
A troca do amortecedor dianteiro do Peugeot 208 exige mais do que retirar a peça antiga e instalar uma nova. O procedimento envolve uma sequência de cuidados que começa ainda no diagnóstico, passa pela desmontagem do conjunto e exige atenção ao posicionamento de mola, batente, coxim e demais componentes durante a montagem. Um erro em qualquer uma dessas etapas pode provocar ruídos, desgaste irregular ou até comprometer o funcionamento da suspensão.
Em um Peugeot 208 com pouco mais de 110 mil quilômetros rodados, o mecânico Alexandre Vrunski realizou uma avaliação completa antes de iniciar o serviço. O objetivo era identificar não apenas a condição dos amortecedores, mas também possíveis problemas em componentes que trabalham em conjunto com eles.
“Vamos dar uma analisada geral na suspensão. Além do amortecedor, não é só ele que vai causar desgaste. O mau uso e o jeito de andar também podem provocar barulhos na suspensão. Vamos levantar o carro e fazer um diagnóstico geral”, explica Alexandre.
A inspeção mostrou que o veículo apresentava desgastes em diferentes pontos. O pivô e a bucha da bandeja estavam comprometidos, os batentes traseiros apresentavam deterioração e o coxim do amortecedor dianteiro já mostrava sinais de desgaste. O amortecedor, por sua vez, não apresentava vazamento, mas apresentava perda de eficiência e foi substituído de maneira preventiva devido à falta de histórico de manutenção do veículo.
Com o carro elevado, o primeiro passo é procurar folgas no sistema. Segundo Alexandre, o reparador deve verificar pivô, bucha da bandeja, terminal de direção, braço axial, amortecedor e demais componentes que possam apresentar movimentação anormal.
“Esse é um teste simples que todo mecânico pode fazer. Quando existe uma folga muito excessiva, você percebe até pelo barulho. Algum componente da suspensão pode estar solto, como pivô, bandeja, braço, terminal ou até algum elemento da direção”, explica.
Os pneus também fazem parte do diagnóstico. O padrão de desgaste pode indicar problemas na suspensão ou na geometria do veículo. Desgastes nas regiões interna ou externa da banda de rodagem, por exemplo, podem indicar que há algum componente ou ajuste que precisa ser investigado.
“Os pneus são o reflexo da suspensão. Quando estão comidos por igual, é sinal de que o conjunto está trabalhando normalmente. Quando existe desgaste interno ou externo, é preciso procurar alguma coisa fora da suspensão”, afirma o mecânico.
No veículo analisado, o desgaste dos pneus era uniforme, sem indicação de desgaste prematuro. Porém, a inspeção dos componentes revelou que havia outras intervenções necessárias.
A inspeção dos amortecedores traseiros mostrou um cenário comum em veículos que já passaram por manutenção: o amortecedor havia sido substituído anteriormente, mas o batente permaneceu no veículo.
O componente estava deteriorado e se desfazendo. Para Alexandre, esse tipo de situação reforça a necessidade de avaliar o conjunto completo sempre que o amortecedor for substituído.
“Esse é um caso que possivelmente trocaram só o amortecedor e não trocaram o batente. O certo é fazer os dois, trocar o casal”, alerta.
A lógica também vale para o eixo dianteiro. Quando o veículo já está na oficina e o conjunto será desmontado, a avaliação dos componentes que ficam próximos ao amortecedor pode evitar uma segunda intervenção pouco tempo depois. “Um dia pode ser que o barato saia caro. Você já está na oficina, já parou o carro, já teve que deixar de trabalhar ou sair da sua rotina. Então aproveita a mão de obra e faz uma geral”, orienta.
Depois do diagnóstico, começa a desmontagem. No Peugeot 208, Alexandre destaca alguns pontos específicos que merecem atenção.
1. Soltar os componentes ligados ao conjunto
O procedimento começa pela liberação do flexível de freio, retirada do sensor de ABS e desacoplamento da bieleta. Esses componentes precisam ser posicionados de maneira segura para evitar danos durante a movimentação do conjunto.
