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Do Fundo do Baú - Anderson Nunes

Versailles Ghia 2.0 quatro portas - o modelo injetava luxo e sofisticação na Ford da era Autolatina

Para substituir o combalido Del Rey, a Ford usou o Santana para criar o Versailles Ghia, seu modelo de luxo que durou apenas cinco anos

O executivo da família, o Versailles Ghia quatro portas adicionava mais conforto e praticidade ao modelo de luxo da Ford

A Autolatina, empresa resultante da união operacional da Volkswagen com a Ford, no Brasil e Argentina, perdurou entre os anos de 1986 a 1994. Segundo registrava o Acordo de Cooperação firmado entre as matrizes das duas empresas em 24 de novembro de 1986, a associação tinha por objetivo “assegurar permanente atualização tecnológica, maior eficiência operacional e melhor utilização da capacidade de produção das instalações da Volkswagen e da Ford“. A Autolatina foi formalmente criada em 1º de julho do ano seguinte, com 51% do capital da Volkswagen do Brasil e 49% da Ford do Brasil. Em 28 de dezembro de 1990 as duas empresas foram fundidas sob a razão social Autolatina Brasil S.A., uma holding em que era mantida a individualidade de suas áreas de marketing e vendas e de sua rede de revendas e assistência técnica. As equipes de engenharia de produto passavam a operar articuladas entre si, atendendo a planejamento e estratégias únicos.

Inicialmente houve uma sinergia benéfica às duas marcas. Os primeiros resultados práticos da união ocorreram na área de motores, com o intercâmbio entre as unidades da VW denominadas AP, mais modernas e com melhor desempenho, que vieram a equipar os Escorts. Já o trem de força da Ford mais barato e econômico, os conhecidos CHT rebatizados de AE, foram utilizados na família Gol. O aparecimento de veículos compartilhados demorou um pouco mais, o primeiro deles ocorreu em junho de 1990 – o Volkswagen Apollo, clone do Ford Verona (o Escort três volumes), prenunciando o grande problema que adviria da fusão de marcas e culturas tão distintas: a falta de personalidade dos modelos comuns que viriam a ser lançados a partir daí. 

Farol trazia desenho inspirado no Ford Taurus americano e diferente do seu irmão Santana O Brasão do estúdio italiano Ghia era referência  nos modelos topo de linha dentro da gama Ford A maçaneta externa era a mesma utilizada no VW Santana, um certo exagero de economia no custo final de produção

Em 1991 foi apresentado o novo VW Santana e em julho daquele ano sua cópia Ford Versailles; em 1992 foi a vez das peruas Quantum e Royale, mantendo inicialmente a versão de quatro portas para o modelo da marca alemã e duas portas para a sucessora da Belina. A Volkswagen, com mais tradição no desenvolvimento de projetos, soube tirar melhor partido da situação, projetando dois carros originais a partir do novo Escort: o Logus e o Pointer. Originais, porém típicos produtos Ford, do acabamento interno ao comportamento dinâmico, os carros eram produzidos na fábrica da Ford, na mesma linha de montagem do Escort. A Ford ficou caudatária do processo durante todos esses anos, apenas aproveitando-se das sobras disponibilizadas pela sócia. Dois exemplos: jamais tendo investido em carros de menor porte (segmento em que a VW era tradicionalmente forte) e surpreendida pela explosão do mercado de carros “populares” no país, a Ford limitou-se a disponibilizar um pesado e inadequado Escort batizado de Hobby com motor 1,0 litro, retrabalhado a partir do trem de força AE de 1600 cm³.

A economia de escala era evidente pois o Versailles e o Santana também compartilhavam os mesmos retrovisores O etanol era responsável pelo alto desempenho do Versailles Ghia  O porta-malas podia transportar 365 litros de bagagem e a tampa facilitava o embarque e retirada de malas

Em abril de 1994, sem maiores justificativas, foi anunciada a cisão entre Ford e VW e a extinção da Autolatina, que ocorreu em 1996. A equivocada política de produto e a discrição dos investimentos na diversificação da linha Ford durante os pouco menos de oito anos da aliança entre as duas empresas trouxe sequelas graves à marca, que só seriam superadas anos depois. Quando formada a Autolatina, a Ford era o terceiro maior fabricante nacional, respondia por quase 20% do mercado interno de veículos; em 1992, sua participação já caíra para 14,3%, chegando ao mínimo de 8,2%, em 1996. Com uma gama de produtos próprios envelhecida e desatualizada, a situação continuou a piorar continuamente, falou-se mesmo no encerramento de suas atividades no país.

