Em breve, na sua oficina - Antônio Edson

Ka Trail 1.0 3 cilindros concilia reparabilidade simples com um desempenho acima da média

Versão aventureira do modelo de entrada da Ford apresenta aos reparadores o mesmo motor Ti-VCT da versão SEL, manutenção fácil e disposição para enfrentar a buraqueira das ruas e estradas brasileiras

Impossível encontrar um motorista brasileiro sem uma experiência desagradável ou trágica para narrar sobre um buraco, valeta ou quebra-molas. Afinal, não bastassem os muitos acidentes causados pela má conservação das ruas e estradas brasileiras, os motoristas ainda arcam com os reparos na suspensão, molas, amortecedores, rodas e pneus de seus veículos. No final, o prejuízo pesa na conta da logística de um País onde praticamente não existe malha ferroviária e quase todo o transporte de passageiros e cargas é feito sobre pneus. Só entre 2013 e 2014, esse “custo Brasil” consumiu 12,7% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional em despesas de transporte, 5% a mais do que gastam os Estados Unidos. E enquanto isso a indústria automobilística instalada por aqui tenta, mas nem sempre consegue, produzir alguns veículos de passeio que resistam um pouco mais às condições das nossas pistas. Entre eles estão os chamados “aventureiros urbanos”. Não exatamente off-roads ou com tração 4x4, eles contam com um preparo mínimo para deixá-los um pouco mais resilientes ao relevo acidentado das ruas.

A moda desses aventureiros urbanos começou em 1999 com o Palio Adventure da Fiat e persiste até hoje. A mais recente investida das montadoras no segmento foi o Ka Trail 1.0 3 cilindros, lançado em março. O objetivo da Ford com esse lançamento é manter e, se possível, aumentar as vendas do modelo que, em 2016, segundo a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), ficou em um honroso terceiro lugar no ranking global dos mais vendidos com 76.616 unidades, e liderou entre os veículos de entrada. Essa nova versão do Ka produzida pela montadora do oval azul não se contentou em repetir a receita já utilizada na versão Trail do Fiesta da geração anterior, que pouco trazia realmente de novo, mas mostra ousadia com uma suspensão mais elevada, molas e amortecedores dianteiros e traseiros reforçadas, barra estabilizadora maior e um eixo traseiro mais rígido.

Disposta a testar até que ponto esse novo Ka Trail está, de fato, preparado para enfrentar as pistas de uma grande cidade brasileira, a reportagem do jornal Oficina Brasil assumiu seu volante e o levou a três oficinas escolhidas Foto 1aleatoriamente entre as muitas que compõem o Guia de Oficinas Brasil. E por uma dessas coincidências que só o destino explica, os reparadores visitados se declararam admiradores confessos da marca Ford. Longe de comprometer o resultado, a preferência acabou resultando em análises mais criteriosas e mesmo críticas, o que, certamente, contribuirá para uma melhor visão dos leitores. Enfim, os reparadores que analisaram o Ford Ka Trail 1.0 3 cilindros foram...

Cláudio Marinho Guedes, 58 anos (foto 1). Administrador de empresas formado, Cláudio trabalhou durante 14 anos na área de Marketing de uma multinacional alemã do setor de automação, mas em 1990 teve a oportunidade de gerir o próprio negócio e não o perdeu: adquiriu, já montado, o Centro Automotivo Autotoki, instalado na Vila Mascote, zona sul de São Paulo (SP). O administrador logo tratou de ampliar sua capacitação e fez uma série de cursos relacionados à manutenção automotiva. Hoje também é técnico em mecânica e com sua equipe de seis colaboradores dá conta de um giro mensal de 90 veículos por mês em sua oficina. “Estamos voltados à revisão da linha leve em geral, mas pretendemos nos especializar em transmissão automática com objetivo de aumentarmos o valor médio de nosso ticket. Já promovemos cursos sobre os câmbios AL4 e DSG para o nosso pessoal e outros virão. Tão importante quanto investir em equipamento é investir na formação dos seres humanos”, aponta o empreendedor. Foto 2

Ricardo Marques, 52 anos; José Milton, 48 anos e Fernando Almeida, 27 anos (foto 2). À frente da Auto Mecânica Firecar, estabelecida há 28 anos na zona norte paulistana, o empresário e técnico em mecânica industrial e automobilística Ricardo é também o reparador preferido entre alguns antigomobilistas paulistas. O que é um motivo de orgulho para ele. “Colecionadores não confiam suas joias a qualquer um”, explica o reparador, também dono de dois clássicos: um Escort XR3 1992 conversível e um Mustang 1995. Com 38 anos de profissão, Ricardo começou realizando pequenos reparos nos veículos da família e vê sua história ser repetida pelo filho Fernando, de 27 anos, que desde os 13 trabalha na oficina sem descuidar do estudo. O rapaz é graduado em mecânica pelo Senai. Ricardo tem ainda no reparador José Milton, que está com ele há 18 anos, seu principal auxiliar. “Somos procurados por colecionadores, mas trabalhamos com todos os tipos de carros”, ressalta ele. A Firecar tem um giro aproximado de 90 veículos por mês. Na foto 2, Ricardo aparFoto 3ece à frente, Fernando à esquerda e Milton a direita.

