Do Fundo do Baú - Anderson Nunes

Passat LSE Iraque, o batismo nas águas da Volkswagen para um novo recomeço comercial

Passat LSE Iraque, o batismo nas águas da Volkswagen para um novo recomeço comercial

Com o mote – “Ar não ferve”, a Volkswagen criou sua fama no alicerce de seu motor traseiro boxer refrigerado a ar: o VW Sedã (nosso Fusca) foi que trouxe essa concepção mecânica e logo estendida aos demais modelos da linha como a Kombi, 1600 ou Typ 3, 411/412 ou Typ4, Karmann Ghia e entre tantos modelos. Contudo esse arranjo mecânico que primava pela robustez e manutenção simples, já na década de 1970, começou a pôr prova a capacidade da Volkswagen em atender ao mercado com um modelo realmente novo e com uma mecânica mais moderna, aliado a isso estava a chegada de novos concorrentes dotados de motores mais eficientes. 

Passat LSE, esse é o nome de batismo, mas no Brasil o apelido Iraque acabou ficando sinônimo de Passat quatro portas
A resposta veio em 1973, quando a empresa de Wolfsburg apresentou o Passat (nome de um vento alísio que sopra na Europa) e que trouxe a decisiva mudança de concepção técnica da marca do “carro do povo”, ao abandonar a clássica configuração de motor traseiro arrefecido a ar em favor do trem de força e da tração dianteira, da refrigeração líquida e dos cilindros em linha. Logo o Passat tornou-se um marco dentro da VW, dando início a uma série de sucesso com a mesma concepção mecânica. O mais emblemático sem dúvidas foi o Golf, lançado em 1974, sendo considerado por muitos como o legítimo sucessor do Fusca. 

Talvez essa mudança de paradigma fosse diferente se a VW não tivesse absorvido, na década de 1960, duas empresas com conceitos bem diferentes das empregadas por ela. Em 1964, ao adquirir a marca Audi e sua fábrica de Ingolstadt, na Bavária, o fabricante de Wolfsburg assumiu também os direitos sobre a Auto Union, antiga associação entre quatro marcas – Audi, DKW, Horch e Wanderer – representado pelo tão conhecido símbolo das quatro argolas entrelaçadas. A DKW havia sido umas das marcas pioneiras no uso da tração dianteira, com o modelo F1 de 1931, e o primeiro modelo da nova era Audi nada mais era do que a evolução do DKW F102, com motor de quatro tempos em vez do clássico dois tempos e, claro, tração à frente.

A união da NSU de Neckarsulm, perto de Stuttart, com a Audi em 1969 foi outro importante passo para a mudança de conceitos dentro da própria Volks. A fábrica NSU tinha um projeto para substituir o revolucionário sedã Ro 80, um três volumes ousado e aerodinâmico equipado com motor rotativo Wankel, que não havia encontrado êxito de vendas. A Volkswagen então encampou o projeto em andamento da NSU e o apresentou como VW K 70, em 1969. O sedã de quatro portas com linhas retas tinha motor dianteiro com arrefecimento líquido, tração também na frente e suspensão independente nas quatro rodas com molas helicoidais. Era um carro moderno, mas não alcançou o sucesso esperado. Era preciso encontrar uma alternativa para a modernização técnica que o mercado exigia da Volkswagen.

NOVOS ARES À VOLKSWAGEN
Diante da não-aceitação ao K70 e baixas vendas dos modelos 411/412 (Typ4) com seu motor refrigerado a ar lançado em 1968, o fabricante do Fusca tinha uma real e urgente necessidade de oferecer em seu portfólio um modelo que atendesse aos anseios de uma clientela mais exigente e que estava em busca de um produto moderno. A solução encontrada estava sob seu próprio guarda-chuva, na Audi, que havia lançado em 1972 um sedã médio de duas portas moderno e de bom desempenho, com desenho do renomado italiano Giorgetto Giugiaro: o Audi 80.

O ótimo banco traseiro com descansa-braço central, característica comum aos modelos iraquianos
As grandes lanternas horizontais eram marcas registrada do Passat, para a linha 1985 elas ganharam pequenos frisos escurecidos
A partir do Audi 80, a VW decidiu criar seu próprio modelo e o projeto foi batizado de EA-400. Em julho de 1973, era apresentado a primeira geração do Passat, conhecida como Typ 32 e pelo código de plataforma B1. O visual criado por Giugiaro era o mesmo do Audi 80 até a coluna central, a parte posterior da carroceria foi modificada para adotar o perfil fastback, com traseira inclinada, em vez do formato de três volumes do modelo 80. O modelo era oferecido em versões de duas ou quatro portas, com tampa do porta-malas menor, ou com a tampa que levava junto o vidro traseiro. Em 1975 era lançada a perua oferecida somente em versão de quatro portas. Algo curioso era fato de ser vendido tanto com faróis retangulares, como com faróis circulares. 

