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Hyundai HB20 Comfort Plus 1.6mostra nas oficinas porque alcançou a vice-liderança entre os hatches

Lançado em 2012, desde 2014 o hatch compacto projetado para o Brasil pela sul-coreana Hyundai ocupa o segundo lugar no ranking de vendas da categoria e supera rivais tradicionais. Excelente reparabilidade é apenas uma das razões

Por Antônio Edson

A parceria entre montadoras vindas de fora e grupos nacionais pode ser um atalho para se conhecer melhor o gosto do comprador local, peculiaridades do País em questão e produzir veículos que se encaixem nesse contexto. Um exemplo é o casamento entre a sul-coreana Hyundai Motors e o Grupo Caoa, celebrado no Brasil em 1999 e que, hoje, caminha para um divórcio litigioso. Em sua lua de mel, a união convenceu os sul- -coreanos que o País precisava de um projeto desenvolvido para ele e não de outra adaptação. Foi o que bastou para convocaram seu designer-chefe Casey Hyun, o criador do conceito da escultura fluida tão marcante entre veículos sul-coreanos. Hyun e equipe se mudaram para cá durante um ano e se dedicaram à missão de entender o que o brasileiro esperava de um novo carro. O resultado da imersão cultural foi o HB20 – H de Hyundai e B de Brasil, sendo que 20 é o código referente ao seu chassi. Experiência semelhante se deu na Índia, onde a montadora desenvolveu e produz o hatch sub-compacto Eon especialmente para o mercado local. 

 Lançado em setembro de 2012, o HB20 emplacou o prêmio de Carro do Ano em 2013. E quem duvida que os sul-coreanos fizeram a coisa certa recorra à rápida história dessa escalada de sucesso. Em 2013, o hatch foi o quarto mais vendido; em 2014, chegou à vice- -liderança que ocupa até hoje. Em 2018, entre janeiro e novembro, conservou o segundo lugar entre os preferidos da categoria com 96.523 unidades comercializadas, atrás apenas do campeoníssimo Chevrolet Onix – 190.824 vendas – e superando rivais cujas montadoras estão no Brasil há mais tempo, como Ford Ka, Volkswagen Gol e Fiat Uno, sem falar de Renault Sandero, Toyota Etios e Peugeot 207. O HB20 ainda deu frutos como o crossover compacto HB20X e o sedan compacto HB20S. Aliás, uma das razões do sucesso do HB20 é o múltiplo uso de sua carroceria, pois o hatch e o sedan derivado são oferecidos em pelo menos 15 versões com três tipos de transmissão – manual de cinco ou seis velocidades, e automática de seis – e três motorizações – 1.0 nas versões de entrada, 1.0 turbo e 1.6. 

A versão do hatch da Hyundai cedida pela montadora ao Oficina Brasil Mala Direta para estrelar esta edição foi a Comfort Plus 1.6 com câmbio manual de seis velocidades e avaliada em R$ 54.550 (modelo 0 km, Tabela Fipe de dezembro de 2018). O veículo estava com cerca de 800 km rodados e esteve por três dias sob a direção da reportagem, que o encaminhou a três oficinas independentes integrantes do Guia On Line de Oficinas Brasil e, também, do Grupo Premium Automotive Specialists: a Malzone Mecânica Automotiva, em Santana; a Mecatrônica Mecânica e Auto Elétrico, na Vila Guilherme; e a Paulistinha Oficina Mecânica, no Imirim. Nelas, o HB20 foi examinado por:  

Cláudio Malzone. Um ramo longínquo da família de Cláudio entrou para a história do automobilismo nacional ao criar, entre 1964 e 1966, o GT Malzoni com chassi e mecânica DKW, antecessor do clássico Puma. Já “o lado menos rico da família”, como diz Cláudio, com a grafia Malzone, seguiu pela reparação. Seu pai, Mário, fundou a Malzone Mecânica Automotiva em 1974, quando o filho tinha 14 anos e começou a aprender os segredos da profissão. Depois, Cláudio terminou o 2º grau, cursou o Senai e fez diferentes cursos patrocinados por montadoras e fábricas de autopeças. A tradição familiar segue: o filho Pietro estuda Engenharia Mecânica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e estagia na Alemanha. Com três colaboradores, a oficina dá conta de até 100 carros mensalmente e funciona na rua Aluísio Azevedo 366, em Santana, zona norte da capital paulista. 