Luiz Paulo Vieira da Silva, 68 anos (foto 3). O empresário e engenheiro mecânico Luiz Paulo é proprietário da Lunar Car Service, localizada no bairro do Butantã, zona oeste paulistana, desde 1975. Há 42 anos no mesmo ponto e com 55 anos de experiência na profissão, Luiz passou por vários cursos de especialização oferecidos pelas montadoras e viu o mercado da reparação atravessar diferentes fases. “O negócio da reparação tem mudado muito e precisamos acompanhá-lo se quisermos sobreviver. Hoje o ramo está muito competitivo e os clientes procuram aquela oficina que oferece preços e condições mais atraentes. Os clientes pessoas jurídicas mesmo, com suas frotas, não podem ficar com um carro parado por mais de um dia. Portanto é preciso trabalhar rápido, com qualidade e oferecer ao cliente uma prestação de contas transparente”, argumenta o veterano reparador. Sua oficina, com seis colaboradores, tem 60% da clientela composta de frotistas e 40% formada por pessoas físicas.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Diferente da maioria dos aventureiros urbanos com apelo visual off-road, o novo Ford Ka Trail 1.0 3 cilindros não abusa, externamente, dos penduricalhos de plástico. O carro se destaca discretamente pelas rodas de 15 polegadas na cor cinza e pneus de uso misto com maior diâmetro (foto 4), pela suspensão três centímetros mais alta, barras no teto (foto 5), apliques prata nos para-choques, nova moldura dos faróis de neblina, máscara negra nos faróis, molduras de caixas de rodas texturizadas na cor preta e faixas laterais e na tampa traseira com a palavra Trail (foto 6).

O resultado desse ligeiro tapa no visual, em especial do acréscimo de altura e das barras de teto, foi um hatch compacto com uma aparência mais robusta, mas não exagerada. “No conjunto, o aspecto é o de um veículo clean e jovem”, repara Cláudio Marinho Guedes, do Centro Automotivo Autotoki, para quem a Ford pegou leve na maquiagem do carrinho. “Ficou jeitoso e agradável ao olhar, diferente de outros carros de aparência off-road que excedem nos apliques de plástico e acabam exagerando, caindo no mau gosto”, complementa.

O interior é funcional e simples. Os bancos têm couro misturado ao tecido, mas o Ka Trail fica devendo ajustes elétricos dos retrovisores e de altura do banco do motorista, de ajuste de profundidade do volante – só regula a altura –, vidros elétricos nas janelas traseiras e, principalmente, um computador de bordo que vá além de medir distâncias percorridas e o consumo. “O painel oferece uma leitura com as informações essenciais (foto 7). O plástico rígido do painel (foto 8) é compatível com a proposta do veículo que, afinal, é de entrada”, aponta Cláudio. De fato, o interior não tem nenhuma parte texturizada ou emborrachada visFoto 10ível, mas ao centro do painel (foto 9) uma moldura cromada dá a ele um toque refinado. “Ainda que simples, o design no painel é moderno e passa uma ideia de arrojo”, completa Ricardo Marques, da Auto Mecânica Firecar.

 

Arrojo e, também, robustez. “Como trabalho com algumas frotas que utilizam o Ford Ka 1.0 3 cilindros posso afirmar que o material utilizado no interior desse veículo, incluindo o volante, a tapeçaria e o painel das portas, não tem apresentado problemas de desencaixe de peças, ruídos nem soltura de botões. Até agora, as ordens de serviço das locadoras que tenho recebido não acusam esses problemas. E olhe que são veículos de trabalho!”, testemunha Luiz Paulo, da Lunar Car Service. Outro detalhe do interior do veículo que facilita a vida do condutor e dos passageiros são os diversos porta-objetos para acomodar garrafas, moedas e celulares. No banco traseiro há o bem-vindo sistema de Isofix (foto 10) de fixação que permite prender as cadeirinhas de bebê no chassi do veículo.

AO VOLANTE

O Ford Ka Trail 1.0 3 cilindros começou a mostrar suas credenciais quando os reparadores assumiram seu volante. O compacto repetiu pelas ruas das zonas norte, oeste e sul da cidade de São Paulo (SP) a acertada receita de sua versão SEL, ou seja, a de ser o 1.0 aspirado mais potente já produzido no País – ainda que as modificações para um modelo Trail tenham lhe engordado 21 quilos: 1.047 quilos contra 1.026 do SEL. No test drive dos reparadores coube uma menção honrosa para a vedação acústica do motor e o quase imperceptível nível de ruído interno na cabine. A famosa vibração, marca registrada dos motores tricilíndricos, sequer chegou a ser percebida nas baixas rotações e principalmente em superfícies planas, onde até foi possível conduzir o veículo em baixas rotações.

