
Enquanto boa parte dos fabricantes aposta em motores de três cilindros, turbocompressores, injeção direta e uma quantidade cada vez maior de sistemas eletrônicos embarcados, a Nissan seguiu um caminho diferente no sucessor do Kicks. Chamado de Kait, o utilitário preserva a receita já conhecida pelos reparadores: motor aspirado 1.6, corrente de comando, manutenção relativamente simples e arquitetura mecânica consolidada.
Todavia, essa decisão levanta uma questão importante para o mercado de reparação automotiva: ainda existe espaço para projetos mais conservadores em um segmento dominado por motores menores e mais sofisticados? Na avaliação do engenheiro mecânico e proprietário da Escuderia Car Service, Mario Bandeira, a resposta é positiva, principalmente quando o assunto é confiabilidade e custo de manutenção. "Às vezes a tecnologia nova aumenta a complexidade sem entregar uma vantagem proporcional para quem vai manter o veículo. Esse motor aspirado 1.6 já mostrou que é confiável e previsível na oficina”, avaliou Bandeira. Motor 1.6 aspirado continua sendo um dos pontos fortes Logo ao abrir o capô, fica evidente que a Nissan preservou praticamente toda a arquitetura mecânica já conhecida pelos profissionais da reparação. Desta forma, o Kait segue com o conhecido motor 1.6 aspirado de quatro cilindros, construído totalmente em alumínio, equipado com corrente de comando e variadores de fase, conjunto que já acumula anos de utilização no mercado brasileiro. Para Mario Bandeira, trata-se de um dos melhores motores nacionais atualmente em produção justamente por reunir robustez mecânica, baixo índice de falhas e excelente acessibilidade para manutenção. "Esse é um dos melhores motores fabricados hoje no Brasil. É totalmente em alumínio, utiliza corrente de comando, possui variadores de fase e oferece excelente espaço para manutenção." Outro aspecto destacado durante a avaliação é o amplo espaço disponível no cofre do motor. Alternador, sistema de arrefecimento, freios, bateria e eletroventilador permanecem facilmente acessíveis, reduzindo tempo de desmontagem e favorecendo a produtividade da oficina. A manutenção preventiva e corretiva também recebe elogios.Segundo Mario, praticamente todos os componentes de desgaste apresentam acesso facilitado, característica que vem se tornando rara entre os veículos mais modernos. A única observação fica por conta dos testes avançados do sistema de ignição utilizando osciloscópio. Como o motor utiliza bobinas individuais diretamente sobre as velas, o acesso aos sinais primários torna mais trabalhoso quando comparado aos antigos sistemas com cabos de ignição. Mesmo assim, a avaliação permanece bastante positiva. "Isso não desabona em nada mecanicamente esse motor. Pelo contrário, continua sendo um conjunto muito simples de trabalhar." Uma das discussões levantadas durante a avaliação envolve a comparação entre o motor aspirado da Nissan e os atuais motores 1.0 turbo utilizados por diversos concorrentes. Sob a ótica da oficina, Mario não demonstra dúvidas sobre sua preferência. Embora reconheça que motores downsizing entreguem maior eficiência energética e desempenho superior, ele lembra que o custo de reparação costuma crescer significativamente quando surgem falhas em componentes como turbocompressor, sistema de injeção direta ou bombas de alta pressão. "Prefiro um conjunto consolidado. A manutenção é previsível, normalmente mais barata e gera menos surpresas tanto para a oficina quanto para o proprietário." Desta maneira, esse aspecto pode representar uma vantagem competitiva para proprietários que pretendem permanecer muitos anos com o veículo. Se o conjunto mecânico recebe elogios, a suspensão desperta preocupação. Ao avaliar a parte inferior do veículo, Mario observa alterações estruturais na bandeja dianteira, mas acredita que elas não devem eliminar um histórico conhecido do modelo. Segundo sua experiência prática na oficina, o Nissan Kicks apresenta recorrência de desgaste prematuro em componentes como bandejas, coxins, amortecedores e até caixas de direção. Na opinião do especialista, o novo modelo tende a repetir esse comportamento. Leia também "Motor e câmbio sempre tiveram uma relação muito boa de confiabilidade. Agora, suspensão do Kicks nunca foi um ponto forte. É algo que convivemos diariamente na oficina." Na suspensão traseira, praticamente não há mudanças. O sistema permanece utilizando eixo de torção, molas helicoidais e amortecedores pressurizados, configuração simples, robusta e de baixo custo de manutenção. Durante a inspeção, Mario destaca um detalhe importante para o reparador: o silencioso traseiro permanece parafusado ao restante do escapamento, permitindo sua substituição individual sem necessidade de trocar todo o conjunto. Segundo ele, essa solução reduz significativamente o custo do reparo. Entretanto, a expectativa é que permaneça um problema já conhecido pelos proprietários do Kicks: desgaste prematuro dos amortecedores traseiros, frequentemente acompanhado de ruídos entre 20 mil e 30 mil quilômetros. "A manutenção continua muito simples. O escapamento facilita bastante o reparo. Mas acredito que os ruídos da suspensão traseira devam continuar aparecendo, porque praticamente não houve mudanças estruturais." Na avaliação de Mario Bandeira, o novo SUV da Nissan não tenta revolucionar o segmento. Pelo contrário, uma vez que a proposta parece atender um público que busca exatamente aquilo que muitos reparadores também valorizam: uma mecânica conhecida, manutenção previsível, menor custo de reparação e boa disponibilidade de espaço para intervenções na oficina. Em um mercado cada vez mais repleto de tecnologias complexas, a Nissan optou por preservar um conjunto mecânico que já conquistou boa reputação entre os profissionais da reparação. "Quem procura o básico bem feito encontra exatamente isso nesse carro. Hoje existem muitos modelos carregados de tecnologia, mas esse conjunto continua agradando justamente pela simplicidade”, disse Bandeira Para o mecânico, o novo modelo chega mantendo aquilo que fez do Kicks uma referência em confiabilidade mecânica: um motor robusto, manutenção acessível e excelente reparabilidade. Todavia, a principal incógnita do Kait continua sendo a durabilidade da suspensão, componente que, segundo a experiência prática da oficina, ainda merece atenção especial ao longo da vida útil do veículo.Facilidade de manutenção agrada o reparador
Aspirado ou turbo? A oficina também entra nessa conta
Suspensão continua sendo o principal ponto de atenção
Traseira mantém construção simples e reparabilidade elevada
Vale a pena?