Oficina é um bom negócio - Fernando Naccari e Paulo Handa

A retífica de motores tem novo papel, muito além do que você pode imaginar

Para encerrarmos com “chave de ouro” esta última edição da editoria “Oficina é um Bom Negócio”, contaremos a história de dois irmãos que viram a oportunidade de amarrar toda a operação de reparação automotiva, desde a manutenção convencional até a parte de retífica de motores

Os irmãos Zautison (à esquerda) e Felipe são os proprietários da rede de retíficas “Base” de Guarulhos-SPA equipe do jornal Oficina Brasil entrevistou os irmãos proprietários da retífica e centros automotivos “Base”, Felipe Santos Mendes de 28 anos de idade e Zautison Salgado Bento Junior de 38 anos. Eles nasceram praticamente dentro da antiga retífica do pai, e ambos cresceram em meio à usinagem dos motores na cidade de Guarulhos, município vizinho à capital paulista.

Com o passar de cerca de dois anos, os filhos viveram um conflito de ideias com o pai e juntos decidiram enfrentar uma empreitada própria. Dessa forma, há mais de cinco anos começaram com a retífica Base, uma empresa que se destaca das demais concorrentes devido à visão de uma oportunidade de negócio destes irmãos, a estrutura baseada em equipamentos de ponta e funcionários altamente capacitados.

Mas por que trabalhar com uma retífica agregada a um centro automotivo? Segundo Junior, isso aconteceu graças ao que eles observaram na rotina de trabalho na retífica do pai. “Inicialmente, nosso foco era somente realizar retíficas nos motores da linha leve e pesada, mas havia muitos clientes que pediam além dos habituais serviços no motor [linha leve], e queriam que efetuássemos trocas de óleo, filtros, correias, serviços em freios etc. De início fazíamos com algumas restrições, mas depois notamos que, atuando nesta área também, poderíamos agregar o histórico de manutenção do veículo, fato este que facilitava nosso trabalho e assegurava uma maior vida útil deste como um todo ao cliente. Desta maneira, vimos a necessidade de montar um centro automotivo para estes serviços e deu muito certo. Atualmente, nós já possuímos dois, ambos em Guarulhos – SP”.

A grande sacada dos irmãos surtiu efeito, pois o maior terror das retíficas é receber um motor de uma oficina para um serviço sem saber o que causou a falha. Assim, após o reparo efetuado e devolvido à oficina de origem, quando este apresenta uma nova falha, acusam a retífica de um serviço mal executado. “Isso nos dava muita dor de cabeça. Às vezes o carro apresentava um problema de superaquecimento, por exemplo, e realizávamos o reparo e devolvíamos o motor à oficina. Depois de algum tempo ele voltava com o mesmo problema cobrando garantia e com o cliente reclamando na nossa porta, mas quando íamos pesquisar a causa da falha, era um pequeno vazamento no radiador que o cliente não notava e rodava com o carro até o motor ‘ferver’. Com nosso centro automotivo (FOTOS 1, 1A e 1B) isso mudou, pois já tratamos direto com o cliente e explicamos o que precisa ou não ser feito para solucionar o problema do veículo”, nos contou Felipe.Foto 1A e Foto 1BNo centro automotivo, os irmãos disponibilizam todos os serviços comuns a este segmento de serviços e a partir dele, abastecem 80% da demanda da retífica. “Ainda atendemos serviços para a retífica vindos de outras oficinas, mas hoje somos mais seletivos e isso só ocorre com oficinas parceiras as quais sabemos da idoneidade, totalizando cerca de 20% dos motores que recebemos para manutenção”.

NOVO MERCADO
Para os irmãos, o cenário atual do setor automotivo está mudando, não deixando mais espaço para aquele que não acompanhar as evoluções. “Os clientes se tornaram cada vez mais exigentes e até mesmo a tecnologia dos motores evoluiu muito. Assim, o reparador/empreendedor deve estar em uma busca constante por aperfeiçoamento, através de novos cursos e maquinário moderno. Se não o fizer, certamente estará parado no tempo, sem a menor chance de conseguir crescer”, comentou Felipe seguido do aceno positivo com a cabeça de ser irmão Junior.

