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Sistema de mudanças com defeito, a marcha escapa, o câmbio está duro e o neutro não entra - Parte Final

Uma dessas pode ser a reclamação de seu cliente, o sintoma ocorre na motocicleta “zerada” ou naquela bem “velhinha”, pode ser uma moto grande ou até uma “cinquentinha”

Por Paulo José

Parte final 

Na primeira parte da matéria apresentamos: quem é quem e faz o que no sistema de mudanças de marchas na motocicleta, também propomos possíveis soluções dos problemas.  

Agora vamos entender um pouco sobre o funcionamento da “caixa de câmbio”, comentaremos alguns sintomas de mau funcionamento que são normalmente percebidos pelo condutor da motocicleta. Finalizaremos o conteúdo com os respectivos diagnósticos.  

O variedade de engrenagens do câmbio pode dar a impressão que o conjunto é de difícil análise, mas vamos simplificar os processos e trazer detalhes, os conhecimentos poderão ser aplicados em todas as motocicletas. 

Características do Câmbio  

O câmbio da motocicleta de motor a quatro tempos é robusto, tem vida longa mas não perdoa os maus tratos, nem a falta de manutenção preventiva. No câmbio o sistema de lubrificação é por pressão da bomba de óleo, o lubrificante é peneirado, centrifugado ou forçado pelo filtro de papel. O fluxo do óleo segue pelas galerias e tubulações localizadas nas carcaças e bloco do motor e por fim passa através dos eixos primário e secundário do câmbio que são apoiados em buchas, rolamentos de esferas ou roletes, cada engrenagem recebe a lubrificação por um orifício de pequeno diâmetro no eixo.

O mesmo óleo também lubrifica o conjunto da embreagem, relação primária e os componentes da parte superior do motor como: pistão, anéis, cilindro, biela virabrequim, cabeçote, eixo do comando, balancins, válvulas e demais peças.  

Assim justifica-se a necessidade de um lubrificante adequado ao motor da motocicleta, quando não atendidas às especificações surge uma série de consequências ao motor e ao câmbio. 

Outro detalhe importante é que o sistema de bombeamento de óleo para o câmbio só funcionará com o motor ligado. Em outras palavras se o motor não funcionar, o óleo não irá chegar no conjunto de engrenagens.  

Por esse motivo não é aconselhável conduzir a motocicleta por longa distância com o motor desligado, ou seja, em uma descida pegando uma “banguela”, 

os eixos do câmbio serão fragilizados pelo calor excessivo e por consequência  sofrer desgastes pela falta de lubrificação. 

Na maioria das motocicletas as engrenagens possuem dentes retos, essa construção torna o câmbio mais ruidoso que as engrenagens de dentes inclinados (helicoidais), que normalmente são mais silenciosas. 

Descrição do Câmbio 

 

O câmbio da motocicleta é composto de dois eixos paralelos, sendo o eixo motor denominado de primário e o eixo movido de secundário. No geral a caixa de marchas pode ter de 4 a 6 marchas. Nos eixos as engrenagens são constantemente engrenadas.  

São dois tipos de engrenagens: as que giram livres nos eixos são conhecidas como loucas, há também as fixas, estas giram junto com os eixos, algumas possuem movimento lateral (deslizantes). 

Além dos eixos com as engrenagens (carretéis) também há um jogo de 2 ou 3 garfos que são manipulados pelo movimento circular do tambor seletor (trambulador). 

O eixo primário é o eixo motor, normalmente tem as menores engrenagens, menor diâmetro e possui uma engrenagem usinada no próprio corpo. Outra dica é que no eixo primário é onde se acopla a embreagem. Neste eixo a ordem de marchas é crescente, ou seja a primeira marcha é a menor, a última marcha corresponde à maior engrenagem. 

O eixo secundário é o eixo movido, normalmente tem as maiores engrenagens, maior diâmetro e não possui nenhuma engrenagem usinada na peça. Outra dica é que eixo secundário acopla-se o pinhão da transmissão secundária (corrente, coroa e pinhão). 

Nesse eixo a ordem de marcha é decrescente, sendo que a primeira marcha corresponde à maior engrenagem e na última marcha atua a menor engrenagem. 

Sintomas de mau funcionamento do câmbio 

Embora haja exceções, problemas em câmbio normalmente não acontecem da noite para o dia, a caixa de marchas dá sinais através de ruídos. Os sintomas de mau funcionamentos ocorrem quando o usuário conduz a motocicletas em uma determinada marcha e rotação do motor ou faz uma mudança de marcha. 

Na troca de óleo do motor a presença de limalhas (partículas) metálicas são indicadores de possível quebra de peças internas da caixa de câmbio, é bom ficar atento. 

Câmbio roncando, marcha escapando, dificuldade de mudança de marchas  

O ruído excessivo no câmbio é um indicador de defeitos em acoplamentos ou entre dentes das engrenagens, pode ser o início de uma falha e a certeza de uma quebra de um componente muito em breve. 

Ao pilotar a motocicleta ocorrem barulhos constantes (ronco) em determinadas marchas, alguns sons são provenientes do atrito entre as engrenagens desgastadas ou defeituosas. Os ruídos também são originados por folga entre os componentes do conjunto do câmbio, ex. rolamentos.  Em caso de ruído anormal é recomendável realizar uma análise do motor. 

Marcha escapando ou dificuldade de mudar a marcha também podem estar indicando a presença de defeitos nos componentes internos do câmbio. 

Principais defeitos na caixa de câmbio 

  • Empenamento em um ou mais garfos seletores;  

  • Deformações nos pinos dos garfos; 

  • Desgastes nas pontas dos garfos;  

  • Empenamento nos eixos dos garfos;  

  • Trambulador com defeitos; 

  • Rolamentos do trambulador com folga;  

  • Empenamento nos eixos do câmbio; 

  • Rolamentos danificados, folga entre os rolamentos e a carcaça do motor;  

  • Espessura da junta do cárter abaixo ou acima do especificado; 

  • Empenamento nas carcaças do motor;  

  • Travas ou calços das engrenagens montados fora de posição;  

  • Engrenagens quebradas; 

  • Falha no sistema de lubrificação.  

Defeitos mais comuns no câmbio 

 

Engrenagem louca (lisa) com dentes quebrados

Engrenagem louca (lisa) com dentedo acoplamento quebrado

Engrenagem da 1ª marcha do eixo secundário com dente quebrado

Diagnósticos 

Além das orientações dos fabricantes das motocicletas no que se refere ao dimensional das peças do câmbio, o reparador deve estar atento ao aspecto das engrenagens. Identifique os defeitos com o auxílio de uma lente de aumento.  

A linha de desgastes normalmente é concentradas nos dentes das engrenagens, isso ocorre pelo uso intensivo da marcha e falta de lubrificante. Os demais defeitos podem ter as causas relacionadas aos maus tratos.

A substituição da engrenagem defeituosa deve ser feita em pares, mesmo que uma das engrenagens da troca apresente aspecto bom, do contrário a engrenagem usada irá acelerar o desgaste da nova, colocando em risco a vida útil do câmbio.

Diagnóstico do garfo: empenamento, folga do vão e desgastes nas pontas

Diagnóstico de folga entre o garfo e a engrenagem

Diagnóstico de folga do rolamento do câmbio

 

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