Os quatro faróis retangulares surgiram em 1983 e acompanharam o Passat até o fim de produção em 1988
Com 4,19 metros de comprimento, 1,60 m de largura, 1,36 m de altura, 2,47 m de entre-eixos e peso a partir de 860 kg, o Passat era moderno dentro da categoria e chegava com bons atributos para disputar o segmento dos médios. Além da tração dianteira, adotava conceito moderno de suspensão, como eixo de torção na traseira e raio de rolagem negativo na dianteira. Os motores de quatro cilindros com comandos de válvulas no cabeçote eram os mesmos empregados nos Audis: o de 1,3 litro, com potência de 55 cv, e o de 1,5 litro, com opção de 75 e 85 cv. A transmissão era manual de quatro marchas. 

Embora não fosse preferência nacional, o Passat Iraque mudou o paradigma dos brasileiros por modelos de quatro portas
Para a linha 1976, a Volkswagen trouxe a opção do motor 1,6 litro a fim de melhorar o torque, mas a potência manteve-se nos 85 cv. Ao fim daquele ano já haviam saído da linha de montagem um milhão de Passats. Em 1977 o modelo começou a ser exportado para os Estados Unidos com o nome de Dasher, fazendo frente ao Chevrolet Veja. A imprensa local elogiou o desempenho do carro, apesar dos modestos 75 cv e frisava que era o melhor carro familiar para quem tinha 4 mil dólares.

Em setembro de 1977, a dianteira ganhava novos para-choques de plástico e a opção de faróis retangulares com luzes de direção nos cantos. Uma versão a diesel de 1,5 litro e 50 cv vinha no ano seguinte e, em 1979, aparecia o motor 1,6 com injeção eletrônica e 110 cv, o mesmo do Golf GTI. A primeira geração alcançou a marca de dois milhões unidade produzidas em abril de 1980 e permaneceu em linha até novembro daquele ano. A segunda geração do Passat foi lançada ainda em fins de 1980, com a plataforma B2, nas versões de três e cinco portas, ambas hatchback. No fim de 1981 vinha o sedã Santana (aqui para nós brasileiros lançado em 1984) e a nova Variant, que para o Brasil seria rebatizada de Quantum, lançada no país verde e amarelo em 1985.

ORDEM E PROGRESSO NO BRASIL
O Passat chegou ao Brasil em julho de 1974, alinhado em estilo e mecânica com o seu similar alemão, algo pouco comum naquele tempo. Disponível com duas portas e dois tipos de acabamento — L e LS, este mais luxuoso, tinha carroceria atual e atraente, com as linhas retas  predominantes nos anos 70. O modelo surpreendia pelo espaço interno, embora fosse 13 cm mais curto do que o irmão TL, acomodava cinco passageiros com conforto. Seu painel era simples e funcional, com dois grandes mostradores; o volante tinha dois raios.

Pode parecer o motor AP, mas na verdade trata-se da unidade MD-270 acoplada ao câmbio de quatro marchas, tudo para facilitar o envio de peças de reposição para o Iraque
Entre as diferenças da versão LS para a L estavam bancos revestidos em tecido em vez de plástico, retrovisor interno com posições dia e noite, relógio, lavador elétrico para o para-brisa e rádio, montado diante do passageiro: na área central ficavam os comandos de ventilação. Os cintos de segurança dianteiros já eram de três pontos, mas não havia encostos de cabeça. Os bancos dianteiros com assento mais baixo que o usual, feitos para alemães de 1,90 metro, em pouco tempo foram levantados pela fábrica para ficarem adequados à estatura média dos brasileiros. 

O Adesivo Made in Brazil era motivo de orgulho para a unidade da Volks do Brasil, a maior empresa exportadora do país desde os anos 70
O motor dianteiro longitudinal de quatro cilindros inclinados em linha tinha comando de válvulas no cabeçote e era acionado por correia dentada, arrefecido a líquido com circuito selado. O radiador vinha à esquerda do motor, e não à sua frente, o que exigia ventilador acionado por motor elétrico, outra novidade em carros nacionais. O motor ficava posicionado à frente do eixo dianteiro. Inovação em segurança era o fecho duplo do capô.

