Oficina Brasil


Nissan Versa 1.6 16v: completo, mas, nem tanto. A ausência de um importante item chama a atenção

Dificuldade para encontrar peças de reposição foi um dos temas abordados pelos experientes reparadores, que destacam os pontos fortes do modelo, mas também apontam a inexistência de um componente vital para a saúde dos ocupantes

Por Tenório Júnior

O Versa da Nissan foi lançado no Brasil em novembro de 2011. Com preço atrativo, airbag duplo e direção com assistência elétrica progressiva como itens de série, o sedã da montadora japonesa veio com tudo para disputar uma fatia do disputado mercado brasileiro.

Foto 1
O motor 1.6 16V Flex que equipa o compacto sedã é produzido em alumínio, possui comando variável CVVTCS (Continuos Variable Valve Timing Control ou variação da abertura das válvulas através de variador de fase), gera 111 cavalos de potência a 5.600 rpm e torque máximo de 15,1 kgfm a 4.000 rpm. Segundo dados do fabricante, sua velocidade máxima é 189 km/h.

Ficha técnica

Potência a 5.600 rpm

111 cv  (Gasolina e Etanol)

Torque 4.000 rpm

15,1 kgfm (Gasolina e Etanol)

Taxa de compressão

9,8:1

Comando de válvulas

Duplo no cabeçote – admissão variável

Câmbio

Manual 5 marchas

Suspensão dianteira

Mc Pherson com barra estabilizadora

Suspensão traseira

Eixo de torção e molas helicoidais

Freio dianteiro

Discos ventilados ABS c/ EBD

Freio traseiro

Tambores e sapatas ABS c/ EBD

Direção

Assistência elétrica

 

Foto 3

Apesar da garantia de três anos oferecida pela montadora, as oficinas mecânicas independentes já registram grande número de passagem desse veículo. Como já é de praxe, para descobrir como se comporta o Nissan Versa, na hora da manutenção, fomos em busca de oficinas independentes que já tiveram experiências com o modelo.

Pesquisando no Guia de Oficinas Brasil, encontramos no bairro Artur Alvin - Zona Leste da cidade de São Paulo, a oficina Injetronic. A oficina que foi fundada e dirigida pelo técnico Douglas Quirino de Souza, 38 (Foto 03), atende em média 300 veículos por mês. Com 23 anos de experiência, Douglas nos conta como foi seu ingresso na reparação automotiva: “comecei trabalhando na garagem do meu pai, aos 15 anos de idade; fiz cursos de carburadores, de injeção eletrônica e inúmeros treinamentos nesta área, trabalhei por três anos numa concessionária Peugeot e em 1999 abri a Injetronic”, conta Douglas 

Foto 4

Ainda no Guia de Oficinas Brasil, encontramos o Vanderson Coelho, 39 (Foto 04). Ele é técnico e proprietário da oficina Hidrauto. Localizada no bairro Tatuapé – Zona Leste da cidade de São Paulo, a oficina atende em média 120 veículos por mês. Com 25 anos de prática e diversos cursos técnicos de aprimoramento, Vanderson faz um breve relato de sua trajetória: “comecei aos 14 anos de idade na oficina do meu pai, aos 24 anos assumi a oficina e estou até hoje”, conta o técnico. 

Em outro canto da cidade de São Paulo, 

Foto 5

na Zona Sul, bairro Vila Remo, encontramos a oficina Styllus Serviços Automotivos. O proprietário e técnico, Maurício José Teixeira, 45 anos (Foto 05), foi quem nos concedeu a entrevista. 

Maurício ingressou na área de reparação automotiva aos 15 anos trabalhando na parte elétrica. Depois se especializou em recondicionamento de carburadores, até que em 1996 conseguiu montar sua própria oficina. Desde então, começou a fazer cursos de especialização e aprimoramento. “Fiz diversos cursos e assisti todas palestras técnicas que tive oportunidade. A base que tive trabalhando com a parte elétrica me ajudou muito para entender o sistema de injeção eletrônica. Aliás, a chegada da injeção eletrônica no Brasil fez os reparadores evoluírem e se unirem; hoje somos parceiros, estamos sempre nos ajudando para solucionar os defeitos que se renovam a cada dia”, diz o reparador. 

