Meu carro, minha vida - José Tenório da Silva Junior

Responsabilidade e ética se igualam entre Médicos que salvam vidas e Reparadores que as preservam

A elevação do Reparador a patamares mais altos torna o cumprimento de normas uma questão de “sobrevivência”. Veja nesta edição a semelhança entre a ética médica e o código de ética para Reparação automotiva

Ser um profissional qualificado, ter conhecimentos técnicos, dons, talentos e habilidades é necessário a qualquer pessoa que almeja uma carreira de sucesso.

No mesmo sentido, é importante ter facilidade para se relacionar com os colegas, saber trabalhar em equipe, ter boa comunicação e flexibilidade, porque estas são características que as organizações buscam e valorizam num profissional.

Porém, para conquistar a credibilidade profissional é necessário muito mais que isso, é preciso assumir uma postura ética seguindo padrões e valores, tanto da sociedade quanto da própria empresa.

MAS, O QUE É ÉTICA?

Ética é uma palavra de origem grega (éthos), que significa “propriedade do caráter”.

Ser ético é agir dentro dos padrões convencionais, é proceder bem, é não prejudicar o próximo. Ser ético é cumprir os valores estabelecidos pela sociedade em que se vive.

O indivíduo que tem ética profissional cumpre com todas as atividades de sua profissão, seguindo os princípios determinados pela sociedade e pelo seu grupo de trabalho.

Código de Ética Profissional - O Código de Ética Profissional é o conjunto de normas éticas, que devem ser seguidas pelos profissionais no exercício de seu trabalho.

Este código é elaborado pelos Conselhos, que representam e fiscalizam o exercício da profissão.

Por definição, ética é o conjunto de princípios e valores morais que conduzem o comportamento humano dentro da sociedade.
As organizações seguem os padrões éticos sociais, aplicando-os em suas regras internas para obter o bom andamento dos processos de trabalho, alcance de metas e objetivos. A ética profissional parte de princípios da conduta humana que determina diretrizes para o exercício de uma profissão.

O código de ética é aplicado em todas as profissões (ou pelo menos deveria), o que permite ao estado controlar e exigir que todos atuem submetidos a um mecanismo que impõe valores morais sujeitos à fiscalização. Dentro deste código encontram-se regras e normas de conduta que determinam direitos e deveres que os profissionais são obrigados a respeitar.

O código de ética médica, por exemplo, em seu texto descreve:
“O presente código contém as normas éticas que devem ser seguidas pelos médicos no exercício da profissão, independentemente da função ou cargo que ocupem”.

A fiscalização do cumprimento das normas estabelecidas neste código é atribuição dos Conselhos de Medicina, das Comissões de Ética, das autoridades de saúde e dos médicos em geral.

“Os infratores do presente Código sujeitar-se-ão às penas disciplinares previstas em lei.”

Na medicina e na reparação automotiva os deveres no desempenho da função e a responsabilidade merecem destaque, pois o trabalho de ambos está diretamente relacionado à vida, ou seja, qualquer erro pode acarretar em graves problemas para todos os envolvidos, incluindo os próprios profissionais.

Considerando esse relevante fato, abordarei nesta matéria, aspectos relacionados às questões éticas e de responsabilidade profissional que esses dois “mundos” têm em comum, apesar de serem diferentes.

A ética médica avalia os aspectos éticos considerando as ações praticadas por esses profissionais no que tange à prática da medicina. Esse conceito aplica-se desde a utilização de animais em laboratório até a forma como tratam os colegas e pacientes.

Na reparação automotiva a ética não é menos importante, ela visa a uma padronização das práticas que devem ser adotados pelos Reparadores, que de certa forma, também trabalham com foco na vida e no bem-estar das pessoas. O código de ética adotado pelas empresas não tem necessariamente um modelo único, podendo ser adaptado de acordo com a atividade, cultura e política organizacional da empresa. No entanto, independentemente de qualquer coisa, fator ou circunstância, é seguro dizer que, com a aplicação do código de ética todas irão convergir para resultados comuns, tais como: reconhecimento, respeito, credibilidade, confiabilidade, excelência na qualidade, ambiente de trabalho favorável e produtivo, entre outros.

No segmento automotivo, uma parte do trabalho do Reparador muitas vezes fica fora do alcance dos olhos e não se limita à execução do serviço propriamente dito, ele se estende à transmissão da informação e orientação sobre a importância da correta manutenção, bem como dos cuidados pós-reparos e também sobre a necessidade da manutenção preventiva.Por uma questão cultural os serviços automotivos não são notados com a devida importância tanto pelos clientes quanto (pasmem), por grande parte dos próprios Reparadores automotivos.

