
O procedimento de troca de óleo continua sendo um dos serviços mais realizados nas oficinas mecânicas, mas ainda é cercado por conceitos equivocados que podem comprometer o desempenho e a vida útil do motor. Questões como a escolha da viscosidade, a periodicidade da troca e a interpretação das características do lubrificante frequentemente geram dúvidas entre motoristas e até mesmo profissionais do setor. De acordo com Wellington Santos, especialista em tecnologia de produto da Castrol, muitos problemas relacionados ao desgaste prematuro dos motores estão diretamente ligados à desinformação sobre o papel do lubrificante. “O óleo é um componente de engenharia. Ele é formulado com óleos básicos, pacote de aditivos e focado em especificações técnicas da indústria e de montadoras. Não é tudo igual e não pode ser escolhido apenas pelo preço”, afirma. Diante desse cenário, conhecer os principais mitos e verdades sobre o lubrificante é fundamental para orientar corretamente o cliente e garantir a execução adequada do serviço de manutenção. Um dos equívocos mais comuns é acreditar que um óleo de maior viscosidade oferece proteção superior. Segundo o especialista, a viscosidade correta é sempre aquela especificada pela montadora. Lubrificantes mais espessos podem demorar mais para circular durante a partida, aumentando o desgaste justamente no momento mais crítico de funcionamento do motor. “A viscosidade não é sinônimo de proteção extra. Se o motor foi projetado para 5W-30, usar 20W-50 pode prejudicar circulação, desempenho, consumo de combustível e emissões”, explica Wellington. Outro mito recorrente é a ideia de que a baixa quilometragem elimina a necessidade de substituição periódica do lubrificante. Mesmo com o veículo parado, o óleo sofre degradação química por oxidação, absorção de umidade e contaminação por combustível. Além disso, trajetos curtos são considerados condição severa de uso, pois o motor nem sempre atinge sua temperatura ideal de operação, favorecendo a formação de depósitos e borra. A classificação sintética não garante, por si só, o mesmo nível de desempenho. O pacote de aditivos, as homologações e as especificações técnicas são fatores determinantes para a performance do produto. “A informação da base sintética no rótulo é só uma parte do perfil do produto. É preciso observar também as normas SAE, API e ACEA, além das especificações dos fabricantes de veículos”, destaca. O escurecimento do lubrificante não indica necessariamente que ele está deteriorado. Em muitos casos, a mudança de cor demonstra que os aditivos detergentes e dispersantes estão cumprindo sua função de manter partículas contaminantes em suspensão até o momento da troca. Embora a viscosidade seja um fator importante, ela não é o único critério. Produtos com a mesma classificação viscosimétrica podem possuir formulações e aditivos diferentes. Segundo Wellington, em situações emergenciais o complemento pode ser feito com óleo da mesma especificação, mas o ideal é manter o mesmo produto até a próxima troca. Estima-se que aproximadamente 75% do desgaste do motor ocorra durante a partida, quando o óleo ainda não circulou completamente pelos componentes internos. Leia também Essa condição se torna ainda mais crítica em centros urbanos, onde o sistema passa repetidamente pelos ciclos de liga e desliga em congestionamentos e trajetos curtos. A redução do atrito entre os componentes internos do motor contribui para diminuir as perdas mecânicas. Como resultado, o conjunto trabalha de forma mais eficiente, podendo gerar ganhos no consumo de combustível. “Quando há menos contato metal-metal, o motor trabalha de forma mais eficiente. Isso pode refletir na economia de combustível, dependendo do veículo e das condições de uso”, afirma o especialista. A escolha do lubrificante deve considerar as exigências estabelecidas pelas normas API, ACEA, ILSAC e pelas homologações específicas das montadoras. A utilização de um produto fora dessas especificações pode comprometer emissões, desempenho, durabilidade e até mesmo a garantia do veículo. A formação de borra está associada à oxidação do óleo, excesso de calor, contaminação e uso predominante em percursos curtos. O acúmulo desse material pode restringir a circulação do lubrificante e comprometer a proteção dos componentes internos. Por isso, a manutenção preventiva e a utilização de produtos adequados são fundamentais para evitar o problema. Trânsito intenso, partidas frequentes, funcionamento prolongado em marcha lenta e trajetos curtos caracterizam uma condição severa de operação. Na prática, grande parte dos veículos utilizados nos centros urbanos se enquadra nessa categoria, exigindo atenção especial aos intervalos de troca recomendados pelo fabricante. Para o reparador, a troca de óleo vai muito além da simples substituição do lubrificante. A consulta ao manual do veículo, a verificação das especificações exigidas pela montadora e a orientação adequada ao cliente sobre os intervalos de manutenção são etapas essenciais para preservar a durabilidade do motor. “O óleo lubrificante não é apenas um fluido, mas sim parte estrutural da engenharia do motor. Ele controla o atrito, ajuda na limpeza interna, contribui para a eficiência térmica, durabilidade, economia de combustível e emissões mais limpas”, conclui Wellington Santos.Mitos que ainda persistem nas oficinas
Óleo mais grosso protege mais o motor
Veículos que rodam pouco não precisam trocar o óleo
Todo óleo sintético é igual
Óleo escuro significa que perdeu suas propriedades
Qualquer óleo pode ser usado para completar o nível
Verdades que o reparador deve considerar
O maior desgaste acontece na partida
O lubrificante mexe no consumo de combustível
As especificações técnicas são tão importantes quanto a marca
A borra pode causar danos severos ao motor
Uso urbano é considerado condição severa
Procedimento correto evita falhas e aumenta a vida útil
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