Pitstop - Antônio Edson

Reaproveitamento de óleo combustível tem muito a evoluir e reparadores podem contribuir mais

Qual o destino que você dá ao óleo lubrificante recolhido por sua oficina? Se não sabe é bom saber: apenas um litro desse fluido pode contaminar um milhão de litros de água potável, sem falar de prejuízos causados ao solo e ao ar

Com uma frota de 42,6 milhões de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus, e ainda 13,6 milhões de motocicletas – os dados são do Sindipeças relativos a 2015 –, o Brasil tem uma das 10 maiores frotas motorizadas do mundo e é um dos países que mais geram produtos descartados por esses veículos.Diariamente, em oficinas, centros automotivos, concessionárias, posto de combustível e outros pontos, uma quantidade incomensurável de peças plásticas, de metais, borracha e mesmo de papel é substituída e se transforma em sucata, que, para o bem do planeta, deve ser corretamente reciclada para poupar recursos naturais e, principalmente, não poluir o meio ambiente. No caso dos fluidos retirados dos veículos o cuidado não é menor, mas mostra o quão longe o Brasil está de fazer a coisa certa. Em 2016, o Pais gerou 1,2 bilhão de litros de Oluc (Óleos Lubrificantes Usados ou Contaminados), mas apenas 430 milhões foram corretamente recolhido se passaram pelo processo de rerrefino que os converteu novamente em algo utilizável.

Por rerrefino entende-se o processo industrial de remoção de contaminantes, produtos de degradação e aditivo dos óleos lubrificantes usados ou contaminados, com objetivo de conferir a eles características de óleos básicos. Ele é também o ponto mais complexo no que tange a reciclagem dos produtos descartados de veículos movidos por motores a explosão. É tão importante que, em 2005, as atividades de coleta, recolhimento e processamento do Oluc precisaram ser reguladas por uma portaria dos Ministérios do Meio Ambiente e de Minas e Energia. O primeiro, sem dúvida, preocupado com o descarte irresponsável do produto. Afinal um litro de óleo lubrificante queimado, rico em substâncias poluentes como metais pesados, ácidos orgânicos, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e dioxinas,é o bastante para contaminar um milhão de litros de água potável.Já mil litros do produto, equivalente ao que leva um pequeno caminhão tanque, pode destruir irremediavelmente um manancial de água que abastece uma cidade de 50 mil habitantes. Se for queimado ilegalmente para alimentar fornos e caldeiras de padaria, olarias, carvoarias, cerâmicas e siderúrgicas, ele despeja no ar gases venenosos e cancerígenos de alta toxicidade. E quando derramado no solo condenará irreversivelmente aquíferos e lençóis freáticos.

Rerrefinar para não importar

Deixar de recolher corretamente o óleo lubrificante queimado também faz mal à economia de um País como o Brasil. E aí entra o interesse do Ministério das Minas e Energia para o máximo de Oluc ser reaproveitado da melhor maneira possível. Isso porque o petróleo extraído no Brasil é do tipo pesado e a produção do óleo básico destinado à lubrificação automotiva e aos maquinários de segmentos industriais exige um petróleo mais leve e, no caso,importado, como o que vem do Oriente Médio. Logo, quanto mais Oluc o Brasil rerrefinar menos gastará com importações de commodities.Sem falar que o rendimento do Oluc é compensador, variando entre 70 a 72%. Ou seja, de cada mil litros de óleo usado recolhido as usinas conseguem produzir até 720 litros de óleo básico limpo.“Os restantes 30%também são reaproveitados”, avisa Gustavo Cardoso, gerente comercial da Lwart Lubrificantes, uma das empresas do País dedicadas à coleta e ao rerrefino do Oluc. “12% é fornecido para as produtoras de manta asfáltica; 9% é água, que, trata da volta para a natureza, e um outro volume menor é direcionado para a produção de energia elétrica da empresa. Praticamente nada se perde”, completa.

A Lwart é a única empresa de rerrefino do Brasil a adotar a técnica da hidrogenação do óleo queimado, em que o fluido é vertido molecularmente em óleo básico do grupo 2. Cerca de 34% desse lubrificante produzido no Brasil sai da refinaria da empresa. “A vantagem desse óleo é a sua melhor qualidade, com praticamente zero de enxofre e de compostos nitrogenados, além de ter uma estabilidade maior quanto à oxidação”, descreve Marcelo Murad, gerente de coleta e logística da Lwart. Segundo Marcelo é esse óleo básico do grupo 2 o mais indicado para a produção de lubrificantes para os veículos com motores menores, mais desenvolvidos tecnologicamente, de melhores performance e eficiência energética, e, principalmente, com baixo teor de emissão de gases poluentes. “Outro benefício desse fluido é permitir quilometragens mais longas antes de ser necessária uma nova troca”, completa o gerente.

