Oficina Brasil


Especial Automechanika Frankfurt 2018: negócios e oportunidades no aftermarket

Em sua 25ª edição a Automechanika Frankfurt, maior evento mundial do mercado automotivo, reuniu mais de 136 mil visitantes, de 181 países diferentes em 5 dias de atividade

Por Da redação

Tudo na Automechanika impressiona. Ao longo dos últimos 20 anos foram poucas as vezes em que, nos anos pares, não estivemos presentes neste que é o maior evento mundial do mercado automotivo e a cada ocasião a sensação é sempre a mesma: que mercado vibrante estamos inseridos! 

Nesta edição foram 12 pavilhões de exposições, e em muitos deles há 3 ou 4 andares com expositores, aliás mais de 5 mil deles, de todas as partes do globo. São cores, rostos, idiomas, roupas e costumes diferentes, mas uma mesma vocação: realizar negócios. Seja na compra e venda de produtos, seja na reparação e manutenção de veículos, que sempre dispõe de vários pavilhões para ferramentas e equipamentos, um paraíso terrenal para quem está no dia-a-dia das oficinas. 

E por falar em oficinas mecânicas, nunca o reparador independente esteve tão presente no ambiente da feira, principalmente junto aos grandes expositores que, cada um à sua maneira, apresentaram suas soluções para conectar a demanda, formada pelos reparadores independentes, à oferta, composta pelos agentes comerciais nos mais variados desenhos de canal. 

Não há momento melhor para ser reparador do que agora pois a estratégia global das grandes empresas multinacionais é valorizar o profissional independente e fornecer informações relevantes. 

Ainda temos muitas filiais brasileiras dessas multinacionais que não estão alinhadas com essa tendência global, mas é uma questão de tempo para mudarem. Se não o fizerem como inteligência de mercado, terão que fazer por pressão das matrizes e aí ficará pior a emenda que o soneto. Como dizem por aí: #ficaadica. 

Para trazer uma perspectiva de quem conhece o mercado europeu sobre a Automechanika Frankfurt 2018, convidamos Olivier Legrand, consultor especializado no Aftermarket, a apresentar seu ponto de vista sobre essa edição da feira, confira no box “Ponto de Vista”. 

WORKSHOP BRASIL AFTERMARKET 

Idealizado pela ANDAP e com o apoio das entidades representativas do setor foi realizado no dia 12 de setembro o 1° Workshop Brasil Aftermarket (WBA), com a presença de mais de 100 altos executivos do setor, e tendo como objetivo incentivar e promover as relações empresarias além de propiciar um fórum de alto nível para a discussão dos temas de interesse que impactam o cenário competitivo local e global do Aftermarket automotivo e a consequente criação de uma agenda positiva para o setor. 

Ao dar as boas-vindas aos presentes, o presidente da Andap, Rodrigo Carneiro, salientou que o mundo passa por grandes mudanças tecnológicas e que sem inteligência, informação e monitoramento contínuos todos os desafios, presentes e futuros, ficarão ainda mais complexos e que a agenda proposta para o primeiro Workshop Brasil Aftermarket traz justamente este enfoque, com temas caros ao mercado nacional: inteligência de mercado, consolidação de mercado, transformação digital e compliance. 

Falando em nome da Messe Frankfurt, proprietária da marca Automechanika, o CEO da empresa Michael Johannes compartilhou com os presentes a satisfação da Messe Frankfurt em acolher este primeiro evento no ano em que a feira comemora sua 25ª edição com números recorde de expositores e público e se prontificou a que em todos os eventos Automechanika pelo mundo o espaço estará a disposição das entidades brasileiras para a realização de workshops sobre o mercado. 

Inteligência de Mercado foi o tema da palestra do Diretor Técnico da Central de Inteligência Automotiva – CINAU, Marcelo Gabriel, que apresentou aos executivos presentes os desafios da gestão da informação para a transformação estratégicas de seus negócios, principalmente ao considerar que a matéria prima do Aftermarket é a frota e que toda a demanda nasce nas oficinas, cujos reparadores tomam decisões diariamente sobre produtos e marcas. Para Gabriel “o recurso mais precioso do mercado não é mais petróleo, mas dados, e a gestão estratégica pode transformar esses dados em informação para tomada de decisão, insights, conhecimento e, até mesmo, sabedoria. E atualmente estas informações já existem e estão disponíveis para quem queira promover esse alinhamento estratégico”. 