Ricardo Pereira da Silva (à frente) e Gabriel Souza. Ricardo, 45 anos, virou a mesa, saindo da eletrônica de TV e ingressando na reparação automotiva ainda jovem, aos 20 anos, por sugestão do antigo sogro. Fez vários cursos de motor, câmbio e injeção no Senai e, nas oficinas, aproveitando o conhecimento e a experiência da primeira profissão, também se especializou na parte elétrica e na eletrônica embarcada nos veículos, cada vez mais importante. Hoje, em sua oficina, mantém um laboratório onde se ocupa com a recuperação de módulos de todos os tipos, inclusive os de injeção eletrônica, “um trabalho minucioso”, segundo o reparador. Sua oficina funciona há três anos na avenida Conceição 908, na Vila Guilherme, e conta com o jovem auxiliar Gabriel, 21 anos.  

 

 

Sílvio Gomes Júnior, Sílvio Gomes (ao fundo), Gabriel Ferreira e Cleiton da Silva (à frente). Sílvio, o pai, hoje com 72 anos, fundou a Paulistinha há 50 anos e, desde 2005, ela funciona em sede própria, à rua Professora Romilde Nogueira de Sá 468, no bairro do Imirim, zona norte paulistana. Sílvio Júnior, 43 anos, cresceu na oficina e segue a obra paterna. “Nasci com uma chave de roda debaixo do braço”, conta o reparador, graduado em Contabilidade e com vários cursos de especialização em mecânica no Senai. Sua oficina conta com três colaboradores, sendo dois na produção: os jovens Gabriel, de 18 anos; e Cleiton, de 19, e atende em média 50 veículos por mês. “O longo tempo funcionando em uma mesma região nos assegurou uma clientela cativa”, argumenta Silvio Júnior. 

 

 

 

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

A Hyundai, em 2018, chegou ao primeiro milhão de veículos produzidos no País, sendo o HB20 responsável por mais de 90%. Toda a produção sai da fábrica de Piracicaba (SP) que opera no limite, em três turnos ininterruptos, desde 2013 para entregar as versões hatch e sedã do HB20, responsáveis por 70% da produção – os outros 30% ficam com o SUV Creta. O gargalo, segundo fontes da montadora, é uma das razões pelas quais o modelo ainda não ultrapassou o líder Onix nas vendas, o que é projetado a partir de sua segunda geração, prevista para chegar no segundo semestre deste ano. Sem receber grandes modificações desde seu lançamento, em 2012, no ano passado o HB20 passou por uma leve reestilização: grade frontal hexagonal em colmeia com contorno cromado, para-choque dianteiro e rodas de liga leve aro 15 redesenhados, retrovisores com piscas integrados, um dos mais completos sistema de multimídia da categoria e conjunto ótico com luzes diurnas em led e faróis com projetores. 

Entre os reparadores, as linhas do HB20 não demonstram cansaço. “O carro ainda tem o melhor design da categoria, mas como todos abusa dos plásticos no interior. A ergonomia dá a entender que seu interior foi bem planejado: é razoavelmente confortável, tem bastante porta-trecos e embora a coluna da direção não tenha acerto de altura ou profundidade, a regulagem do banco compensa”, descreve Silvio Júnior. Cláudio Malzone concordou que as linhas do carro são bonitas e atribui a elas parte do seu sucesso. “A grade dianteira ficou atraente, mas dará trabalho para limpar. No interior, os bancos são anatômicos e o computador de bordo traz o que mais interessa, informações sobre o consumo. Ponto negativo para o volante sem regulagem e o excesso de plástico duro”, aponta. “A Hyundai acertou no que o brasileiro gosta. Carro tipicamente urbano e de bom tamanho para famílias pequenas. Apesar de não ter câmara ou sensor de estacionamento tem boa visibilidade. Computador de bordo é funcional”, resume Ricardo Pereira. 