2. Afrouxar o quadro da suspensão
Um dos principais detalhes apontados pelo mecânico é a necessidade de trabalhar com o quadro da suspensão. Segundo Alexandre, no Peugeot e em modelos da Citroën com configuração semelhante, a bandeja pode limitar o movimento necessário para retirar o amortecedor.
“É aconselhável soltar o quadro porque a bandeja não permite que o amortecedor baixe o suficiente. O montante não desce o bastante para eu conseguir tirar o amortecedor”, explica.
Nesse caso, os parafusos dianteiros do quadro são retirados, enquanto os traseiros são apenas afrouxados para permitir que o conjunto desça o necessário.
3. Cuidado com o semieixo
Durante a movimentação da manga de eixo, é preciso evitar puxar excessivamente o semieixo. Alexandre alerta que, dependendo da configuração, o componente pode escapar do retentor da transmissão e provocar vazamento de óleo.
“Peugeot costuma ter esse problema quando você está fazendo o serviço e puxa muito o semieixo. Ele pode escapar lá dentro, sair do retentor e vazar o óleo do câmbio. Em câmbio manual isso pode acontecer e acrescentar serviço à manutenção”, alerta.
4. Acessar a parte superior do amortecedor
Com a parte inferior liberada, é necessário acessar a fixação superior do amortecedor. Para isso, algumas partes da churrasqueira localizada abaixo do para-brisa precisam ser removidas. O procedimento exige cuidado para não danificar a máquina do limpador de para-brisa. Alexandre recomenda marcar a posição das palhetas antes da desmontagem.
“Quando for mexer na palheta, marque a posição dela. Se você inverter os lados, pode quebrar a máquina do limpador”, explica.
Além disso, os braços das palhetas podem ter comprimentos diferentes. Por isso, não basta simplesmente retirar e reinstalar sem fazer a identificação da posição original.
5. Soltar a fixação superior
Com o acesso liberado, o amortecedor pode ser solto pela parte superior. Durante essa etapa, é importante segurar o conjunto para evitar que ele caia quando a última fixação for retirada.
Na desmontagem realizada no Peugeot 208, também foi possível identificar marcas de desgaste na região da carroceria próximas ao amortecedor.
“Esse desgaste da carroceria é mais um sintoma de que o amortecedor está ruim”, aponta Alexandre.
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Um dos pontos mais importantes do diagnóstico é diferenciar vazamento de óleo de perda de eficiência. O amortecedor pode apresentar redução da capacidade de controle mesmo sem estar completamente vazado. Após desmontar o conjunto, o mecânico avaliou a resistência da haste e identificou que a pressão do componente antigo estava bastante reduzida.
“Isso aqui é uma preventiva. Não é um amortecedor que está estourado. Quando está estourado, geralmente vaza óleo e fica todo melado. Neste caso, ele já estava gasto”, explica.
O conjunto também revelou desgaste no coxim. A borracha apresentava deformações e começava a apresentar trincas. O prato de apoio da mola foi avaliado e, embora ainda estivesse em condições de uso, outros componentes foram substituídos para restabelecer o conjunto.
Na desmontagem, o reparador não deve simplesmente retirar o amortecedor e transferir todas as peças para o componente novo. Cada item precisa ser inspecionado. O batente apresentava alteração de coloração e sinais claros de desgaste. A função desse componente é limitar o curso da suspensão e trabalhar em conjunto com a coifa e o amortecedor.
O coxim também merece atenção. Além da borracha, o rolamento interno deve ser verificado, pois sua falha pode provocar ruídos durante as manobras.“Quando esse rolamento estraga, ele começa a travar. Ao esterçar o volante para manobrar, ele pode fazer barulho”, explica Alexandre.
Outro ponto crítico é a identificação correta do amortecedor antes da instalação. O Peugeot 208 pode utilizar componentes diferentes de acordo com a versão e a transmissão.No caso analisado, Alexandre compara as peças destinadas às versões manual e automática e chama atenção para a diferença no diâmetro do corpo do amortecedor, além da posição dos suportes da bieleta, do flexível de freio e do chicote do ABS.