Em muitas retíficas é comum, por exemplo, a utilização de ferramentas simples como um martelo ou uma lixa, mas de acordo com Junior, este tipo de empresa está fadada ao fracasso. “Hoje com os motores cada vez mais sensíveis a um reparo mal executado, qualquer tipo de folga acima do especificado terá um impacto gigantesco para seu funcionamento”.

A retífica no cenário atual deve ser pensada para funcionar como uma máquina perfeita. Mas, para que tudo isso ocorra, devemos considerar sempre que um funcionário preparado tecnicamente também deve estar plenamente feliz com o trabalho que exerce. “Temos que estar cercados de pessoas qualificadas e comprometidas com a empresa (FOTOS 2 e 2A), todos devem possuir grande experiência e alto conhecimento técnico, além de entenderem nossa política e estarem ao nosso lado para enfrentar a rotina. Um diferencial nosso é que oferecemos um salário médio maior do que o exercido no mercado. Isso também permite que tenhamos profissionais satisfeitos”.

Foto 2 e Foto 2AFoto 3 e Foto 3A

Outro ponto importante a ser ressaltado é ter equipamentos novos e de acordo com o serviço que será executado na oficina, como fresadora de sede de cabeçote, retífica de válvulas, brunidora, alinhadora de bielas, broqueadoras, mandriladora, plaina de superfície etc. “Não é possível manter um alto padrão de qualidade sem ter que realizar o investimento necessário (FOTOS 3 e 3A). A precisão da tecnologia dos motores atuais nos pede que sejamos assim”, explicou Felipe.

Saber atrair bons clientes, aqueles que agregam lucro a empresa, é um fator que deve ser sempre trabalhado com cuidado e afinco. “Este é um ponto chave de nosso bom desempenho, pois temos que entender que nem todo tipo de cliente é lucrativo aos olhos da empresa. Aquele serviço em que é solicitado apenas uma plaina do cabeçote ou um brunimento do cilindro do bloco agregam muito mais risco do que lucro em si, afinal não sabemos a real situação do motor do veículo e o que causou o problema. Este voltando a ocorrer, até provarmos que nosso trabalho foi bem feito e que a falha tem origem em outro componente agregado (nos casos de serviços que chegam de outra oficina), é um problema que muitas vezes não vale a pena encarar”, disse Junior.

Assim, quando o serviço vem de ‘dentro de casa’, uma retífica completa ou parcial não é uma questão que preocupe. “Hoje, num apanhado geral, 65% das retíficas que fazemos são de caráter parcial, geralmente em cabeçotes, e as demais são completas. No entanto, quando os serviços são para outras empresas, posso dizer que 75% são de motores completos e, os demais, parciais”, explicou Felipe.

Atuando com este mercado diferenciado, a empresa apresentou um aumentou de 35% nos serviços de retífica quando comparado ao período em que atuava só com este serviço.

PROPAGANDA TAMBÉM VALE
Saber se destacar perante seus concorrentes é algo fundamental para ganhar novos clientes, e para isso, o zelo com o visual da oficina e dos funcionários, além da correta divulgação do trabalho, também são muito importantes, segundo Felipe. “Nossos funcionários estão sempre uniformizados e mantemos o ambiente extremante limpo. Isso passa uma boa primeira impressão a um novo cliente. Outra forma eficaz é a divulgação em diversos canais de acesso, como em nosso site e nas redes sociais. Também adesivamos nossos veículos, permitindo que por onde a gente ande, nosso trabalho seja divulgado (FOTO 4 e 4A)”. 

Foto 4 e Foto 4A

 MOTORES PARCIAIS
No segmento de peças automotivas, cada vez é maior o número de concessionárias que oferecem produtos com preços próximos aos do mercado paralelo. Para isso, algumas montadoras propõem a seus clientes a venda de motores parciais, dando a possibilidade do consumidor comprar a parte que precisa ao invés de realizar uma retífica.