Kevin Ardilla, Diretor da Yandeh, trouxe para os presentes casos reais sobre transformação digital em vários setores da economia brasileira e como as formas de fazer negócios estão se transformando em velocidade exponencial, no mesmo ritmo e volume com que os dados circulam pela Internet. 

Hughes Archambault, sócio da The Bridge Corporate Finance, empresa especializada em fusões e aquisições, trouxe aos participantes um panorama atual sobre os movimentos no Aftermarket automotivo europeu relativos à consolidação de mercado, bem como as tendências de internacionalização dos negócios, com o avanço de empresas dos dois lados do Oceano Atlântico, comprando e vendendo. 

Para falar sobre compliance e seus impactos no mercado de reposição nacional, o advogado Giovani Saavedra dissertou sobre o que é fato e o que é mito em relação às práticas de compliance, com base na legislação brasileira e no direito internacional, salientando que ainda há muito desconhecimento e que algumas decisões que são tomadas como corretas pensando em compliance são exageradas e acabam por prejudicar o bom andamento dos negócios. 

Ao final das apresentações o presidente da Andap, Rodrigo Carneiro, lamentou o falecimento do Dr. Carlos Consonni, presidente da Platinum S.A. que sempre foi uma liderança ativa do setor e exemplo de empreendedorismo. Para Carneiro, a visão de negócios de Consonni inspirou e inspirará muitos dos atuais executivos do setor. 

Na opinião dos presentes, o primeiro Workshop Brasil Aftermarket foi um sucesso ao reunir num ambiente internacional de negócios os principais executivos ligados ao mercado brasileiro para uma discussão em alto nível sobre os desafios atuais e os que estão a alguns passos de ocorrer. Para Carneiro “o primeiro evento foi um grande sucesso e devemos repeti-lo nos próximos eventos internacionais do setor para ampliar o conhecimento dos executivos internacionais sobre o mercado brasileiro e estimular o debate sobre o futuro do setor.” 

GLOBAL RIGHT TO REPAIR MEETING 

Já no dia 13 de setembro outro evento internacional esteve no centro das atenções da Automechanika Frankfurt: o encontro global do Direito à Reparação (numa tradução livre). 

Organizado pela Federação Europeia dos Distribuidores da Reposição Automotiva (FIGIEFA) e pela Autocare.org, entidade norte-americana que congrega os diferentes elos do mercado de reposição, o evento contou com representantes da Austrália, Brasil, Canadá, China, União Européia, África do Sul e Estados Unidos, que apresentaram o cenário atual em cada região sobre o movimento “Right to Repair” (direito à reparação), que busca influenciar os formuladores de políticas públicas sobre a necessidade de acesso universal às informações relativas à manutenção automotiva, dando aos donos de carro o direito de escolha sobre qual prestador de serviço prefere para efetuar a reparação: a concessionária ou a oficina independente. 

Ainda que cada região apresente suas especificidades legais e especificas, a principal questão levantada pelos presentes pode ser sintetizada pela campanha australiana cujo mote principal é: “seu carro, sua escolha” (ou your car, your choice, numa tradução livre). 

Cabe lembrar que o consumidor (neste caso o dono do carro) é soberano em suas decisões e no Brasil já é regra que mais de 80% das manutenções veiculares são realizadas nas oficinas independentes e podemos afirmar que a escolha já foi feita. Cabe agora às montadoras a opção de escolher entre tratar as oficinas como clientes ou como concorrentes. As mais inteligentes já fizeram essa escolha. 

PONTO DE VISTA 

Olivier Legrand* 

Não importa o que aconteça, a Automechanika Frankfurt ainda é vista como o lugar ideal para se fazer negócios no mercado de reposição automotivo e se queremos ter uma visão geral do que está acontecendo nesse setor. 

A feira deste ano, sua 25ª edição, provou mais uma vez que é a única feira verdadeiramente internacional de autopeças existente na Europa atraindo expositores e visitantes de todas as partes do globo. 

Como em muitos outros casos, os fatos falam por si. Não só este evento é de longe o maior da indústria, com seus 315.000 m2, 12 pavilhões que receberam mais de 5.000 expositores, atraindo mais de 130.000 visitantes, mas consegue manter o mesmo nível de interesse elevado, atualizando sempre seu modelo. 

Este ano, além de conferências sobre as tendências do setor, uma seção foi destinada às empresas que atuam no ramo de carros clássicos e colecionáveis e, pela primeira vez, a feira sediou a feira de negócios "Reifen", trazendo a indústria de pneus para junto das autopeças e dos equipamentos. 