AO VOLANTE 

O teste dinâmico do Hyundai HB20 Comfort Plus 1.6 com transmissão manual de seis velocidades revelou aos reparadores um hatch mais confortável do que se esperava, com uma suspensão macia que filtra com competência as irregularidades do difícil piso brasileiro e, sobretudo, um baixo nível de ruído interno no habitáculo. Nas paradas do trânsito urbano, o HB20 chegou a dar impressão de que possuía o sistema start-stop tamanha era a pouca percepção do ruído de seu motor que só se apresentou nas rotações mais elevadas. Mas o destaque fica para o motor 1.6 que, acoplado a uma caixa manual de seis velocidades e sob uma carroceria compacta com pouco mais de uma tonelada de peso, deixa o HB20 com ímpetos de foguetinho que deve ser acelerado com moderação. 

“O carrinho anda bem, provavelmente em razão de sua boa relação peso/potência. Impressiona a sua velocidade máxima aferida de 189 km por hora. Sua dirigibilidade merece nota 8”, admite Cláudio Malzone. “Boa potência e, ao mesmo tempo, silencioso. Eis uma combinação interessante que agrada muita gente. A velocidade final dele demonstra que o motor tem fôlego. No entanto, acho que poderia ter uma retomada mais rápida se tivesse oito e não 16 válvulas. Com centro de gravidade baixo, mostra estabilidade nas curvas. A embreagem hidráulica macia promete não deixar a perna esquerda muito cansada ao final de um dia de trabalho ao volante”, projeta Sílvio Júnior.  

Ricardo Pereira surpreendeu- -se positivamente com o comportamento da suspensão do hatch. “Apesar de faltar controles eletrônicos de tração e de estabilidade, algo ainda desculpável para um veículo dessa categoria, a suspensão faz um bom trabalho. Principalmente em relação à concorrência. Ela é macia e ao mesmo tempo firme, segura. Não dá aquela impressão de amortecedor engripado ou travado. Praticamente não se sente as ondulações do nosso piso”, descreve o reparador, que ainda reservou elogios para o câmbio de engates curtos, o baixo nível de ruído interno e o torque do motor em baixas rotações. “Aguenta até sair em segunda marcha”, garante. Ricardo atribuiu nota 9 à dirigibilidade do HB20. 

MOTOR 

Com bloco e cabeçote de alumínio, o propulsor Gamma foi criado no centro de desenvolvimento da Hyundai de Namyang, na Coreia do Sul, e usado pela primeira vez no compacto Hyundai Accent 2010 para substituir o motor Hyundai Alpha que também estava sob o capô do hatch Kia Rio. Na versão 1.6 16V Flex, com 1.591 cm³ reais, o motor possui comando de válvulas variável CVVT, quatro válvulas por cilindro e duplo comando de válvulas DOHC ou dois comandos de válvulas para controlar a abertura e fechamento das válvulas de admissão e de escape. Sua composição gera uma potência de até 128 cavalos a 6.000 rpm e um torque máximo de 16,5 kgfm a 5.000 rpm. Faz o hatch ir de zero a 100 km/h em 9,3 segundos e alcançar a velocidade máxima de 189 km/h. Para reduzir o consumo de combustível, a versão atual do motor ganhou velas de ignição de irídio em substituição às de níquel, pistões e anéis de vedação foram retrabalhados para diminuir o atrito interno e evitar o atropelamento das válvulas em situações de sobregiro e o alternador teve seu gerenciamento modificado. Como resultado, o motor ficou até 6,5% mais econômico do que a versão anterior, rendendo 13,8 km/l em um circuito rodoviário e 11,6 km/l na cidade, quando abastecido apenas com gasolina. 

Com o coletor de admissão planejado para não cobrir o acesso à flauta, bicos injetores, bobinas e velas e que aponta direto ao cabeçote que trabalha com o sistema de fluxo cruzado, o acesso às partes superiores do motor fica facilitado e agrada aos reparadores. “Se tiver algum problema de vela, você não precisa desmontar quase nada. O mesmo acontece com bicos e flauta. A Hyundai pensou bem na reparabilidade”, analisa Ricardo Pereira. A galeria dos bicos injetores, por exemplo, pode ser removida acessando-se dois parafusos e sem necessidade de ferramentas especiais, da mesma forma que o coxim superior do motor. Uma das únicas dificuldades percebidas será quanto à necessidade de acessar o cilindro mestre do freio, que exigirá a remoção da bateria. Um senso comum entre os reparadores é que, se depender do motor Gamma 1.6 16V Flex, o HB20 Comfort Plus 1.6 é rápido de oficina. 