Porém, esse cenário ainda não é preocupante para as oficinas. “Tenho observado que realmente os preços oferecidos pelas concessionárias estão cada vez menores, entretanto ainda há um caminho muito longo para esta tendência influenciar negativamente as empresas do setor independente. Hoje, o custo de um motor parcial é basicamente o dobro de um retificado, e ainda temos a questão dos gastos e burocracia com a  transferência de números de motor no documento, além da “dor de cabeça” para conseguir dar a baixa do motor antigo. O cliente não está disposto a gastar seu tempo e dinheiro neste tipo de coisa, o que interessa a ele é um serviço de qualidade com garantia. E é isso o que buscamos oferecer a eles”, contou Junior.

Mas, para Junior, as concessionárias vendem os componentes que eles consideram como parciais sem muitas peças importantes, dando trabalho ao usuário que tem que correr atrás de tudo. “A maioria [das concessionárias] ao vender o cabeçote, por exemplo, fornece somente a peça sem os tuchos, comando de válvulas, válvulas, etc. Já quando o cliente opta pela retífica, ele tem um ótimo resultado, muitas vezes pela metade do preço e um serviço muito mais rápido”.

Temos ainda no mercado uma dúvida frequente quanto à diferença entre peças paralelas e genuínas. Para motores, isso ainda é mais preocupante, mas segundo Felipe, isso é um mito, pois dependendo da fabricante da peça paralela, não há com o que se preocupar. “Basta pesquisar a procedência e confiar em marcas de renome no mercado”.

Junior nos contou que geralmente a oficina opta por utilizar somente peças genuínas nos motores, mas infelizmente em alguns, como no de carros importados antigos que representam 30% dos serviços da retífica, isso fica mais difícil. “Nestas situações utilizamos peças paralelas, porém analisamos o histórico de falhas da marca [fabricante da peça] antes de montá-las no veículo para evitar que tenhamos retrabalhos e ‘dores de cabeça’ desnecessárias com os clientes. Geralmente quem tem esses carros é porque realmente gosta do carro e o tem como sua paixão. Assim, preferem arcar com os serviços de retífica e continuar com ele do que trocar por um popular mais novo”.

Já no ramo de veículos nacionais, para Felipe, a opção de compra de peças é mais amplo, dando ao reparador a oportunidade de escolha. “Em algumas concessionárias, quando solicitamos uma determinada peça, o próprio vendedor nos dá a opção de compra entre a genuína e a paralela com grande diferença de preço. Devido a isso, entendemos que há peças de diferentes qualidades disponíveis no mercado e devemos avaliar antes qual é a melhor a ser utilizada em cada caso. Porém, não podemos generalizar, pois contradizendo um mito de mercado, há sim algumas marcas paralelas que possuem qualidade semelhante às genuínas e podem ser aplicadas nos veículos com toda a segurança de que estas não apresentarão problemas”.

Uma dúvida que muita gente tem é com relação à garantia dada por uma retífica. Assim, Felipe disse que em sua oficina, esta é ofertada juntamente com a indicação de serviços mecânicos necessários. “Quando pegamos um motor para retificar, eles geralmente são provenientes de um de nossos centros automotivos. Assim, antes de elaborar um orçamento, analisamos o histórico de problemas que o carro apresentava, pois diversos componentes externos ao propulsor têm influencia direta sobre seu desempenho e segurança, como o sistema de injeção, arrefecimento e transmissão. Dessa forma, passamos o orçamento ao cliente, no qual, está descrito não somente o valor da retífica, mas também o preço da reparação de demais componentes agregados. Caso ele não aceite ou queira fazer somente parte do serviço, não damos garantia. Agora, se ele aceitar, fornecemos um prazo de seis meses ou 20 mil quilômetros, o que ocorrer primeiro”.

Mas sabemos que quando um reparo é executado, seja ele de qualquer espécie, o reparador se compromete com o cliente quanto à garantia do serviço executado. Porém, quando alguma peça apresenta alguma falha, a situação se complica. “Quando isso ocorre, optamos por nós mesmos resolver a situação e arcarmos com a troca da peça, pois geralmente é difícil acionar a garantia das fábricas e elas costumam ser muito burocráticas para nos atender, sejam fabricantes de peças genuínas ou de paralelas, o problema é comum a todas”, contou Felipe.

Com essa postura adotada, Junior ainda acrescentou que em mais de cinco anos de fundação da empresa, nunca tiveram nenhum problema com clientes relacionado a ações judiciais.

 

 

 

 

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