Moderno e eficiente, o motor de 1,5 litro de cilindrada desenvolvia potência líquida de 65 cv a 6.100 rpm e torque de 10,3 m.kgf a 3.100 rpm. Alimentação do motor era feita por um carburador de corpo simples Solex H 35. Com peso de 860 kg, o Passat alcançava velocidade máxima de 150 km/h e acelerava de 0 a 100 km/h em 17 segundos, bom desempenho para a categoria, que incluía como concorrentes Ford Corcel (ainda da primeira geração e de 1,4 litro) e Dodge 1800. O câmbio era de quatro marchas, mas no começo não agradou: tinha problemas sérios de seleção de marcha, como o motorista pensar ter engatado a primeira e na realidade ser a marcha à ré. Não raro, isso ocasionava pequenas colisões.

Radiador de cobre de maior capacidade usava uma ventoinha de maior potência 250w contra 180w da usada nos Passat brasileiro, tudo para dar conta do calor escaldante do Iraque
A tração dianteira empregava, também pela primeira vez no Brasil, juntas homocinéticas para estabelecer novo padrão em comportamento de direção. Os freios usavam discos na frente, mas de início não eram assistidos, o que requeria grande esforço para acionamento — o servofreio seria oferecido no ano seguinte ainda como opcional. Nessa área o Passat trazia outra novidade na produção nacional: duplo circuito hidráulico de freios atuando em diagonal. Se um dos circuitos falhasse, os freios de duas rodas diagonalmente opostas (dianteira esquerda e traseira direita, por exemplo) permaneceriam atuando, assegurando 50% da capacidade de frenagem. Outra primazia do Passat: a suspensão dianteira do tipo McPherson adotava raio de rolagem negativo, com seu efeito de autoestabilização em condições críticas. Essa característica explicava as rodas com aspecto diferente do que se estava acostumado, com o disco protuberante em relação ao aro. Os pneus eram radiais 155/80 R 13.

A pequena plaqueta na grade indica que o motor é um 1,6 litro
Para a linha 1975 chegava a versão de quatro portas, uma conveniência não tão apreciada pelos consumidores brasileiros. Ainda nesse ano, o Passat conquista o título de Carro do Ano pela revista Auto Esporte. Outra ampliação da linha vinha no ano seguinte: o Passat de três portas, que mantinha o formato da carroceria, mas levava o vidro traseiro junto da tampa. A opção, interessante por permitir ampla entrada de bagagens e cargas maiores, era beneficiada pelo rebatimento do banco traseiro. 

LUXO PERSA
Embora o consumidor brasileiro não tivesse apreço pelos modelos de quatro portas e isso não foi diferente com Passat nesse configuração, a Volkswagen o manteve em linha para o programa de exportação. Um dos primeiros clientes da Volks brasileira a receber o Passat quatro portas foi a Nigéria em 1977. Na linha 1978, foi lançada a versão a LSE (Luxo Super Executivo). Esse modelo foi durante muitos tempo o carro mais luxuoso da VW do Brasil. O LSE tinha a mesma frente TS com quatro faróis redondos, além do motor 1.6. O interior recebia um melhor acabamento, detalhes como console do TS, apoio de braço central no banco traseiro, vidros verdes e luzes de leitura para os passageiros de trás davam um certo requinte, somava-se a isso a opção do ar-condicionado integrado ao painel, o primeiro desse tipo no Brasil.  

Estepe ainda é original de fábrica, detalhe para o fato de ser diagonal, uma exigência do mercado iraquiano
Rodas de aço aro 13 com tala de 5 polegadas e calotas centrais cromadas
Ainda em 1978 o primeiro lote de Passat é enviado ao Iraque pela de VW. O país saudita começou a importação regular do Passat LSE no ano de 1983, seguindo até o fim da produção do modelo no Brasil, em 1988. Aqui cabe esclarecer que é um engano chamar qualquer Passat 4 portas de “Passat Iraque”. Este codinome surgiu exatamente para estes modelos que de fato eram destinados ao mercado iraquiano, porém devido uma suspensão do envio de alguns lotes ao país saudita eles acabaram sendo vendidos aqui, especificamente nos anos de 1986 e 1987, quando já não havia mais a opção de 4 portas para o Passat no mercado interno.

Práticas maçanetas com desenho bem típico Volkswagen
O tratado de exportação para o Iraque seguia um plano triangular de negócio além de peculiar: a Volkswagen enviava os Passat para o Iraque, que pagava com petróleo. O petróleo era recebido pela Petrobrás no Brasil, que repassava o valor em dinheiro para a Volkswagen. Em meados de 1986, por conta de um excedente de petróleo no Brasil, a Petrobrás solicitou que a Volkswagen suspendesse a negociação por um período. Com diversas unidades do modelo já montadas e também para evitar que uma linha de montagem específica fosse paralisada, a solução da montadora foi obrigar as concessionárias a levarem um determinado número destes Passat na cota destinada a cada uma. De início, a ideia não foi bem aceita pelos revendedores. Porém, logo os consumidores descobriram esta versão bem equipada e houve boas vendas, até mesmo havendo fila de espera em algumas lojas, o que cessou o receio da baixa procura. 

