28 de setembro de 2026

O avanço dos carros elétricos no mercado brasileiro começa a mudar também a rotina das oficinas independentes. Modelos como o BYD Yuan Plus 4x4, equipado com dois motores elétricos e tração integral, trazem uma arquitetura diferente dos veículos convencionais, mas isso não significa que toda a manutenção esteja fora do alcance do reparador. Na avaliação feita durante o quadro “De Rolê com Mecânico”, do YouTube da Oficina Brasil, JP Scopino, sócio da Mecânico Scopino Auto Club, destacou justamente quais intervenções continuam fazendo parte da rotina da oficina e quais exigem capacitação específica.
Um dos pontos levantados durante a avaliação foi a própria motorização elétrica. Segundo Scopino, ainda não existe no mercado brasileiro uma experiência acumulada suficiente para determinar com precisão a vida útil dos motores elétricos em diferentes condições de uso. Isso, porém, não significa que sejam componentes sem manutenção.
“Na parte de motorização, realmente nós não temos nem tanta experiência de carro elétrico no mercado para dizer que esse motor elétrico vai aguentar tantos quilômetros e tanto tempo. Mas existem algumas manutenções que podem ser feitas no motor elétrico, principalmente troca de retentores e, eventualmente, de alguma engrenagem ou componente interno”, explica JP Scopino.
Na prática, um dos serviços mencionados pelo reparador é a substituição do óleo utilizado no conjunto de tração. A arquitetura do motor elétrico possui componentes internos semelhantes, em determinados aspectos, aos encontrados em um diferencial convencional, com engrenagens e elementos que dependem de lubrificação adequada.
Por isso, o reparador que receber um veículo elétrico na oficina não deve considerar o conjunto de tração como um componente que simplesmente não exige manutenção. Vazamentos, condição do fluido e eventuais ruídos ou alterações no funcionamento continuam sendo pontos que precisam fazer parte do diagnóstico.

Outro sistema que merece atenção é o arrefecimento. Em um veículo elétrico, o gerenciamento térmico pode envolver diferentes componentes, incluindo bateria, motores elétricos e conversores. Durante a avaliação do Yuan Plus, foi possível observar parte desse sistema, incluindo o controle térmico associado ao motor traseiro e ao conversor de corrente.
Scopino ressalta que o fluido utilizado não deve ser tratado como um item universal. Dependendo do veículo e do sistema envolvido, podem existir especificações próprias para o líquido de arrefecimento.
“O fluido de arrefecimento também é algo para se atentar, porque algumas marcas usam fluidos específicos quando se trata de arrefecimento de bateria ou de motores”, afirma.
A recomendação é consultar a informação técnica específica antes de realizar a substituição. O fato de o procedimento ser conhecido em veículos convencionais não significa que a aplicação possa ser repetida automaticamente em um híbrido ou elétrico.

Apesar da presença de alta tensão e dos sistemas eletrônicos, nem todos os serviços realizados em um elétrico exigem procedimentos completamente diferentes dos encontrados em um veículo a combustão.
No Yuan Plus avaliado, a suspensão utiliza conjunto multilink na dianteira e na traseira, e o sistema de amortecimento e molas segue uma arquitetura que pode ser analisada pelo reparador dentro dos procedimentos tradicionais de diagnóstico de suspensão.
Freios, por sua vez, também permanecem entre os componentes que podem fazer parte da manutenção convencional da oficina, respeitando as particularidades do veículo.
“Primeiro, realmente a troca de óleo dos motores. Isso você faz lá tranquilo. A parte de suspensão e freio, tranquilo. Não muda absolutamente nada de qualquer outro automóvel”, comenta Scopino.
A ressalva está no fato de que cada modelo precisa ser estudado individualmente. A presença de sistemas elétricos e eletrônicos pode modificar procedimentos que, em um veículo convencional, seriam considerados simples.

Um dos pontos mais importantes para o reparador que pretende trabalhar com veículos híbridos e elétricos é entender o procedimento de desenergização. Para Scopino, não é necessário transformar essa etapa em algo mais complexo do que ela realmente é, desde que o procedimento correto seja seguido e o profissional tenha a capacitação necessária.
No caso abordado na avaliação, o procedimento envolve o desligamento da bateria de 12 V. Segundo o reparador, a retirada do fusível destinado a essa função interrompe a alimentação de baixa tensão e faz com que o sistema de alta tensão seja desligado por meio do dispositivo interno da bateria.
“Procedimento padrão: desligar a bateria de 12 V, aguardar ali entre 40 e 50 minutos e pode trabalhar normalmente no carro, em qualquer âmbito que não envolva a alta tensão”, orienta. Esse ponto, entretanto, não deve ser interpretado como uma autorização para realizar qualquer intervenção sem treinamento. A própria avaliação reforça que a oficina e o profissional precisam conhecer os procedimentos específicos para cada veículo e atender às normas relacionadas ao trabalho com alta tensão.

Para Scopino, um dos principais desafios para as oficinas será justamente acompanhar a evolução dos veículos híbridos e elétricos. A capacitação deixa de ser um diferencial e passa a fazer parte da preparação necessária para atender essa frota.
“Quem não estiver preparado para atender esses carros, com certeza vai sofrer. A tendência é aumentar cada vez mais a frota de híbridos e elétricos”, afirma.
O reparador também chama atenção para a necessidade de buscar informação técnica antes de executar determinados serviços. Mesmo operações conhecidas, como a troca do líquido de arrefecimento, podem apresentar particularidades dependendo do modelo.
“É sempre crucial estar atualizado em questão de informação técnica dos carros, porque às vezes uma coisa que sempre foi comum para nós fazer no carro, por exemplo uma simples troca de arrefecimento, tem carros que têm seus detalhes, suas nuances, que é preciso sempre estar atento”, explica.

Outro ponto observado durante a conversa foi a presença ainda relativamente pequena dos carros chineses mais recentes nas oficinas independentes. Segundo Scopino, boa parte desses veículos ainda está dentro do período de garantia, o que reduz a quantidade de manutenções realizadas fora das redes autorizadas.
Na Mecânico Scopino Auto Club, a experiência com híbridos e elétricos já inclui modelos que estão há mais tempo no mercado, como veículos Volvo e Toyota Prius. Entre os modelos chineses, os atendimentos mencionados ainda foram pontuais e relacionados principalmente a colisões.
Um exemplo citado foi a substituição do radiador de um Dolphin Mini. O reparo, segundo Scopino, teve execução semelhante à de um veículo convencional. A diferença esteve na necessidade de buscar o fluido de arrefecimento específico utilizado pelo modelo.
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