Compromisso das fontes

A empresa foi responsável por 132 milhões, ou pouco mais de 30% do total, dos 430 milhões de litros de óleo lubrificante queimado rerrefinados pelo País em 2016.Isso devido a uma frota de 340 caminhões tanque distribuídos em 15 bases regionais autorizadas pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) que dão conta de estocar provisoriamente o Oluc recolhido em mais de 100 mil pontos de coleta – incluindo muitas oficinas reparadoras – espalhados por todos os estados brasileiros. O destino final desse óleo usado é a refinaria da empresa de Lençóis Paulista (SP), em uma planta industrial de aproximadamente 10 mil metros quadrados e que tem, segundo Gustavo, a maior linha de produção de óleo de rerrefino do mundo. “Nossa capacidade instalada é a de processar 220 milhões de litros de Oluc por ano, podendo gerar 160 milhões de óleo básico. Em 2017, nossa meta é produzir 140 milhões de litros”, projeta.

Esse compromisso de aumentar a produção do óleo básico a partir da coleta responsável do Oluc e de diminuir ou mesmo – por que não?– erradicar o descarte criminoso desse produto não pode nem deve ser apenas uma meta das empresas de rerrefino, mas precisa começar no primeiro elo de uma cadeia produtiva que muitas vezes está em uma oficina, com um reparador trocando o óleo do cárter de um veículo. Além desse óleo precisar ser bem condicionado e depositado em local seguro é indispensável que a oficina conte com uma empresa capacitada e autorizada para fazer sua coleta. “A oficina precisa conhecer a quem ela está entregando esse produto. Saber, por exemplo, se ela tem registro na ANP, se está autorizada a fazer essa operação. Porque se ela não estiver autorizada nem tiver registro, seu reparador se torna corresponsável por qualquer acidente ambiental”, previne Gustavo Cardoso. A cada coleta do óleo, segundo o gerente, é indispensável ainda que a empresa deixe um documento comprovando a retirada do produto da oficina e que esse seja arquivado em local seguro para uma eventual fiscalização.

Ganhos e perdas

É o que faz a gerente administrativa Fernanda Lopes Neves Barbosa, 28 anos, que arquiva todos os comprovantes emitidos pela Lubrasil Lubrificantes, responsável por retirar o óleo acumulado na Carcel Auto Center, localizada no bairro do Cambuci, em São Paulo (SP). Conforme os registros, em uma das últimas vezes que o caminhão da empresa esteve na oficina foram coletados 1.200 litros de óleo que são armazenados em latões de 200 litros cada um. O ponto final do produto é a refinaria da Lubrasil instalada em Piracicaba (SP). “Como a empresa faz a retirada mais ou menos uma vez a cada 30 dias esse volume é o fruto do nosso movimento em mês”, afirma Fernanda. A operação resultou em R$ 540 para a oficina, o que vale dizer que cada litro de óleo usado rendeu a ela 45 centavos. “O valor é o menos importante nesse caso, pois essa não é a atividade fim da oficina. O importante, para nós, é estarmos fazendo o procedimento conforme manda a lei, para não poluir o meio ambiente. Há, ainda, outro lado: nossa consciência está leve”, revela o empresário e reparador Celso de Oliveira Neves, 54 anos, dono da Carcel.

Com quase 45 anos de experiência no ramo da reparação automotiva – primeiro como empregado e desde 1989 como dono de oficina –, Celso admite que o compromisso dos reparadores com a destinação dos produtos descartados pelos veículos nas oficinas evoluiu bastante nas últimas décadas. Segundo ele, até pelo menos os anos 1990 não havia tantos cuidados como vemos hoje: os rejeitos dos automóveis não eram submetidos a uma seletividade e o óleo lubrificante queimado muitas vezes era descartado no esgoto ou na terra. “E o que é pior, nem havia muita fiscalização a respeito. Hoje, não. Até mesmo o jornal velho e a estopa sujos de óleo, sem falar dos filtros e das embalagens dos óleos, precisam ser separados porque não podem ir para o lixo comum. Sim, aos poucos fomos aprendendo”, reconhece o reparador, para quem alguns colegas ainda precisam evoluir nesse sentido. “Não só eles, mas também representantes de fontes geradoras de outros segmentos que, às vezes, por falta de uma educação ambiental colocam o interesse econômico à frente do meio ambiente. Nesses casos é certeza que um pequeno ganho individual de hoje resultará em uma grande perda para todo planeta mais tarde”, conclui Gustavo Cardoso. 

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