Console central era o mesmo do Passat Pointer, com voltímetro e marcador de temperatura do óleo
As principais diferenças mecânicas do Passat Iraque em relação aos demais Passat da mesma época eram o uso do antigo motor MD-270 e o câmbio de 4 marchas, enquanto a linha 1986 recebia os novos motores AP, além de já contar desde o ano anterior com o câmbio de 5 marchas. A decisão da Volkswagen de manter o conjunto mecânico antigo era a de facilitar o envio de peças de reposição para o Iraque, mantendo por lá os mesmos componentes utilizados desde a linha 1983. Além disso, o motor recebia um radiador de cobre de maior capacidade, usando uma ventoinha de maior potência (250w contra 180w da usada nos Passat para o mercado interno) e protetor de cárter.

Sistema de ventilação por hastes deslizantes, ar-quente, botão giratório e o ar-condicionado de quatro velocidades, luxo pouco comum no Brasil na década de 80
Já no interior, chamava a atenção a cor vinho do estofamento das portas e bancos para a maior parte dos modelos. Apenas o modelo de cor Azul Laguna saía de fábrica com o interior cinza. O carpete era mais espesso, com 10mm, ao contrário do carpete de 6mm usado nos demais modelos. O painel era completo, com conta-giros e econômetro, além do mesmo console utilizado no GTS Pointer. O ar-condicionado era de série. A Volkswagen exportou cerca de 170 mil unidades do Passat LSE para o Iraque e ainda hoje é possível ver o modelo cruzando as ruas diante da câmera de algum noticiário internacional.  

DE PAI PARA FILHO
O contador Antonio Marcos Costa Guimarães, 37 anos, relembra com alegria os passeio no Fusca 1978 que está na família até hoje e foi devido a esse carro que tomou gosto pelo universo do antigomobilismo. O Passat LSE Iraque 1985 que ilustra essa reportagem juntou-se aos familiares em 1989 e foi fazer companhia ao Fusca ano 1978. “Meu pai comprou o Passat Iraque em 1989, eu na época tinha 10 anos, e me lembro dele ao chegar em casa e entrando com o modelo na garagem, para mim que cresci dentro de um fusca, foi amor à primeira vista”, relembra Antonio Marcos.

Estofamento vermelho ficou sendo o cartão de visitas do modelo Iraque, exceto para os modelos na cor Azul Laguna da foto, que possuíam interior cinza
A paixão pelo Passat foi tanta que assim que completou 18 anos e tirou sua carteira de habilitação, o contador passou a digamos “tomar conta” do modelo. Tempos depois conseguiu guardar um dinheiro e o filho fez a proposta de comprar do pai o Passat. “A minha paixão por esse Passat é tanta que eu acabei por cuidar dele todos esses anos. Assim que pude fiz uma oferta de compra para meu pai que aceitou e o vendeu. Hoje o Passat é meu xodó”, explica Guimarães. 

Porta-malas todo revestido com carpete espesso tem capacidade de 362 litros de carga
Um detalhe curioso sobre esse Passat Iraque em específico é fato dele ser ano e modelo 1985, algo pouco comum, já que segundo a literatura de época boa parte dos modelos que ficaram no Brasil são 1986 ou 1987. Segundo o dono essas unidades ano 1985, de acordo com o que ele apurou em fóruns e com ex-funcionários da Volkswagen, são modelos que tiveram um problema no documento de exportação e acabaram ficando como carro de uso dos executivos da empresa. 

Estofamento vermelho ficou sendo o cartão de visitas do modelo Iraque, exceto para os modelos na cor Azul Laguna da foto, que possuíam interior cinza
“Segundo pesquisas que eu fiz, em 1985 um lote de Passats que seguiam ao Iraque deram problemas na documentação de exportação e acabaram ficando no Brasil e sendo usados dentro da VW pelos executivos. Depois de um tempo foram vendidos aos seus colaboradores, e hoje encontram-se poucos modelos iraquianos 1985 rodando pelo Brasil, maioria é 86 ou 87, eu particularmente me orgulho de ter um carro assim, tenho o documento de compra da VW e a NF da fábrica.”, explica sorridente o dono.

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