Painel tinha um desenho próprio, para deixar o interior com um aspecto mais original Os instrumentos mantinham a mesma disposição original do Santana Material de revestimento dos bancos tinha um desenho próprio

A Ford só conseguiu se reerguer a partir de 1997, com a renovação radical da sua linha de produtos, com a chegada do novo Escort equipado com o motor Zetec e o lançamento do tão esperado carro pequeno, o Fiesta, inicialmente importado da Espanha e posteriormente produzido na unidade de São Bernardo do Campo. A reviravolta veio com o pequeno SUV EcoSport, em 2003, produzido no novo complexo industrial da Camaçari, Bahia.

 

VERSAILLES, O IRMÃO CAÇULA DO SANTANA

 Trava de segurança evitava que as crianças abrissem as portas Versátil motor AP 2000 alimentado a etanol e carburado fazia o sedã executivo ir a mais de 170 km/h  Símbolo de luxo na época, o toca-fitas com função autoreverse foi preservado nesse exemplar do Ford Versailles Ghia

O pomo da alavanca de câmbio lembra as utilizadas pelo Del Rey  Originalidade desse Versailles é evidente na etiqueta de produção com o código de barras e a descrição do tipo de motor

Segundo lançamento da Autolatina a compartilhar plataformas, o Ford Versailles era a versão “americanizada” do VW Santana. Ao contrário da dupla Verona/Apollo, que eram carros praticamente iguais, a Ford tratou de aplicar uma identidade própria ao seu modelo de luxo e assim diferenciá-lo do seu similar alemão. O resultado surtiu efeito e o Versailles realmente trouxe identidade do oval azul. O modelo tinha a dura missão de substituir o Del Rey na hierarquia de veículos de luxo, tradição iniciada com o Galaxie em 1967.

Ofertado nas versões GL e Ghia, em um primeiro momento só estava disponível com carroceria duas portas. O modelo media 4,57 metros de comprimento e a distância de entre- eixos era 2,54 m. Visualmente as diferenças mais evidentes eram aplicadas na dianteira e traseira. Na parte frontal, os faróis apresentava um desenho inspirado no modelo Taurus e a grade aerodinâmica de uma única lâmina e pintada na cor carro lembrava a do Scorpio alemão. Os parachoques seguiam linhas mais retilíneas e na versão Ghia havia pequenos frisos cromados que ladeavam toda a carroceria. Na coluna C no modelo de luxo também era aplicada uma pintura preto fosca para dar uma impressão de continuidade à área envidraçada. As rodas eram aro 14 e no Ghia confeccionadas em liga leve com desenho raiado, cobertas com pneus 195/60. No GL as rodas eram em aço com calotas. Por fim, a traseira apresentava a tampa de porta-malas mais reta e as lanternas tinham um formato de trapézio, deixando o visual mais clássico.

No tocante à mecânica havia três opções de motor: AP 1,8 litro e AP 2,0 litros carburado e AP 2,0 litros com injeção eletrônica. Na versão GL o motor de entrada era o AP 1,8 litro carburado com 99 cv na versão a álcool. Para quem quisesse mais desempenho podia optar pela motor de 2 litros também com carburador de 105 cv. Somente no modelo Ghia havia a opção de motor com injeção eletrônica Bosch com potência de 125 cv a 5.800 rpm e torque máximo de 19,5 m.kgf a 3.000 rpm. Todos acoplados a transmissão manual de cinco marchas ou automática de três velocidades, somente para o Ghia. Nos testes da revista Quatro Rodas, a versão Ghia equipada com o motor injetado atingiu a velocidade máxima de 174 km/h e a aceleração de 0 a 100 km/h em 11 segundos. O Versailles Ghia foi por alguns meses o automóvel mais veloz produzido no Brasil.