SUSPENSÃO DIANTEIRA E TRASEIRA

A suspensão dianteira do tipo Mc Pherson (fig. 06) com barra estabilizadora (fig. 07) é muito eficiente e prática. Os problemas comuns são aqueles básicos, que também são comuns em outros veículos. Segundo os técnicos consultados, as buchas das bandejas (fig. 08), os batentes dos amortecedores, coxim dos amortecedores e bieletas, são as peças que sofrem mais desgaste no conjunto. O problema está na hora de comprar uma bucha de bandeja, bucha do quadro ou um pivô, porque a Nissan não comercializa essas peças separadas, ou seja, bandeja completa, quadro completo etc.

Foto 6 e 7

Foto 8
Já na traseira, a suspensão com eixo rígido (fig. 09) e molas helicoidais (Fig. 10), apesar de macia, não oferece tanta eficiência quanto na dianteira. No entanto, os reparadores ainda não constataram problemas de desgaste ou avarias.

Foto 9 e 10
Ainda no quesito “undercar”, o reparador Vanderson destaca um problema que, por duas vezes verificou em sua oficina, em veículos com baixa quilometragem: rolamento da roda dianteira fazendo barulho. “No primeiro caso eu procurei o rolamento na concessionária pra comprar e não encontrei, o cliente foi obrigado a comprar de uma importadora. No segundo caso, fui até uma autopeças e procurei um que tivesse as mesmas medidas, encontrei o do Tempra, é o mesmo rolamento”, afirma o técnico. 

FREIOS

O sistema ABS (Anti-lock Brake System ou sistema antitravamento dos freios), que equipa o modelo avaliado, é complementado pelo EBD (Eletronic Brake Force ou distribuidor de força de frenagem) e BAS (Braking Assist System ou sistema de assistência à frenagem), com a finalidade de reduzir a distância de frenagem com segurança. 

ABS – sistema que impede o travamento das rodas durante frenagens bruscas, independentemente do tipo e estado do piso.

EBD – Esse sistema distribui a pressão hidráulica nas rodas dos eixos dianteiro e traseiro, de acordo com a necessidade de cada uma.

BAS – É um sistema de auxílio à frenagem em casos de urgência. Quando o motorista pisa bruscamente no pedal de freio, o “BAS” percebe, através de sensores, e mantém a carga máxima nos freios até a parada total do veículo ou a retirada permanente da pressão exercida no pedal de freio. 

Na prática do dia a dia, na hora da manutenção, essa “sopa” de letrinhas não altera a reparabilidade em termos mecânicos, no entanto, à medida que cresce a tecnologia embarcada nos veículos, aumenta também a exigência de qualificação técnica para repará-los.  

Segundo os reparadores, não há novidades nas peças que compõem o conjunto mecânico dos freios, é o mesmo sistema conhecido por todos que, por sinal, não apresenta defeitos recorrentes nem dificuldades para efetuar os reparos corriqueiros. Veja na (fig. 11) a central eletro-hidráulica do freio ABS , na (fig. 12) o cilindro mestre, na (fig. 13) o sensor dianteiro do ABS e na (fig. 14) o sensor traseiro do ABS, todas as peças com fácil acesso para efetuar possíveis reparos.

Foto 11 e 12

Foto 13 e 14
O reparador Douglas constatou, em alguns casos, ruídos nas pastilhas originais: “as pastilhas originais estavam fazendo barulho mesmo com boa espessura. A solução para todos os casos, foi substituir as pastilhas e discos por outros não genuínos, porém, de marcas reconhecidas no mercado de reposição”, relata o reparador Douglas.

Já o técnico Maurício, se surpreendeu positivamente com as pastilhas do Versa de um cliente que só rodava na estrada, elas duraram 90 mil km. Veja nas fotos 15 e 16 o sistema de freio dianteiro. E nas fotos 17 e 18 o freio traseiro.

