
A produção de motores a combustão está passando por uma transformação que também chegará às oficinas. Na fábrica da Horse em São José dos Pinhais, no Paraná, são produzidos atualmente os motores H16 1.6 aspirado, H10 1.0 turbo e H13 1.3 turbo, além de soluções destinadas à eletrificação. Para o mecânico, a principal mudança está na forma como esses motores poderão ser integrados aos veículos híbridos, especialmente no conceito Range Extender, no qual o propulsor a combustão deixa de tracionar diretamente as rodas e passa a trabalhar como gerador de energia. Vale lembrar que esses conjuntos mecânicos equipam os Renault Boreal, Kardian, Kwid, Oroch e Duster.
A fabricação começa antes mesmo da montagem dos componentes. Na unidade paranaense, uma das primeiras etapas envolve a produção dos componentes em alumínio, incluindo o cabeçote. O metal é fundido em fornos e chega a temperaturas superiores a 700 °C antes de seguir para os processos seguintes. A fábrica também conta com ferramentaria própria e recursos digitais para treinamento dos profissionais. Um dos destaques é o uso de ambiente virtual para simular operações da linha de produção. Segundo as informações apresentadas durante a visita, a cadência da fábrica permite que um motor deixe a linha de produção a cada 52 segundos. Depois da fundição, os componentes passam por processos de usinagem. A unidade possui quatro linhas de montagem responsáveis pela produção dos motores destinados ao mercado nacional e à exportação. Outro ponto importante para a qualidade dimensional é o controle dos componentes. A fábrica utiliza equipamentos de medição, incluindo tomografia, para verificar internamente as peças e identificar possíveis desvios de fabricação. De acordo com Cleverson Rabito, Diretor de Operações da Horse, a unidade de São José dos Pinhais trabalha atualmente com duas famílias de motores. “Na nossa fábrica aqui em São José dos Pinhais, nós produzimos os motores da família H e os motores da família B. Os motores da família H são o H16, que é o motor MPI, 1.6 litro, 16 válvulas; o H10, que é o motor de três cilindros turbo GDI; e o H13, que é o motor 1.3 turbo GDI.” Os motores são utilizados em veículos da Renault e também estão relacionados a aplicações destinadas a outros mercados da América do Sul, incluindo unidades produzidas na Argentina e na Colômbia. A capacidade atual da fábrica é de aproximadamente 254 mil motores por ano, considerando os diferentes tipos produzidos na unidade. Uma das tecnologias apresentadas durante a visita foi o sistema Range Extender, ou extensor de autonomia. Diferentemente de um veículo convencional, no qual o motor a combustão transmite torque para as rodas por meio de uma transmissão, nessa configuração o propulsor trabalha associado a uma máquina elétrica para produzir energia. Na aplicação apresentada, o conjunto utiliza o motor H10 1.0 turbo flex, associado a um gerador elétrico. A energia produzida pelo conjunto passa por um conversor e é direcionada para a bateria responsável por alimentar o sistema de tração elétrica. Márcio Melhorança, Diretor de Engenharia da Horse, explica que o conjunto é dimensionado para trabalhar próximo de sua faixa de maior eficiência energética. “Aqui a gente tem uma aplicação Range Extender, em que nós temos o motor a combustão, flex etanol, que é o motor H10 1.0 turbo. Aqui temos um gerador elétrico, radial ou também axial, mais compacto, com um conversor de energia que vai carregar uma bateria e terá uma interface com a bateria que está embaixo do veículo.” Na configuração apresentada, o conjunto trabalha na faixa de aproximadamente 120 a 130 cv. A estratégia, entretanto, não é simplesmente buscar a maior potência possível, mas manter o motor em uma condição favorável de eficiência. “A gente vai sempre procurar trabalhar numa condição de melhor eficiência energética. É sempre adaptando também a máquina elétrica para esse ponto de melhor funcionamento, sempre procurando usar e criar energia da maneira mais eficiente.” Essa arquitetura também pode ser escalada para veículos maiores. Segundo Melhorança, a combinação entre motor, gerador e bateria pode ser utilizada em aplicações que vão além dos veículos leves. Para