 

INTERIOR SÓBRIO

 

A personalização do interior foi mais contida por parte da Ford para seu modelo de luxo. Havia poucas diferenças em relação ao Santana. A mais evidente era o painel que trazia um desenho próprio. Do lado esquerdo havia quatro teclas para o pisca-alerta, farol de neblina, desembaçador traseiro e regulagem da intensidade da luz do painel de instrumentos. Já os instrumentos tinham uma grafia elegante e a iluminação era esverdeada. O volante de dois raios era cópia fiel ao utilizado pelo Ford Scorpio, já a manopla do câmbio seguia o perfil utilizado pelo Del Rey. Ao contrário do Santana em que os comandos de ventilação eram giratórios, no Versailles eles eram teclas e a intensidade de ar frio e quente feita por um comando de correr.

Os bancos, embora utilizassem a mesma estrutura da Volkswagen, apresentavam revestimento em veludo e o apoio de cabeça era inteiriço e para o motorista o assento contava com regulagem de altura feita por uma alavanca na lateral do banco. Para os passageiros do banco de trás era  curioso o fato da Ford não oferecer o apoio de braço central. O quinto passageiro viajava mais bem acomodado devido à retirada de tal acessório. Para os ocupantes das extremidades havia cintos laterais de três pontos, acessório que somente seu irmão Santana oferecia.

 

MUDANÇAS PONTUAIS EM UMA CARREIRA CURTA

 O acabamento da porta todo em tecido revela uma preocupação com estética não vista mais nos dias de hoje A etiqueta com aviso era um alerta que o toca-fitas seria inutilizado caso fosse roubado Discreta alavanca na lateral do banco do motorista servia para regular a altura do assento

 

Houve pequenas mudanças e ajustes pontuais foram acrescentadas ao longo da curta carreira comercial de cinco anos do Ford Versailles. A primeira ocorreu em 1992, quando o modelo ganhou a opção das quatro portas, comodidade benéfica a um modelo destinado a executivos. O modelo de luxo da Ford foi o segundo veículo brasileiro a ter opção dos freios com o sistema ABS, embora continuasse com a clássica disposição de freios a disco ventilados na dianteira e a tambor na traseira. Para entrar em conformidade com o programa de redução de poluição – Proconve- também foi adicionado o catalisador.

Para a linha 1993 o Versailles passou a ter o parachoques e os retrovisores pintados na mesma cor da carroceria. Internamente os bancos em veludo ganharam um novo padrão de acabamento, mais refinado e os comandos de ventilação passaram a ser giratórios. Para a versão GL agora estava disponível também o motor de 2 litros com injeção eletrônica. As versões movidas a gasolina passam a contar com o carburador eletrônico. No mercado o modelo sofria ataques do Fiat Tempra e do Chevrolet Omega, em sua versão GLS equipada com o motor de 2 litros. Dentro da própria linha Ford havia agora a concorrência com o Mondeo, importado da Bélgica e a chegada do novo Verona com a mesma carroceria de quatro portas do Orion europeu e que também oferecia o motor AP de 2 litros com injeção eletrônica. 

Mais requinte e luxo: essas foram as palavras de ordem para linha 1994. No Ghia os bancos dianteiros passaram a contar com a regulagem lombar. Vários itens de conforto e conveniência passaram a ser adotados, como teto-solar com acionamento elétrico, rádio com toca CD com oito alto-falantes, coluna de direção com regulagem de altura, indicador de portas abertas e desligamento dos faróis com temporizador. Os comandos elétricos dos vidros dianteiros migraram do console central para as portas dos passageiros da frente. A terceira luz de freio estava presente agora.

 Houve a adoção da injeção eletrônica digital FIC – Ford Indústria e Comércio- monoponto para a versão GL 1.8 e FIC mulmultiponto para as versões GL e Ghia equipadas com motor 2.0, tanto a gasolina como a álcool. A injeção Bosch LE-Jetronic analógica deixa de ser oferecida. Ar-condicionado e direção hidráulica também passam a ser disponíveis como opcionais na versão GL 1.8.Curiosamente, o carburador eletrônico conviveu junto com a injeção eletrônica nos modelos 94, equipando tanto a versão GL como a versão Ghia, a álcool ou a gasolina.

