Oficina Brasil


A marcha lenta na moto injetada se resolve com pincel, bacia, solvente e jato de ar. Será?

Com a utilização da injeção eletrônica muita coisa mudou nos últimos anos, mas a cultura da manutenção preventiva ainda não é unânime, para alguns configura como “a mesma ladainha de sempre”

Por Paulo José de Sousa

O objetivo desta matéria é propor soluções para a marcha lenta irregular nas motocicletas Yamaha Fazer 250 (versão antiga) e na Honda Titan 150. O nosso estudo abordará o sintoma de mau funcionamento causado por sujeira no interior do corpo de borboleta de aceleração. Além das motocicletas abordadas essa falha também pode ocorrer em outras as marcas e modelos.  

Fig.1- Comparativo: corpo de borboleta de aceleração (1) Honda Titan 150 (2) Yamaha Fazer 250  

Marcha lenta irregular no motor pode ser ocasionada por diversos  

fatores, porém as análises iniciais devem focar nas  seguintes bases: elétrica, mecânica e eletrônica, não necessariamente nesta ordem. De modo geral os manuais de serviços dos principais fabricantes conduzem o reparador à solução do problema, mas a lógica do diagnóstico pratico deve ser desenvolvida sempre pela operação mais simples.  

Como saber a hora de dar uma geral no corpo de borboleta da motocicleta 

 Há sempre duas respostas para esta pergunta: acredite se quiser, a melhor alternativa é sempre a manutenção preventiva, pois ela  irá evitar alguns inconvenientes futuros e também o custo de manutenção será menor, porém há pessoas que preferem esperar a motocicleta “avisar” que algo não vai bem, optando assim pela manutenção corretiva, que é indicada quando  a motocicleta começa a ter baixo desempenho, alto consumo de combustível e falhas no funcionamento do motor. No segundo caso o reparo custará mais caro e o tempo da execução do serviço será mais longo, conclusão: não há vantagem nesta escolha. 

Pode ser que haja algum mecânico pensando que o pincel e a bacia já foram abolidos da oficina moderna, mero engano, esses equipamentos vão continuar no cenário da reparação por muito tempo, ainda não inventaram a “tecnologia autolimpante”.   

Assim como em outras partes da motocicleta é necessária a interferência do reparador para remover a crosta de impurezas que acumulam no interior do corpo de borboleta de aceleração causando entupimento nas passagens de ar, engripamento de atuadores e eixo da borboleta, perda de sensibilidade de sensores e etc.. 

Entendendo o funcionamento do dispositivo de ajuste de lenta no sistema PGM-FI da Titan 150 

A motocicleta avisa quando algo não vai bem, normalmente um dos primeiros avisos é dado pelos seguintes sintomas: oscilações e instabilidade na rotação de marcha lenta e dificuldades na partida a frio, por isso vamos explicar como é feito o ajuste da rotação nas motocicletas. 

Como exemplo utilizamos o corpo de borboleta de aceleração da Honda Titan 150, este modelo possui ajuste automático da marcha lenta por meio de um IACV (Idle Air Control Valve - válvula de controle do ar da marcha lenta, em tradução livre), um “motor de passo”.  

O IACV está localizado no corpo de borboleta de aceleração instalada em um dos dutos tipo by pass. O mecanismo é responsável em fornecer suprimento de ar necessário para a marcha lenta do motor. 

Fig. 2 - IACV e corpo de aceleração da Honda Titan 150

Lembrando que não vamos elaborar os diagnósticos dos componentes eletrônicos, a proposta é analisar possíveis problemas ocasionados pelas impurezas na parte interna da peça (corpo de aceleração). 

O volume de ar da marcha lenta  interfere diretamente  na rotação do motor e também  no padrão de mistura, para um maior volume de ar a rotação de marcha lenta será elevada e por consequência para um menor volume de ar admitido a rotação diminuirá. O ajuste é instantâneo e a  rotação deverá ser mantida estável independente das solicitações impostas ao motor. 

O princípio de funcionamento do IACV baseia-se na energização de suas bobinas que obedecem a uma sequência pré-determinada em movimentos para frente e para trás e assim controla o volume de ar que alimenta o motor nas baixas rotações. O êmbolo do mecanismo desloca-se em um circuito secundário de passagem de ar no corpo de borboleta de aceleração. Todas as estratégias de ajuste de RPM para motor frio ou aquecido serão definidos pelo módulo de controle do motor (ECM). O cérebro eletrônico enviará sinais de atuação em forma de tensão determinando a movimentação do “motor de passo” tanto para maior abertura quanto para restrição do circuito de ar por meio dos sinais provenientes dos sensores com as condições instantâneas da motocicleta. 

Se o motor está frio a abertura da passagem de ar será maior, e posteriormente será reduzida quando o motor aquecer e atingir a temperatura normal de uso, porém para assegurar uma rotação estável é necessário que haja um controle permanente para que a marcha lenta seja assegurada em qualquer condição.  

Ainda acostumado ao carburador o reparador sente a falta do parafuso de regulagem de marcha lenta

Um alerta ao reparador que na intenção de solucionar o problema da instabilidade da rotação poderá criar complicações ao funcionamento da injeção eletrônica: 

se o motor não estiver com uma marcha lenta ”redonda” não há o que fazer,  

não é recomendável alterar o ângulo da borboleta por meio do parafuso do batente, se a rotação estiver oscilando ou fora do padrão é necessário fazer um check-up na moto até solucionar o problema.