A inovação continua a ser um ponto focal não apenas com os prêmios de inovação, mas também com o claro esforço de não colocar apenas os holofotes nas “gigantes multinacionais”, valorizando empresas menores criativas e com conferências e workshops específicos sobre novas tecnologias, como a impressão 3D 

E, como sempre, os expositores empenham grandes esforços para mostrar seus produtos e serviços da melhor forma possível.  

Então é um evento grande, informativo, dinâmico, e como de costume os grandes do setor estão lá por razões de imagem e relacionamento ... eles não descobrem novos clientes (e, como em todas as edições, eles orgulhosamente afirmam que "é a melhor edição de todos os tempos" ... até o próximo, é claro!). Assim, o aspecto de “prospecção” da feira funciona para os recém-chegados ou empresas nacionais que visam o desenvolvimento internacional. 

Mas, se dermos um passo para trás e analisar a feira por um minuto, quais são os artigos genuínos desta edição? 

Em geral, a sensação é de que a feira esteve um pouco menos lotada, e isso pode ser apenas percepção ou que um número estável de visitantes (136.000 em comparação com 133.000 em 2016 e 138.000 em 2014) com mais pavilhões pode levar a uma certa diluição. Claramente alguns corredores estavam desfrutando de um nível satisfatório de tráfego, mas alguns outros estavam, de longe, menos ocupados. 

O efeito das estratégias dos fornecedores torna-se cada vez mais visível, independentemente do que eles afirmam oficialmente. Vemos cada vez mais uma divisão entre os fornecedores: de um lado, o que investiu claramente no futuro, desenvolvendo verdadeiramente novos produtos ou serviços alavancando a tecnologia (realidade aumentada, carros conectados ...) e os outros apenas vendendo “o mesmo pacote de produtos ”. 

É evidente que alguns estão comprometidos no longo prazo ... alguns outros um pouco menos e isso é cada vez mais visível. A boa notícia é que a estratégia para investir e inovar não tem nada a ver com o tamanho da empresa. 

Não há necessidade real de estar lá para saber o que está acontecendo: o evento continua ótimo para se (re)conectar com as pessoas, mas se torna menos relevante quando se trata de descobrir coisas novas. Com o poder das ferramentas de informação de hoje (sem mencionar internet!) você é informado “ao vivo” de novos produtos e serviços. Até mesmo os produtos que receberam os prêmios de inovação já estavam no mercado há meses 

A consolidação do setor está se acelerando. É claro que essa tendência é óbvia para as pessoas ativas nessa indústria, mas é realmente impressionante quando você vê isso “ao vivo”. Um grupo de fornecedores gigantes globais surgiu recentemente após a Tenneco adquirir a Federal-Mogul. 

Será muito interessante ver quem melhor aproveitará sua estratégia no futuro entre empresas de portifólios, oferecendo uma ampla gama de produtos e apostando em sinergias e massa crítica, e as empresas de mono-produtos apostando em um foco melhor em uma única linha, e em especialização. 

Pois bem, tivemos outra edição interessante da Automechanika e um desafio contínuo para a a organizadora (Messe Frankfurt) para manter sua atratividade neste setor justamente num ponto de mudança: 

- Em uma indústria com mudanças aceleradas, promovidas pela fluidez das ferramentas de informações fluidas que mantêm você atualizado diariamente, como permanecer relevante sendo um evento que ocorre a cada dois anos? 

- Em uma indústria em consolidação, que modelos eles precisam desenvolver pensando que terão menos expositores a cada ano? 

- Em uma indústria globalizada (tanto de fornecedores quanto de clientes) como sustentar a atratividade sendo “apenas” europeus?  

* Olivier Legrand é diretor da OL Consulting. Durante dez anos desenvolveu sua carreira na indústria de alimentos (Danone) antes de ingressar na Federal-Mogul e no mercado de reposição em 2006. Na Federal-Mogul ele foi Diretor de Marketing para Europa, Oriente Médio e África (e América do Sul entre 2010 e 2012) e Vice-Presidente de Aftermarket para a Europa, Oriente Médio e África. Desde 2017 Olivier é um consultor independente que trabalha com empresas do Aftermarket automotivo a redesenhar suas estratégias na Europa e auxiliando empresas que estejam buscando aquisições no mercado de reposição europeu. 

Comentários