“O motor merece nota 10 pela excelente reparabilidade”, resume Cláudio Malzone. “Ainda que seja um carro com cinco anos de garantia e não frequente tanto as oficinas independentes, muitos de meus clientes têm o HB20, mas nunca precisei abrir um motor”, descreve o reparador. Para não dizer que ele é perfeito, Cláudio aponta uma intercorrência fácil de resolver. “É comum termos um problema de ignição. Geralmente uma das bobinas apresenta fuga de corrente e provoca falha no cilindro. Nada que comprometa sua boa reparabilidade, pois é facilmente resolvido”, explica. “Essa bobina esquenta mesmo. O primeiro serviço que fiz num HB20 foi trocar uma”, confirma Sílvio Júnior. “Creio que o aquecimento não se dá pela temperatura do motor, mas pela constituição da bobina. Se ela mudou só veremos com o uso, pois aparentemente continua a mesa”, alerta. Outra virtude do HB20 elogiada nas oficinas foi relativa aos conectores e sensores. “Tomando como exemplo esse conector do solenoide do variador de fase do comando de válvula, a maioria dos conectores apresenta engate rápido”, aponta Cláudio Malzone. A respeito do sistema de arrefecimento, o reparador comenta que o eletroventilador é acionado por um resistor com duas velocidades. “Um sistema menos problemático do que o pilotado, pois é mais simples e trabalha com relê e não com um módulo que o controla através da injeção eletrônica”, explica. “Pelo visto na caixa de fusíveis), essa ventoinha teria uma velocidade baixa e outra alta”, confirma Sílvio Júnior. “A corrente de distribuição também é uma boa medida, pois se há algo que o brasileiro esquece é de trocar a correia dentada. Aqui na oficina estou com dois carros com as válvulas empenadas e para fazer o cabeçote devido a esse problema”, completa Cláudio Malzone.  

TRANSMISSÃO 

Em 2017, as caixas automáticas estavam em 40% dos carros novos e as montadoras preveem que, até 2020, o recurso estará em 60% deles. Mas os câmbios manuais não acabarão – pelo menos por enquanto. Alg umas razões para sua sobrevivência são proporcionar maior controle sobre o veículo e melhor aproveitamento do torque, ter um preço mais competitivo, menor custo nas peças de reposição e maior facilidade de manutenção e reparabilidade. Acrescente-se que eles ainda têm espaço para aperfeiçoamentos. Um exemplo são caixas de transmissões manuais de seis velocidades que equipam alguns últimos lançamentos, como o HB20 Comfort Plus 1.6. Nele, a sexta posição na alavanca funciona como overdrive e é aliada na redução do barulho interno, emissões de poluentes e, principalmente, na economia de combustível: o rendimento do hatch, em estrada, subiu de 13 para 13,8 km/l quando abastecido com gasolina. 

Um dos diferenciais do câmbio manual de seis velocidades do HB20 Comfort Plus 1.6 é a embreagem hidráulica que utiliza f luido para acionar o sistema através de cilindros e atuadores. Para o motorista, a vantagem é um pedal de maior durabilidade e mais macio, como os reparadores puderam comprovar no teste dinâmico do hatch. O outro lado é que o sistema exige a verificação do nível desse fluido e proceder sua troca a, geralmente, cada 50 mil quilômetros – sem o f luido, o motorista sentirá o pedal pesado e dificuldade em engatar as marchas. 