Foto 15 e 16

Foto 17 e 18

Nota: O desgaste das pastilhas e sapatas de freio é relativo às condições de operação do veículo. Há de se considerar a forma de condução do veículo, o peso médio frequente e trajeto, são variáveis que interferem na vida útil dos componentes de freio. 


Menor desgaste - Motorista que utiliza freio motor todas as vezes que vai reduzir a velocidade ou parar; maior parte do trajeto diário é em trânsito livre ou estradas (sem serras).

Maior desgaste – Motorista deixa pra frear “em cima”; não utiliza freio motor; trafega diariamente em trânsito intenso e/ou percorre longos trechos em declives.

Portanto, é prudente que o sistema de freio seja verificado periodicamente em todas as revisões. Assim, o motorista irá saber como está sendo o desgaste de acordo com a sua utilização. 

MANUTENÇÃO BÁSICA E PERIÓDICA NO MOTOR

Troca de óleo, filtro de óleo, de ar e de combustível – de acordo com os reparadores, não há problemas para executar esses serviços.

Filtro de cabine (ar-condicionado) – Aqui encontrei um grave problema em um veículo que fiz a revisão dos 40 mil km. O carro estava SEM o filtro de cabine! Fui até a concessionária para comprar o filtro e ao questionar sobre a ausência do filtro, fiquei mais surpreso ainda; eles disseram que esse modelo sai de fábrica SEM o elemento filtrante. 

Velas de ignição (Fig. 19) - Segundo o manual do proprietário, a substituição das velas deve ocorrer a cada 100 mil km. Isso porque, as velas possuem ponta de Iridium no eletrodo central. O Iridium é um metal nobre que possui alta resistência ao desgaste, possibilitando a redução do diâmetro do eletrodo central, melhorando sua durabilidade. Essa tecnologia aplicada nas velas é sem dúvida um importante avanço. Entretanto, a prática do dia a dia nos ensinou que não é tão simples assim, há de se tomar alguns cuidados levando em consideração as condições de operação do veículo. Lembrando que para cada vela há uma bobina (Fig. 20) e no momento da remoção das velas, deve-se fazer uma inspeção visual nas bobinas. 

Foto 19 e 20

• Se, utilizado numa cidade como a de São Paulo, que, para percorrer 25 km o motor fica ligado em média, uma hora e meia, as velas devem ser retiradas para verificação e limpeza a cada 30mil km. Isso porque, em número de horas, se comparado ao uso em estradas, esse motor já funcionou o correspondente a no mínimo, quatro vezes mais. 

• Considerando a má qualidade dos nossos combustíveis, a verificação das velas a cada 30 mil km é importante para saber como está o funcionamento do motor, e também para efetuar uma limpeza nas velas, tanto na ponta quanto na rosca. Lembrando que NÃO se deve utilizar a escova de aço para não provocar danos ao tratamento “anti-corrosão” que é dado ao castelo metálico da vela. 

Nota: já tivemos vários casos de engripamento das velas, no cabeçote de diferentes veículos, porque passou muito tempo sem terem sido removidas. Nestes casos, a remoção do cabeçote para o refazimento da rosca, é inevitável. 


Para remover as velas do Versa 1.6 16v é necessário retirar o coletor de admissão porque ele passa por cima do motor impedindo o acesso às velas. Segundo o reparador Douglas, sob a ótica técnica, é um ponto positivo porque exige mão de obra especializada, o que afasta os curiosos. “No meu ponto de vista, é uma oportunidade de verificar e limpar o coletor de admissão, o corpo de borboleta (fig. 21 e 22) e de trocar os reparos, melhorando a vedação do coletor”, completa o técnico. 

Foto 21 e 22
Injeção eletrônica
– O reparador Vanderson relatou que já pegou caso de entupimento dos bicos devido à utilização de etanol de má qualidade. Feita a limpeza, os bicos voltaram a funcionar normalmente.

Veja nas fotos 23 e 24 a localização dos bicos e do filtro de combustível, respectivamente.

Foto 23 e 24
O reparador Douglas pegou casos de oscilação em marcha lenta e a única irregularidade constatada foi o parâmetro “AF” que estava fora. “Efetuado ajuste do ‘AF’, o veículo voltou ao normal”, relata. 