o profissional de oficina, uma das principais dúvidas em relação aos veículos híbridos é se a manutenção do motor a combustão se torna mais complexa. No conceito Range Extender apresentado pela Horse, a proposta é justamente reduzir algumas das interações mecânicas existentes em um veículo convencional. Como o motor a combustão não transmite diretamente torque para as rodas, sua função fica concentrada na geração de energia para o sistema elétrico. Isso modifica o funcionamento do conjunto, mas não elimina a necessidade dos procedimentos tradicionais de manutenção do motor, como troca de óleo, velas, bobinas e diagnóstico do sistema de injeção. “Esse é um conceito que, em relação a outros híbridos, traz uma simplificação. Você vai ter sempre o motor somente interagindo com a máquina elétrica. Você não vai ter uma interação do motor com a roda do veículo. Isso torna o sistema mais simples e, tornando mais simples, também facilita a manutenção”, explica Márcio Melhorança. Para o reparador que já trabalha com motores turbo e injeção direta, a adaptação tende a ser mais relacionada à arquitetura do veículo e aos procedimentos de segurança do sistema elétrico do que à manutenção básica do propulsor. “Para um mecânico que já é acostumado a fazer a manutenção, no caso de um motor turbo com injeção direta, ele não vai ter nenhuma dificuldade com essa aplicação.” O motor utilizado na demonstração do Range Extender não é um protótipo completamente distante da realidade da linha de produção. O H10 1.0 turbo de três cilindros e injeção direta já é fabricado na unidade de São José dos Pinhais. Leia também Cleverson Rabito explica que o mesmo propulsor já equipa veículos produzidos em série e também será utilizado em uma aplicação híbrida voltada ao transporte. “Hoje o motor que você viu na van é o motor H10. Ele já está sendo produzido aqui. É um motor de três cilindros turbo GDI, que equipa tanto aquela van que você viu como também alguns outros veículos já em série no mercado nacional e para exportação.” A expectativa apresentada durante a visita é que uma aplicação híbrida baseada nesse conjunto chegue ao mercado em 2027. A Horse já possui um contrato com a Marcopolo para uma solução que utiliza o H10 associado a uma máquina elétrica em um micro-ônibus. Apesar de a marca Horse ter sido constituída em 2023, a unidade industrial de São José dos Pinhais possui uma história anterior. A planta iniciou suas operações em 1999 e, segundo Rabito, já ultrapassou a marca de cinco milhões de motores produzidos. A Horse foi constituída como uma empresa independente, com participação acionária da Renault, Geely e Aramco, e tem como foco o desenvolvimento e a produção de soluções de powertrain, incluindo motores de combustão interna e tecnologias de hibridação. Para o mecânico, essa mudança representa uma transição importante: o motor a combustão ainda permanece presente, mas passa a assumir funções diferentes dentro do veículo. A chegada de sistemas como o Range Extender não significa o fim da manutenção dos motores a combustão. Pelo contrário: o conhecimento sobre lubrificação, arrefecimento, ignição, alimentação, turboalimentação e diagnóstico eletrônico continua sendo necessário. A diferença está na arquitetura do veículo. Em um Range Extender, o profissional também precisará compreender a interação entre o motor a combustão, o gerador, o conversor, a bateria e o sistema de propulsão elétrica. Na prática, isso amplia o campo de atuação da oficina. O motor continua sendo um componente conhecido, mas inserido em um sistema que exige novos conhecimentos sobre eletrificação e procedimentos de segurança. Para quem trabalha com reparação automotiva, entender essa transição antes que ela se torne comum nas ruas pode ser um diferencial para acompanhar a evolução dos veículos híbridos e elétricos sem abandonar os fundamentos da mecânica de motores.Da fundição à usinagem: onde começa a produção do motor
Quais motores são produzidos pela Horse no Brasil?
Range Extender: o motor a combustão deixa de tracionar as rodas
O que muda na manutenção para o mecânico?
H10 já é produzido no Brasil
Uma fábrica com mais de 25 anos de operação
O que o mecânico precisa acompanhar