“O Peugeot tem lado e tem aplicação específica. Existe diferença entre o manual e o automático. Aqui tem diferença na grossura e no diâmetro do amortecedor, então é bom ficar de olho”, orienta.
A Nakata também disponibiliza ferramentas de consulta de aplicação para auxiliar o reparador na identificação da peça correta, inclusive por informações do veículo, como placa e chassi.
A conferência antes da montagem é fundamental. Uma peça visualmente semelhante pode apresentar diferenças de aplicação que dificultam a instalação ou alteram as características originais do conjunto.
Antes de instalar o novo amortecedor, Alexandre realiza o chamado escorvamento. O procedimento consiste em movimentar a haste algumas vezes para permitir a circulação adequada do óleo interno antes da instalação no veículo.
“O amortecedor fica parado em estoque, na fábrica, não sei por quanto tempo. Então a gente faz o escorvamento na bancada para o óleo circular corretamente antes de colocar no carro”, explica.
O procedimento deve ser realizado conforme a orientação do fabricante da peça e utilizando uma bancada ou dispositivo que permita trabalhar com segurança.
Na remontagem, a sequência e o posicionamento dos componentes são fundamentais. A mola precisa ficar corretamente apoiada em seu assento, respeitando a posição da extremidade da espira. O batente e a coifa também devem ser instalados na orientação correta. Alexandre chama atenção ainda para a posição do suporte da mola e do coxim.
“Presta atenção: do jeito que você desmontou é o jeito que tem que montar. Tem posição para o batente e isso pode mudar a cambagem e outras características do conjunto”, alerta.
No coxim, o rolamento deve estar livre e sem apresentar travamentos. A porca superior também merece atenção: no caso analisado, o mecânico optou por utilizar a porca especificada para o conjunto. Outro detalhe é não prender o amortecedor na morsa pela região que será instalada na manga de eixo. A peça deve ser apoiada em uma área que não provoque danos à superfície de encaixe.
Com o conjunto montado, o amortecedor é levado novamente ao veículo. A posição correta dos encaixes facilita a instalação e evita que componentes sejam montados fora de posição.
Na parte inferior, o amortecedor deve ser corretamente alinhado à manga de eixo. O encaixe entre as peças precisa ser conferido antes do aperto definitivo. Em seguida, são reinstalados a bieleta, o flexível de freio e o sensor do ABS. O chicote do sensor deve seguir exatamente o caminho original, utilizando as travas e suportes existentes.
“O sensor do ABS tem todo um cuidado aqui. O fio precisa passar pelas travinhas e seguir o caminho correto para não pegar em nada durante o funcionamento da suspensão”, explica Alexandre. Depois da montagem do conjunto, os parafusos do quadro da suspensão são reapertados e todos os componentes retirados durante o serviço devem ser conferidos.
A troca do amortecedor não encerra o trabalho. Como o conjunto da suspensão foi desmontado e houve intervenção em componentes como bandeja e amortecedor, o alinhamento deve ser realizado posteriormente. Além disso, a inspeção final precisa confirmar se o flexível de freio, o chicote do ABS, a bieleta, os parafusos e todos os encaixes estão corretamente posicionados.
O caso do Peugeot 208 mostra que o diagnóstico é tão importante quanto a própria substituição do amortecedor. Ao encontrar desgastes em batentes, bandejas, pivôs, buchas e coxins, o reparador evita que o cliente saia da oficina com um problema parcialmente resolvido.
Mais do que trocar uma peça, o objetivo é recuperar o funcionamento do conjunto da suspensão e reduzir a possibilidade de retrabalho. Como resume Alexandre, a atenção aos detalhes começa antes da desmontagem e termina somente depois da conferência de todo o sistema. “Já que o carro está parado na oficina, vamos fazer uma geral. O diagnóstico completo evita que você tenha que desmontar tudo novamente depois.”