REPARABILIDADE

De acordo com os técnicos consultados, a reparabilidade do Versa 1.6 16v é boa, eles dizem não encontrar dificuldades para executar as manutenções, mas, também concordam que é necessário que se tenha competências específicas, devido à grande tecnologia embarcada. 

O reparador Maurício teve a oportunidade de substituir a embreagem de um Nissan Versa e afirma: “o procedimento para trocar a embreagem não é difícil, mas é bem complexo. Precisa de habilidade, cautela e muita atenção para não danificar nenhum sensor”, alerta Maurício.

PEÇAS

Na oficina Hidrauto cerca de 60 % das peças para o veículo Versa são adquiridas em autopeças e distribuidoras, porque são as peças de alto giro. “Para determinadas peças temos que recorrer à concessionária, mas encontro dificuldade para encontrá-las a pronta entrega. Além disso, o desconto oferecido para as oficinas, é pequeno”, se queixa Vanderson.

Na oficina Injetronic a reclamação é a mesma: “as peças de grande giro eu compro nas autopeças. Na concessionária são poucas, mas quando preciso tenho grande dificuldade porque não encontra a pronta entrega, tem que encomendar e o prazo médio é de cinco dias. Quando eu pego esses carros, já peço um tempo maior para o cliente por conta desse problema. Sem falar do desconto que é pequeno, o que dificulta para a oficina que recebe no cartão e ainda parcela”, relata descontente o reparador Douglas.

Na oficina Styllus a problema não é diferente: “primeiramente eu procuro na autopeças independente peças de marcas conhecidas que tenham a mesma qualidade das peças genuínas, mas é difícil pra encontrar. Aí eu tenho que recorrer à concessionária, que nem sempre tem a peça e o tempo de espera para peças encomendadas é de no mínimo cinco dias. Isso desanima porque o cliente de hoje está muito dependente do carro, não pode esperar tanto assim. Desta forma, somos prejudicados porque ficamos com o carro parado na oficina e o cliente pensa que somos nós que não estamos nos empenhando para entregar o carro”, lamenta o reparador Maurício. 

INFORMAÇÃO TÉCNICA

Vanderson – “Pra falar a verdade eu nunca procurei informação técnica na concessionária, sempre acho que eles não vão passar as informações quando precisamos, talvez por saber que antigamente as concessionárias não passavam as informações. Quando preciso de informação eu busco na internet.”

Maurício – “Quando preciso, recorro ao jornal Oficina Brasil e aos colegas. Nunca precisei recorrer à concessionária, esse carro ainda tem pouca passagem pela oficina.”

CONCLUSÃO

Por tudo que foi relatado pelos reparadores entrevistados, destacamos quatro pontos que merecem um olhar diferenciado, são eles: 

Reparabilidade – Os reparadores classificaram como boa. Ou seja, eles não encontram dificuldades para executar os reparos, mas, chamam a atenção para a necessidade de capacitação técnica para efetuar os devidos reparos.

Histórico de defeitos – Não foram constatados defeitos relevantes, considerados graves e/ou recorrentes. 

Peças – De acordo com os reparadores, a dificuldade de encontrar peças genuínas torna o trabalho demorado, o que reflete negativamente perante a expectativa do cliente, que geralmente não dispõe de muito tempo para deixar o carro na oficina. Pois as tarefas cotidianas e a dificuldade de locomoção através dos transportes públicos os tornam, cada vez mais dependentes dos seus veículos.

Manutenção básica preventiva - Não podemos deixar de falar sobre um importante item, o filtro de cabine. O que chama a atenção é que nas próprias concessionárias, assertivamente, recomenda-se a substituição preventiva e periódica do filtro de cabine sob o risco de doenças respiratórias, devido a possibilidade de inalação de ácaros e fungos.

Mas, o que dizer da inexistência desse componente? É inimaginável e inconcebível que um veículo equipado com ar-condicionado e tantos outros itens de série, relativamente “caros”, saia de fábrica sem o filtro de cabine - Elemento fundamental para a preservação da saúde dos ocupantes do veículo. Fique atento!

Comentários