Segundo os reparadores, o comportamento do câmbio manual de seis velocidades do HB20 é compatível com o seu motor Gamma 1.6 16V Flex: engates curtos e precisos, marchas com boa relação e, sobretudo, baixa percepção do ronco do motor em sexta velocidade. Nas retomadas ou ultrapassagem, claro, é necessário reduzir para a quarta ou quinta velocidade. “Será difícil usar a sexta marcha em um trânsito atravancado como o da cidade de São Paulo, mas em uma estrada ela será muito bem-vinda. No caso do HB20, a sexta marcha é bem escalonada e têm uma relação bem longa, o que ajuda a economizar combustível. Quanto à manutenção, o cilindro hidráulico da embreagem está bem localizado, com excelente acesso. Uma eventual substituição não será complicada”, define Cláudio Malzone. 

FREIO, SUSPENSÃO E DIREÇÃO 

O HB20 Comfort Plus 1.6 conta, na dianteira, com suspensão independente, MacPherson, e, na traseira, eixo de torção. Os freios são a disco ventilado nas rodas da frente e com tambores atrás. As molas helicoidais na frente e atrás e os amortecedores não exigem ferramentas especiais na manutenção. A direção ainda com assistência hidráulica é um sinal de que o projeto precisa ser revisto ao menos nesse ponto, pois a maioria dos concorrentes já aderiu à maior comodidade da direção elétrica. Ainda assim isso não é uma unanimidade.

“A direção elétrica eliminaria muitas peças como a bomba hidráulica e o reservatório do fluido. Mas devido ao nosso piso ruim, a caixa da direção com assistência hidráulica é mais indicada, pois ela absorve melhor as irregularidades da pista. A direção elétrica tem um comportamento muito seco e os impactos acabam passando para o volante”, interpreta Cláudio Malzone. 

A respeito da suspensão, o HB20 coleciona algumas discórdias por ser questionada entre alguns proprietários. Uma rápida consulta em fóruns da internet mostra que nem todos estão satisfeitos com o curso curto das molas e os amortecedores “mal calibrados”, principalmente, no conjunto traseiro. Há, ainda, quem considere insuficientes os 165 milímetros de vão do solo do hatch. Na avaliação dinâmica feita pelos reparadores, no entanto, que praticaram uma direção defensiva em um contexto urbano, o hatch apresentou uma suspensão com comportamento normal, na verdade quase macia, e compatível com um veículo de sua categoria. Mais: em nenhuma situação apresentou o chamado “final de curso”. “O único item que pode dar mais problema aqui é a barra de estabilidade da suspensão dianteira, ruim de trocar. O eixo de torção da suspensão traseira me parece bom e resistente, da mesma forma os amortecedores e molas demonstram ser de boa qualidade e fácil manutenção”, considera Ricardo Pereira. 

Sob o elevador, Sílvio Júnior gostou do que viu. “No filtro de ar, temos uma caixa  para evitar ressonância. Ela é uma das responsáveis pelo silêncio interno que percebemos lá dentro. Compressor do ar- condicionado está bem fácil, assim como o filtro de óleo”, descreve o reparador, que apontou para pelo menos dois diferenciais mais vistos em carros de categoria superior. “Isso aqui é um difusor que recebe o ar frontal e resfria a coifa do semieixo, que fica próxima ao catalisador e, portanto, sujeita a uma alta temperatura. E ali, sobre a bandeja, o pivô prensado tem uma trava que evita a sua queda. Isso não se vê em qualquer carro”, admite. “A trava de fixação do pivô é uma boa medida de segurança, pois se lassear o alojamento da bandeja não há risco de pivô se soltar e cair”, confirma Cláudio Malzone, que também elogiou o sistema de fixação da manga de eixo. “É prático. Em certos veículos o amortecedor encaixa dentro da manga e fica ruim para substituir o amortecedor”, explica. 

Um alerta para os reparadores com pouca prática com as peculiaridades do HB20 ficou por conta de Cláudio Malzone. “Um probleminha comum com esse hatch é o defeito no sensor do ABS das rodas traseiras. A luz espia do ABS pode acender no painel e, na oficina, o scanner acusar a falha do sensor da roda traseira direita. O problema não é no módulo que, aliás, fica meio escondido, próximo ao painel corta-fogo do cofre. É preciso trocar o sensor mesmo. Ocorre, porém, que passado um tempo, que pode chegar a um ano ou mais, o defeito volta. Muitos pensam, então, em substituir o cubo inteiro. Não adianta. Deve-se trocar o sensor de novo. A Hyundai parece já ter tomado pé do problema, tanto que essa pecinha pode ser comprada na concessionária por um preço bem em conta”, avisa o reparador. No entanto, claro, melhor seria que o defeito não fosse tão recorrente...  