Permitam-me ilustrar essa afirmação citando um caso que aconteceu com um cliente:
Certa vez, enquanto Carlos (nome fictício) estava parado em um semáforo, comprou de um vendedor ambulante um par de palhetas do limpador de para-brisa e permitiu que o próprio vendedor fizesse a substituição. Um tempo depois, quando trafegava na estrada, se deparou com uma “cortina” de chuva muito forte - daquelas que parecem estar apenas naquele lugar - rapidamente ligou o limpador na segunda velocidade e, para a sua infelicidade a palheta do lado esquerdo saiu “voando”. Sua reação imediata foi frear e jogar o carro para o acostamento, naquele lugar havia um carro parado pelo mesmo motivo, falta de visibilidade, a colisão foi inevitável, Ele bateu com tudo na traseira do carro. Por motivo de forças maiores (acredito eu), ninguém se feriu gravemente, mas o carro de Carlos deu PT (perda total).

Dentro da oficina, diariamente executamos serviços com baixo grau de complexidade e alto grau de responsabilidade, assim, por mais simples que possa ser ou parecer, o serviço deve ser executado seguindo o código de ética com extrema responsabilidade, isso deve ser seguido à risca pelos profissionais e compreendido pelos tomadores de serviços, também conhecidos como “clientes”.

Diante desse lamentável fato, configurando a analogia proposta pelo tema, trago à tona alguns tópicos do código de ética aplicados e seguidos pelos profissionais da área da saúde para dar uma ideia dos direitos e deveres desses brilhantes profissionais.

Em 23 de abril de 2010, entrou em vigor o novo código de ética médica, no qual foram incluídas as questões que abrangem a reprodução assistida e a manipulação genética, além da proibição do uso de letra ilegível em laudos e receitas.

As mudanças abrangem os médicos que mantém contato direto com pacientes e os que realizam estudos e pesquisas em laboratório. Elas são apenas adaptações de problemas discutidos em congressos e visam a melhorar a relação médico/paciente e sociedade por um trabalho mais responsável na saúde.

Dentre os 14 capítulos que compõem o código de ética médica, destaco de forma resumida, alguns parágrafos:

• Destaca-se a função do médico de zelar pela saúde do ser humano sem discriminação, pela honra e prestígio da profissão;

• Explicita o dever que todo médico tem de aprimorar continuamente seus estudos e de usá-los para o bem comum e progresso da medicina;

• O médico tem total responsabilidade sobre seus atos profissionais, por isso deve dispor de suas decisões com prudência e responsabilidade;

• Não ser discriminado por nenhum motivo;

• Indicar ao paciente o tratamento adequado de acordo com as práticas reconhecidas cientificamente;

• O médico agora é obrigado a escrever receitas e laudos em letra legível e com a devida identificação de seu número de registro. É obrigação dele, também, alertar o paciente sobre as condições de trabalho que afetam sua saúde, para que os empregadores responsáveis sejam devidamente comunicados;

• Explicita o dever de cuidar da saúde respeitando os direitos que todo cidadão tem de ser respeitado e não ser discriminado por nenhum motivo;

• O paciente tem o direito de ser informado sempre sobre o diagnóstico, prognóstico e seus possíveis riscos;

• Não pode ser contra a categoria médica para obter vantagens, nem encobrir erro ou atitude antiética de outro médico.

Observando atentamente esses tópicos, percebe-se que o código de ética médica é basicamente sustentado por quatro pilares: respeito, responsabilidade, direitos e deveres. Não por acaso, esses pilares são os mesmos que norteiam o CÓDIGO DE CONDUTA ÉTICA DA REPARAÇÃO AUTOMOTIVA. Veja abaixo alguns itens do referido código, segundo a Abraesa (Associação Brasileira da Indústria e Comércio).

• Executar serviços de reparação e restauração, sempre com alta qualidade, e a um preço justo.

• Utilizar apenas peças de alta qualidade, e distribuídas por empresas de reconhecida reputação.

• Fornecer sempre orçamentos detalhados, incluindo peças e serviços a preços justos, identificando claramente quaisquer partes a ser substituída ou reconstruída.

• Atender todos os clientes de forma cordial, com um sentimento de obrigação pessoal a cada cliente.

• Sempre recomendar serviços de manutenção preventiva e corretiva, quando constatados, informando, de que estes serviços são necessários, para corrigir os problemas existentes ou falhas.

• Oferecer ao cliente quando solicitado uma estimativa do valor de reparos a ser feito.

• Fornecer ao cliente todas as garantias de mão de obra e peças por escrito, conforme determina o CDC.

• Obter sempre autorização prévia por escrito do cliente para todos os serviços a serem realizados, inclusive, os orçamentos que foram reavaliados por seguradoras.

• Informar ao cliente qualquer alteração de prazo na entrega do veículo.

• Manter toda a documentação dos serviços prestados aos clientes, ao menos por um período de um ano.

• Não aceitar nenhuma imposição ilegal, tais como: aceitação e aplicação de peças não originais, sem a expressa autorização do consumidor, a ilegal imposição do fornecimento de peças pelas seguradoras (Venda Casada).