Em 1995, o Versailles, apesar de ter bons índices de satisfação no pós-venda, passou a ter um futuro incerto com o fim da Autolatina. Mesmo com essa cisão de parceria a Ford decidiu atualizar seu modelo de luxo. A versão Ghia passou a oferecer bancos e revestimentos das portas em couro como opcionais. Os vidros elétricos subiam com o acionamento do alarme, já o painel de instrumentos ganhou nova grafia nos mostradores, além da adoção de um novo volante de 4 raios. Por fora poderia ser identificado pela nova grade frontal com a entrada de ar oval e os faróis de longo alcance envoltos por uma moldura plástica na cor da carroceria. Na traseira foi adicionado um aerofólio com a terceira luz de freio embutida e a antiga moldura refletiva, que unia os dois conjuntos ópticos, desapareceu, dando o lugar a uma saliência horizontal na lataria, sobre a chapa. A antiquada faixa preta na coluna traseira foi aposentada por não agradar parte dos proprietários, assumiu a pintura normal, assim como a antena que foi abolida, passando a ser equipado de uma antena com captação eletrônica, na verdade um filete de cobre, prensada entre as lâminas do para-brisa.

O Mondeo, que custava menos que um Versailles Ghia completo, tinha um projeto mais moderno e conquistou uma parte significativa dos consumidores do modelo de luxo da Ford brasileira. Na época, o dólar era cotado a R$ 0,85 e o Mondeo GLX 4 portas completo custava US$ 40.352,00 (R$ 34.297,00). Mesmo atravessando o oceano Atlântico e pagando as taxas de importação, o Mondeo chegava ao Brasil custando menos que o Versailles Ghia 4 portas igualmente completo, que saia por R$ 38.668,00 O status de possuir um carro importado passou a falar mais alto e o Versailles passou por revés comercial dentro da própria casa.

A Ford ainda tentou reposicionar o preço do Versailles e da Royale, com uma redução de até 15%, mas já era tarde. O fim iminente da Autolatina, a acirrada concorrência no segmento (Santana, Tempra, Vectra, Omega) e a chegada dos importados fizeram com que as chances da família Versailles continuar no mercado se tornassem cada vez menores. As últimas unidades do modelo foram entregues em 1996, marcando o fim do acordo comercial entre a Volkswagen a Ford.

Como curiosidade o Versailles também foi vendido na Argentina. No país portenho o modelo chegava rebatizado de Ford Galaxy e substituiu o combalido Falcon, projeto da década de 1960 e que fez sucesso na terra de Carlos Garden por mais de duas décadas.

 

TROCA DO DEL REY PELO VERSAILLES

 Os projetistas da Ford estavam num dia muito inspirado quando desenharam as belas rodas raiadas aro 14 da versão Ghia Os para-choques pintados na cor do carro deram um visual mais sofisticado ao modelo Ghia A traseira de fato era a parte mais chamativa do modelo, lembrando um veículo importado

O engenheiro mecânico Mario Triches Junior, 38 anos, guarda com carinho a lembrança do Ford Versailles em sua vida. Foi no início de 1994 que o modelo substituiu outro Ford na garagem da família. “Em 1994 meu pai comprou um Versailles para substituir o Del Rey e desde então criei um carinho muito grande por esse modelo”, diz emocionado Triches.

Depois de muita procura por um Versailles, o engenheiro encontrou um modelo Ghia 1993 quatro portas equipado com o motor de 2 litros alimentado a álcool. Segundo Mario, o carro estava em excelente estado mecânico e de carroceria, sendo feita apenas a manutenção e troca de algumas peças mecânicas.

O modelo 1993 é o que mais desperta a atenção do proprietário devido a algumas características que foram feitas apenas nesse ano. “Eu considero o Versailles Ghia 1993 a melhor safra dos Versailles, pois já incluem melhorias no acabamento, para-choques na cor do carro e ainda mantém os bancos no padrão Volkswagen, que foram substituídos em 1994 por outros com estrutura Ford”, salienta Mario.

 

Para o proprietário o Versailles tem como pontos positivos a robustez mecânica e facilidade de manutenção, além da carroceria sólida advinda da Volkswagen. Já o acabamento é o ponto fraco para um modelo Ford, pois algumas peças internas são frágeis e difíceisl de encontrar.    

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