ELÉTRICA E ELETRÔNICA 

O pacote de itens de série do HB20 Comfort Plus 1.6 dispõe de, entre outros recursos, airbags frontais, ar-condicionado de uma zona, ajuste elétrico dos retrovisores, vidros elétricos dianteiros e traseiros com função one-touch, alarme antifurto perimétrico, volante multifuncional e computador de bordo. O sistema de multimídia do hatch, denominado blueMedia pela Hyundai, traz uma tela sensível ao toque de sete polegadas, com acesso a Bluetooth e conectividade Apple CarPlay e Android Auto. Esse último reproduz o aplicativo de trânsito e navegação Waze, o que pode compensar a falta de um sistema próprio de navegação GPS. O destaque da central multimídia é a TV digital disponível em todas as versões do hatch. 

Há também novidades na parte operacional, que mais interessa aos reparadores. O tanquinho de gasolina, por exemplo, foi substituído pelo sistema eletrônico de partida a frio e-start. “O módulo responsável pelo aquecimento dos bicos é este, que fica próximo ao painel corta-fogo, com um fusível de 80 amperes. Aqui temos o relê que aciona uma resistência para o aquecimento dos bicos. O módulo da injeção envia para ele a informação sobre a temperatura do motor e que os bicos precisam aquecer o combustível”, explica Ricardo Pereira. 

Outra mudança na parte elétrica se deu com o alternador, cujo gerenciamento foi aprimorado, privilegiando situações de baixa carga no motor para recarregar a bateria. “O alternador é pilotado pelo módulo da injeção eletrônica, que carregará a bateria conforme sua necessidade. Se tudo estiver ligado, farol, limpador etc, e o motor precisar de potência para ultrapassagem, o módulo cortará o alternador para o motor ganhar mais força. Uma vez estabilizada a velocidade, o alternador voltará a carregar a bateria. Esse recurso também faz a bateria durar mais”, detalha Sílvio Júnior. 

INFORMAÇÕES TÉCNICAS 

Fundado há um ano, o Grupo Premium Automotive Specialists pode ser considerado uma iniciativa bem-sucedida de um coletivo de 22 reparadores independentes que se juntaram para, principalmente, fazer circular as informações técnicas entre suas oficinas. Entre elas estão a Malzone Mecânica Automotiva, de Cláudio; a Paulistinha Oficina Mecânica, de Sílvio Júnior; e a Mecatrônica Mecânica e Auto Elétrico, de Ricardo Pereira. Esta última, que conta com oito scanners, teve a oportunidade de, mais de uma vez, ceder um ou outro desses aparelhos para algum colega do grupo resolver uma dúvida respeito de diagnóstico automotivo. O que não quer dizer que Ricardo seja autossuficiente. “Isso é impossível neste ramo, até porque para certas programações é preciso ter o scanner original. Quando precisei, o Grupo me ajudou muito em alguns diagnósticos”, reconhece o reparador, que, para resolver dúvidas a respeito da linha Hyundai, se vale de duas enciclopédias automotivas. 

“Ninguém vive sozinho em nossa profissão e quem fizer isso morre isolado”, reforça Sílvio Júnior. O último treinamento que ele participou, aliás, foi através do Grupo Premium. “Convidamos um consultor técnico da Ikro, fabricante de componentes elétricos automotivos, para falar sobre alternador pilotado. As fábricas estão vendo que nosso trabalho é sério, assim como nossa busca por informações técnicas”, garante Sílvio Júnior, que, em sua oficina, dispõe de cinco scanners, um osciloscópio e um aparelho de endoscopia automotiva. “Entre os carros da Hyundai, no entanto, nenhum gera grandes questionamentos. O problema da suspensão da Tucson é tão recorrente que ninguém mais duvida que ele não tem jeito mesmo”, admite. 