Trocando tudo isso em miúdos e pegando o exemplo do caso citado anteriormente, no qual uma falha na manutenção ocasionou um acidente grave, podemos pontuar três erros:

1 – A peça instalada não era de marca original ou reconhecida pelo mercado de reposição;

2 – A mão de obra é duvidosa;

3 – O cliente poderia ter evitado o acidente se tivesse procurado o serviço em uma oficina qualificada que certamente iria instalar de forma consciente uma peça de primeira linha.

Para evitar que esse tipo de problema ocorra dentro da oficina, o Reparador automotivo deve se atentar à aplicação da ética Universal, que diz respeito aos valores morais e ao código de ética específico da categoria.

Na pior das hipóteses, caso não haja um código de ética bem definido, o profissional deve seguir alguns princípios básicos que se enquadram em todas as áreas de atuação.

Abaixo, alguns exemplos de atitudes corretas no trabalho.

RESPONSABILIDADE - O profissional deve manter uma postura que corresponda ao seu trabalho e para preservar a marca ou o produto, o profissional deve guardar para si os dados que lhe foram confiados, garantindo o sigilo que aquele ofício exige.
Manter a transparência nos serviços executados, desde a ordem de serviço;

INTEGRIDADE - Ser honesto com o gestor e demais colegas de trabalho, influenciando positivamente com o seu trabalho, seja de forma direta e indireta.

RECONHECIMENTO - Utilizar a Meritocracia para promover os funcionários que fazem por merecer. Lembre-se: a sua confiança é o bem mais precioso que um colaborador pode ter.

HUMILDADE - Reconhecer as falhas, corrigi-las e aprender com o erro, afinal a empresa é feita por pessoas e as pessoas são suscetíveis a erros, independentemente do nível hierárquico.

COMPROMETIMENTO – 1. Desenvolvimento profissional contínuo e foco para alcançar as metas e objetivos da organização; 2. Ser comprometido com os colegas de trabalho, com os líderes e com os clientes.

Essa analogia entre a ética médica e o código de ética da Reparação automotiva passa a fazer muito sentido quando observamos que ambos trabalham para preservar a vida de seres humanos. Essa afirmação parece evidente ao considerarmos a atuação de um médico, mas, será que todos percebem a semelhança com a profissão do Reparador automotivo? Por via das dúvidas, vamos lá!

Ex.: Vamos imaginar que um veículo foi levado à oficina para fazer uma revisão. A revisão foi realizada, todas as peças que estavam visivelmente avariadas foram substituídas, porém, o Reparador não trocou o fluido de freio que estava velho. Obs.: (carros com mais de dois anos de uso já devem trocar o fluido de freio).

Acreditando que o carro está em perfeitas condições de uso o cliente coloca toda a família no carro e viaja para a praia ou qualquer outro lugar que tenha uma serra para descer. Numa condição de serra, se o motorista utilizar o freio de forma errada, a temperatura no sistema de freio fará o fluido de freio (contaminado com água da atmosfera) ferver dentro das tubulações gerando bolhas de ar e, consequentemente a perda total do freio. O pedal desce até o final sem pressão! Já imaginou o que poderá acontecer?

Se acontecer um acidente por esse motivo, adivinha quem será responsabilizado? Evidente que será o Reparador desavisado!

E se houver vítima fatal o mesmo poderá responder por homicídio culposo – quando não há a intenção de matar.

Nota: Fluido de freio contaminado com água tem seu ponto de ebulição reduzido pela metade, ferve com aproximadamente 150ºC ou menos, depende da quantidade de água que ele absorveu ao longo do tempo.

FIQUE POR DENTRO:
O fluido de freio é higroscópico, isso justifica a absorção de água contida na atmosfera.

A maioria dos carros que frequentam nossas oficinas utilizam fluidos de freio do tipo Dot 3 ou Dot 4.
Ponto de ebulição fluido puroPonto de ebulição fluido contaminado com águaDot 3205 °C140 °CDot 4230 °C155 °CDot 5*260 °C180 °C*Base siliconeDot 5.1270° C190 °C

MORAL DA HISTÓRIA
Ao executar um reparo no sistema de freio de um carro, o Reparador tem a responsabilidade de diagnosticar com precisão os problemas existentes; executar os reparos necessários para corrigi-los, utilizando-se da mão de obra qualificada e peças originais. Além disso, o Reparador deve orientar verbalmente e por escrito a necessidade e a importância de reparar quaisquer problemas iminentes relacionados ao mesmo sistema, constatados na inspeção, deixando claro o risco de acidente. Isso é um trabalho responsável e ético!

Tem uma frase que costumo dizer em uma das minhas palestras que se adequa perfeitamente neste contexto:

“Ser ético é fazer o que precisa ser feito da forma como se deve fazer”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Num passado não tão distante, em que a dificuldade de acesso à informação fazia com que as pessoas ficassem alienadas das questões legais que envolvem direitos e deveres dos profissionais em geral, o código de ética muitas vezes ficava em segundo plano. Hoje, porém, com a informação ao alcance de todos, qualquer erro de conduta e/ou de execução será facilmente percebido, podendo comprometer seriamente a carreira do profissional, independentemente da área de atuação.

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