado a montadora nos favorece, aqui na região de Campinas, as concessionárias Fiat oferecem condições  comerciais com valores muito próximos entre o consumidor final e os reparadores, e isso dificulta a comercialização de peças genuínas. Nesse aspecto as concessionárias VW e Chevrolet são mais atrativas. Por essa razão, aqui na Miki Motors o nosso mix de compra de peças fica em torno de 10% nas concessionárias; 50% nos distribuidores e importadores especializados, e 40% no varejo. No carro avaliado, observei a presença de algumas peças com a marca Mopar, que é comum para os modelos FCA (Fiat Chrysler Automobiles).” 

Marcos: “em virtude da crise econômica, algumas concessionárias estão com problemas de fornecimento de peças, e elas sugerem colocar o pedido em outra concessionária, e isso é preocupante porque estamos falando de grupos grandes que atuam aqui em São Paulo-SP. Para o 500 Abarth, eu imagino que teremos problemas, pois ele nem consta no catálogo eletrônico da própria Fiat, e considerando que ele tem vários itens exclusivos que serão de baixo giro no mercado, acredito que pouquíssimas concessionárias manterão este item em estoque. E mais, o 500 é produzido no México, e a grande maioria dos itens são importados. Há um tempo atrás, a encomenda que fizemos de uma bomba de combustível do 500 normal levou mais de um mês para ser atendida.” 

Sílvio: “hoje no mercado de peças de reposição, estamos com dificuldades em todas as linhas, e com a Fiat não é diferente. Para o 500 a situação é mais crítica, porque ele é fabricado em vários países e muda muito a configuração de um país para outro. O Abarth vem de Toluca no México, que é mais um complicador, e posso prever que será problemático, porque será um carro de vendas limitadas e o giro das peças será baixo na concessionária, ou seja, ao invés dos tradicionais 3 a 5 dias para a disponibilização do componente, a demora pode ser bem maior. Na questão comercial, antigamente o reparador tinha uma margem satisfatória para revenda, mas atualmente com a questão da substituição tributária, as margens de desconto caíram, e o reparador trabalha com margens muito estreitas. A solução está no mercado alternativo com qualidade original, talvez com um prazo de garantia menor, mas em que as margens ainda são razoáveis. No caso do 500 Abarth, a saída pode estar nos importadores especializados, mas há uma tendência de ficarmos reféns da concessionária em diversos itens, e se o prazo de entrega não for bom, vai impactar negativamente no nosso negócio, pois ocupa lugar na oficina, e na imagem do modelo perante o cliente, que fica insatisfeito com a indisponibilidade do veículo. Hoje em dia, infelizmente quase todo carro que entra na oficina fica ocupando espaço, de dois a três dias, somente aguardando a entrega das peças, o que é muito ruim, e difícil de se administrar.”

 

RECOMENDAÇÃO

 

Frequentemente os reparadores entrevistados são consultados para ajudar clientes a decidirem sobre a compra de um novo veículo, e acompanhe na sequência o que eles pensam sobre o 500 Abarth:

Rodrigo: “se a pessoa estiver com muita vontade de comprar o carro, eu indicaria do ponto de vista técnico, mas faria todas as ressalvas e alertas sobre os aspectos que podem apresentar problemas conforme avaliamos. Como montadora, a Fiat evoluiu muito de uns anos para cá em questão de qualidade, durabilidade e custo de manutenção, que a cada dia está mais competitivo. Motores Fiat por exemplo, a cada ano se mostram mais robustos e confiáveis, e o índice de quebra vem diminuindo. Uma parte disso se deve à mudança de cultura em relação ao uso do lubrificante correto. Antigamente se usava qualquer óleo, e hoje em dia se aplicarmos sempre o lubrificante exato, a vida útil do motor é prolongada. Sobre o carro, o que ele tem de melhor é a personalização Abarth! Mas se a pessoa quer um carro turbo bem ‘apimentado’, vou alertar que ele não é como um turbo ‘de rua’. Entre os turbos de montadora, ele fica em vantagem sobre o UP TSi, mas perde para o Mini Cooper, que por outro lado é bem mais caro. O ponto crítico será a dificuldade de obtenção de algumas peças de reposição, e que certamente serão caras, pois são itens exclusivos para a versão Abarth.”

Marcos: “este é um carro que tem um perfil certo de comprador, e infelizmente pelo alto preço, está distante da realidade financeira da maioria dos brasileiros. Quem compra um carro desses, não é para uso do dia a dia, e sim para se divertir nos finais de semana, ou mesmo como um modelo muito interessante para colecionadores. Normalmente esse perfil de cliente não terá maiores dificuldades para arcar com o tamanho da conta de manutenção, que será cara. Eventualmente se o carro ficar parado algumas semanas aguardando peças de reposição, também não será um problema, pois ele costuma ter outro carro para o uso diário. Pela avaliação, reforço que não é um carro adequado para uso urbano na maioria das cidades brasileiras. E considerando que o interessado tem este perfil que falei, recomendo sim a compra pela ‘máquina’ que é, pois ele tem ‘alma’! Gostei do carro, mas infelizmente, é para poucos.”

Sílvio: “sempre que sou consultado, eu tento analisar com o ciente a real necessidade dele. Na maioria das vezes quando ele quer comprar um carro como esse, desconhece algumas ‘armadilhas’ ocultas, como por exemplo a dificuldade que teremos para obter algumas peças de reposição. Outro aspecto a ser considerado é a dificuldade de revenda deste veículo no futuro, pois é um carro de nicho, e a depreciação nestes modelos mais sofisticados e exclusivos é maior. Então, a gente alerta o cliente sobre estes aspectos. Para um cliente com bom poder aquisitivo que não se preocupa muito com esta questão, e pode dispor de outros veículos alternativos quando este ficar parado para manutenção, tecnicamente é um veículo recomendável. Na questão reparabilidade não apresenta maiores problemas, embora a mão de obra seja mais cara decorrente do maior número de horas necessário para execução dos serviços. Além da mão de obra mais trabalhosa, o preço das peças pode assustar alguns desavisados, pois como exemplo, comprar a grade dianteira de um 500 é uma coisa, mas comprar a grade dianteira do 500 ‘Abarth’ é outra coisa, sem contar a diferença do tempo de entrega.”

 

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