Para Cláudio Malzone, o Grupo é uma solução porque esperar transparência das montadoras é quase inútil. “No exterior, o acesso às informações técnicas por parte das montadoras junto aos reparadores é algo obrigatório, mas no Brasil ainda não conquistamos esse direito. Por aqui há os softwares automotivos, mas nem todos aguentam mantê-lo. A última atualização de um deles custou mais de R$2 mil, sem falar da taxa que recolhemos ao nosso Sindirepa para ter acesso ao seu banco de dados”, contabiliza o reparador. “Menos mal”, diz ele, “que os carros da Hyundai têm, geralmente, uma manutenção tranquila e não nos trazem dificuldade”, sentencia. 

PEÇAS DE REPOSIÇÃO 

O problema da reposição de peças, que marcou os primeiros tempos da Hyundai no Brasil, foi sensivelmente amenizado após a associação da montadora sul-coreana com o Grupo Caoa. Hoje, se há falta de um ou outro componente, o problema é tratado pontualmente e, diga-se, não é exclusivo da Hyundai. Não fosse assim ela não teria recentemente ultrapassado a marca do um milhão de veículos produzidos aqui. Recorde-se, ainda, que logo em seu lançamento, em 2012, mais de 75% das peças do HB20 já eram produzidas no Brasil. Motores e câmbios, é verdade, ainda vêm da Coréia do Sul e, segundo executivos da Hyundai, a produção do conjunto motriz por aqui depende, principalmente, de uma melhoria do cenário econômico brasileiro. 

Entre os reparadores independentes não foi relatado nenhuma dificuldade na obtenção de componentes para os carros da marca sul- -coreana. “Até compramos bastante peças nas concessionárias porque procuramos aproveitar as promoções. No caso das bobinas, por exemplo, nem cogitamos colocar peça alternativa, pois o preço das concessionárias é competitivo e a qualidade superior. Elas também praticam bom preço para coxins e componentes da suspensão. Agora, quando se trata de uma manutenção básica, preventiva, quando precisamos de velas, filtros, discos, pastilhas etc, há boas opções em distribuidores independentes”, indica Cláudio Malzone.  

Sílvio Júnior também recomenda aos colegas ficarem atentos às promoções das concessionárias, porque algumas peças, quando não estão excessivamente caras, podem valer a pena pelo bom custo- -benefício. “Quanto às bobinas e bicos injetores, como somos representantes da Bosch, nossa escolha é óbvia, e também porque esses componentes são tão bons ou melhores que os originais. O importante é optar sempre por uma peça de qualidade que se encaixe na descrição da montadora”, defende o reparador, para quem o HB 20 tem uma manutenção relativamente em conta em comparação aos concorrentes da categoria. Ricardo Pereira assina em baixo: “Ao fazer a cotação dos preços é preciso prestar atenção às promoções das concessionárias. Uma dica: para o reparo da caixa da direção elétrica do Hyundai I30 não adiantam alternativas. Aquela borrachinha tem que ser mesmo a original. Na minha oficina, quero que o cliente volte para fazer outro serviço, não aquele que eu já fiz”, argumenta. 

RECOMENDAÇÃO 

Problemas pontuais do Hyundai HB20 Comfort Plus 1.6 apontados pelos reparadores não chegaram a comprometer o excelente conceito que o pequeno hatch conquistou nas oficinas e que, agora, após essa detalhada análise, ele consolidou. 

“Sim, eu o recomendaria aos meus clientes pela qualidade da mecânica, do motor, da suspensão, do câmbio e dos demais componentes. Robusto, dirigibilidade boa, reparabilidade fácil, rápido de oficina e com pouca manutenção. Mesmo o acabamento interno, que poderia ser melhor, não é ruim. Enfim, o HB20 não deve nada aos melhores carros.”Cláudio Malzone 

“Carro bem construído, de fácil manutenção, robusto e gostoso de dirigir. Tem muito mais pontos fortes do que fracos. Se não fosse razoavelmente bom não venderia tanto. Sim, recomendo.” Ricardo Pereira da Silva 

“Já recomendei muito a compra desse carro aos meus clientes. E recomendo novamente. Entre os carros da categoria, com essa configuração, eu o colocaria em primeiro lugar.” Sílvio Gomes Júnior  

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