Fig.3 - Corpo de aceleração, destaque para o parafuso batente da borboleta

O bom funcionamento do motor decorre da frequência de manutenções preventivas 

E se aparecer na oficina uma motocicleta com a marcha lenta instável. Por onde começar o serviço? 

Resposta: 

Antes de pensar em limpar o corpo de aceleração é muito importante considerar as possibilidades da lista abaixo. 

Causas mais frequentes de falhas na marcha lenta das motocicletas injetadas 

  • Folga incorreta do cabo do acelerador; 

  • Entrada de ar entre os componentes do corpo de aceleração ou coletores de admissão; 

  • Falhas na instalação do corpo de aceleração;  

  • Sistema de alimentação de combustível com defeito; 

  • Falha no contato da fiação do IACV (Titan 150); 

  • IACV inoperante; 

  • Falha na válvula FID (Fazer 250); 

  • Falha no contato da fiação da FID; 

  • Baixa compressão no motor. 

É claro que o aspecto do corpo de aceleração diz muito no quesito necessidade de limpeza, por isso, durante uma análise visual é importante sempre optar pela limpeza da peça. 

O corpo de borboleta de aceleração e seus componentes estão sujeitos a uma série de panes mecânicas como um simples engripamento do êmbolo, ou entupimento das passagens de ar. 

Independente da marca o usuário da motocicleta também tem algumas obrigações: 

• Manter limpo o filtro de ar; 

• Utilizar gasolina de boa qualidade. 

Entendendo o funcionamento dos dispositivos de ajuste de rotação do motor na Yamaha Fazer 250 

Ao contrário do sistema PGM-FI, na Fazer é necessário que o reparador elabore o ajuste da marcha lenta, porém o corpo de aceleração possui detalhes e componentes diferentes, nos demais quesitos os sintomas de defeitos são semelhantes. 

Mas fica a advertência: jamais tente alterar a rotação de marcha lenta pelo parafuso batente do eixo da borboleta.  

Fig.4 - Remoção da válvula FID, Fazer 250 

Descrição e funcionamento da FID  

 A válvula conhecida como FID (“Fast Idle”) é um atuador de controle do fluxo de rápida marcha lenta, que controla o volume de ar a fim de manter a marcha lenta quando a temperatura do motor for baixa. Nesta condição é necessária uma rotação ligeiramente superior à rotação normal de marcha lenta devido ao maior atrito interno do motor causado pela baixa temperatura 

A rotação em marcha lenta não aumenta devido ao aumento do volume de combustível, e sim ao maior volume de ar, que é o fundamental para sua elevação. 

A FID está localizada no corpo de aceleração próximo ao bico injetor. Basicamente a válvula é composta por um solenoide (atuador) que recebe uma tensão proveniente da ECU, e está presente nas motocicletas (Lander/Fazer) e outros modelos da marca, quando o motor está frio, a válvula está aberta permitindo maior entrada de ar para o motor, próximo aos 60°C ocorre uma flutuação do embolo da válvula, por fim a válvula corta o suprimento extra de ar quando o motor está com cerca de 80 °C. 

Este mecanismo faz parte do circuito do “by pass”, para maior quantidade de ar, maior rotação em marcha lenta do motor. O dispositivo mencionado está baseado no deslocamento do êmbolo para fornecimento ou interrupção de ar, lembrando que não há nenhuma relação com o motor de passo, já que nas motocicletas 250 o ajuste da rotação do motor é dado pelo parafuso de regulagem de marcha lenta.  

Sequência de imagens: corpo de aceleração contaminado 

Fig. 5- Aspecto dos coletores de admissão, Fazer 250 

Fig.6- Aspecto do corpo de aceleração, Fazer 250 

Fig.7- Remoção do injetor de combustível, Fazer 250 

Ajuste da marcha lenta na Fazer 250 

Na Fazer 250cc a marcha lenta é ajustada no parafuso Philips que fica na lateral esquerda do corpo de borboleta. Quanto mais aberto (sentido anti-horário) o parafuso, mais ar vai passar e, consequentemente, a rotação será elevada.  

Fig.8 - Remoção do parafuso de regulagem de marcha lenta, Fazer 250 

O ajuste deverá ser efetuado com a motocicleta em temperatura normal de uso, a rotação deverá ser de 1300 ~ 1500 rpm. (referência ano 2012 – versão Blueflex) 

Limpeza do corpo de aceleração todos as motocicletas  

Independente do modelo de motocicleta os sintomas de mau funcionamento da marcha lenta podem ser solucionados com uma simples limpeza do corpo de aceleração.  

Antes de iniciar a limpeza remova todos os componentes eletrônicos e anéis de vedação, utilize um pincel e um produto para carburadores, a secagem deve feita com ar comprimido de baixa pressão, quanto aos sensores e demais componentes elétricos, devem ser limpos com um pano. Na montagem substitua todos os reparos e anéis de borracha. 

Fig.9 - Limpeza do corpo de aceleração, Fazer 250 

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