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Diagnóstico com Scanner vai além do uso do equipamento, é preciso saber interpretar

O reparador moderno, o especialista em diagnóstico, deve estar apto a não só operar um equipamento e sim vários equipamentos e dentre tantos o scanner automotivo

Por Diogo Vieira

Começaremos a partir deste mês, uma série de matérias direcionadas ao correto uso do scanner.   

Pode ser que alguém ainda pense que Diagnóstico Avançado esteja restritamente ligado ao uso do osciloscópio e transdutores, entretanto temos sempre batido na tecla que a Cultura do Diagnóstico Avançado vai muito além disso. 

Deverá também ser capaz de interpretar diagramas elétricos, gráficos, tabelas numéricas, gerir todas estas informações e tomar decisões.   

E então, você está pronto para esta nova realidade? 

     Abriremos este Caso de Estudo abordando um parâmetro que certamente todos já viram na telinha do scanner ou na tela PC e que talvez, passe despercebido de muitos:  O parâmetro de “tensão da bateria”.  Veremos a importância deste parâmetro e falhas que poderão estar relacionadas a este valor visualizado no scanner.  

     Alguns scanners facilitam a vida do reparador mostrando a leitura de parâmetros do motor com valores desejáveis na marcha lenta.  No chamado modo contínuo, muitos parâmetros do módulo são marcados com valores máximos e mínimos, nos dando um range de funcionamento. 

Quando o parâmetro está com valores aceitáveis, a barra mantém sua cor verde e se um valor sai da faixa de leitura esperada para aquela situação, muda a cor para vermelho.   Estes valores máximos e mínimos podem ter sido obtidos pelo fabricante do scanner nos manuais de reparação das montadoras ou coletados por uma equipe de engenharia que fez a captura em cada veículo.  Por mais que o nosso parâmetro “tensão de Bateria” apresente-se num range de funcionamento, o reparador deve entendê-lo e ser capaz de extrair o máximo de informações possíveis.   

 

Tensão da Bateria?  Nem sempre! 

     Como o título acima sugere, nem sempre este parâmetro nos dará a tensão da bateria e/ou estado deste componente.  Com o carro desligado, quem supre toda a demanda elétrica no automóvel é a bateria, mas quando damos a partida quem supre a energia para o veículo agora é o alternador.  Ora, a maioria dos testes que realizamos e análises são executados com o veículo em funcionamento.  Talvez seja essa a grande confusão que muitos fazem ao ler este parâmetro no scanner porque quando o motor está funcionando, seja ele em marcha lenta ou aceleração ou desaceleração, o que analisamos é o sistema de carga do veículo e alimentação daquele Módulo de Controle eletrônico! 

Engana-se quem acha que sistemas de carga se resumem ao alternador, cabos, bateria.  Com tanta demanda tecnológica nos veículos atuais, vemos alternadores inteligentes que se comunicam com uma Unidade de Controle da injeção ou sensores especiais que monitoram o estado de carga e temperatura da bateria.  Temos um exemplo que representa o sistema de carga de um Honda Civic 1.7 ano 2001. 

Uma certa complexidade é vista na figura em questão:  além dos elementos triviais que estamos acostumados a trabalhar, vemos ligações elétricas ao módulo PCM (módulo que gerencia o Motor e câmbio), uma caixa de fusíveis inteligente, uma caixa de fusíveis auxiliar, fusíveis em pontos estratégicos e muitos cabos interligando os componentes.  Um bom diagrama elétrico, que nos dá uma riqueza de detalhes, mostra na mesma proporção a possibilidade de panes que podemos encontrar na prática:  desde um problema em algum componente interno do alternador, passando por cabos rompidos, má conexão elétrica nos plugs dos chicotes ou encaixe dos fusíveis.  

 

Diagnóstico 

Um sistema de carga e alimentação elétrica quando está em boas condições, apresenta valores de tensão seja positiva ou negativa com valores aproximados em seus potenciais.  Por exemplo, se o Alternador gera 14,2 Volts, espera-se que a tensão que alimenta a bateria, contato de ignição ou Módulo de controle do motor seja uma tensão bem próxima a 14,2 Volts.  Da mesma forma entre os aterramentos do motor e chassi, não poderemos ter uma diferença grande de potencial. 

 

Checando as tensões no veículo  

Ao se deparar com determinado valor de “tensão da bateria” no scanner, recomendamos que o reparador verifique a tensão que sai do alternador e a tensão que chega à bateria utilizando-se de um voltímetro ou osciloscópio.  Se os valores coincidem ou apresentam valores bem próximos ao lido no scanner, não temos um problema.  Todavia se temos valores discrepantes entre alternador>bateria> leitura do scanner, devemos dar uma atenção especial ao sistema elétrico do veículo.  Terminais de bateria aquecidos ou com zinabre, conexões de fusíveis escuras ou fusíveis com a parte plástica deformada por aquecimento nos mostram visualmente que há resistências elétricas no circuito e por consequência temos quedas de tensão. Estas panes deverão ser sanadas. 

Um caso comum de zinabre nos bornes de bateria, o zinabre é um produto corrosivo de cor azul esverdeada, formado pela reação química de componentes internos da bateria, metais da conexão elétrica do borne e o oxigênio.  Sua presença impede a livre circulação dos elétrons no circuito e traz prejuízos tanto para a bateria como aos componentes eletroeletrônicos do veículo. 

 

 

Um exemplo de fusível que sofreu sobrecorrente ou uma má conexão elétrica no seu suporte, criando certa resistividade.  Como toda resistência aquece-se ao ser submetida a uma corrente elétrica, chegou a derreter parte do fusível. Em situações como esta, deverá ser consultado em literatura técnica o correto valor em amperes do fusível, se algum componente deste circuito está com um consumo elevado de corrente elétrica e a substituição dos itens afetados.

Analisando os parâmetros da foto, parece que temos apenas um problema no parâmetro da pressão do coletor, por estar fora do range e ter sua escala em vermelho. 

Porém, ao analisar graficamente nossa “tensão da bateria” percebe-se muita flutuação na leitura de tensão no scanner. Mesmo o alternador gerando um valor fixo 14.1 volt, tínhamos leituras que variavam ao acionar alguns consumidores elétricos, como os faróis.  Após reparo nos cabos de alimentação e bornes de bateria, obtivemos um valor fixo de 13,9 Volts no scanner. 

A imperícia de um instalador de acessórios automotivos ocasionou a pane em um ABS:  o instalador, em busca de fios que alimentassem positivamente os acessórios a serem instalados, cortou o fio que saia da caixa de fusíveis e alimentava o módulo do ABS. 

A emenda malfeita, sem solda estanho e com a fita isolante já se desprendendo dos fios, ocasionou uma queda de tensão considerável em um sistema de grande importância daquele veículo.  Após as correções elétricas, tivemos uma tensão lida no scanner próxima à tensão lida nos bornes de bateria com um voltímetro. 

No próximo mês continuaremos este assunto, mostrando mais casos práticos de panes que envolvem o sistema de carga e alimentação de Unidades de Comando Eletrônico (UCE) que geravam desde oscilações na marcha lenta, perda de A/F e alteração no consumo de combustível.   

Até a próxima! 

 

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