Logo de início, o reparador Ricardo Marques, da Firecar, elogiou o sistema de partida. “Ela se dá acionando o pedal da embreagem. Esse interruptor na embreagem é um item de segurança importante que, finalmente, começa a chegar aos modelos de entrada. Evita de ligar o carro engatado e provocar algum acidente”, comenta. “Quanto à vibração característica dos três cilindros é preciso certo esforço para perceber alguma coisa. Parece mesmo um motor de cilindrada maior. Para não dizer que ele é perfeito só notei uma ligeira perda de potência ao ligar o ar-condicionado que, aliás, gela muito. De resto, o carrinho mostra valentia, tem um comportamento nervoso e uma fácil dirigibilidade”, arremata.

“Eu me encaixei facilmente ao banco e ao volante, por isso destaco a ergonomia que melhorou ainda mais com essa suspensão três centímetros mais alta. Com 20 centímetros total de altura do solo, a visibilidade ficou melhor e isso transmite segurança ao condutor. A direção de assistência elétrica, claro, também ajuda, sem falar que o painel tem informações de fácil leitura”, descreveu Luiz Paulo, da Lunar Car. Já Cláudio Marinho, da Autotoki, não sentiu o mesmo. “O banco sem regulagem de altura prejudica um pouco quando a gente veste o veículo. Não deu, por exemplo, para enxergar a ponta do capô”, relata. “Fora isso”, diz ele, “a Ford fez um bom ajuste na relação motor e câmbio porque mesmo em baixa rotação o condutor consegue retomar a velocidade. Para um motor 1.0 de 3 cilindros isso é notável. Quanto à famosa vibração dos motores tricilíndricos nesse carro ela é mais percebida pelo som do motor do que pela vibração propriamente dita”, explica o reparador.

MOTOR Ti-VCT

O segredo do tricilíndrico 1.0 aspirado mais potente do País está sob seu capô. É o motor Ti-VCT (foto 11), sigla para Twin Variable Camshaft Time e que alude ao seu duplo comando de válvulas variável (foto 12) em tempo de abertura. Ele traz correia dentada banhada em óleo e com vida útil compatível com a do propulsor além de balancins roletados, tuchos hidráulicos, uma bobina para cada cilindro, vela posicionada no centro da câmara de combustão e bomba de óleo variável em dois estágios (um para baixa rotação e outro para alta, para minimizar a perda de energia). Há ainda um sistema de arrefecimento de duas fases que passou por aperfeiçoamentos para diminuir as vibrações. O coletor de escape agora é integrado ao cabeçote. Segundo a Ford, o Ti-VCT é uma evolução do EcoBoost 1.0 e o melhor de sua classe em potência, “Não há nesse motor diferenças relevantes em relação ao utilizado na versão SEL do Ford Ka 10 3 cilindros. Trata-se, a rigor, de um motor compacto bem típico das configurações 1.0 de 3 cilindros e com tudo à mostra e de fácil acessibilidade. Há, também, muitas partes em alumínio como o bloco e o cabeçote, que ajudam a dissipar o calor, tornam o motor mais leve a economizam combustível. Temos acesso facilitado às bobinas e aos bicos (foto 13), à flauta e às duas sondas lambda (fotos 14 e 15). Não vejo a necessidade de desmontar nenhuma carenagem para ter maior acesso ao motor. Em resumo é um bom motor para trabalhar, pois dá pouco tempo de oficina. Com ele, o reparador ganha em um maior giro”, argumenta Cláudio Marinho, da Autotoki.

Ricardo Marques, da Firecar, concorda que o Ford Ka tem uma manutenção tranquila e uma boa reparabilidade. “Sim, na outra versão desse carro e que conserva basicamente o mesmo motor eu já tive que fazer a limpeza do sistema de injeção, trocar o sensor de fase, correia dentada, velas, filtros e bobinas e não encontrei maiores dificuldades. O cofre oferece um espaço mais do que razoável para o trabalho do reparador” admite Ricardo, que chama a atenção para a robustez do bem dimensionado coxim hidráulico (foto 16) do motor. “Ele é uma garantia de que a vibração do motor será pouco sentida dentro da cabine”, afirma. Tudo isso, no entanto, não significa que o profissional fique isento de trabalhos extras. “Devido ao excesso de componente e à própria engenharia do motor, a remoção do cabeçote não é das mais fáceis. É preciso soltar a capa frontal da correia de comando e, talvez, algumas outras peças”, pontua o reparador.

 

Foto 16

Mais do que concordar com os colegas, Luiz Paulo, da Luna Car, parabeniza a Ford pelo lançamento da Ka Trail. “Nas frotas que atendemos aqui já pegamos muitos Ka da versão SEL, que pouca diferença tem em relação ao Trail, para fazer a revisão dos 10 mil, 20 mil 30 mil, 40 mil km. Então acho que ninguém melhor do que eu pode falar que o KA apresenta uma boa manutenção e uma fácil reparabilidade. Nele você pode até trabalhar com ferramentas genéricas, embora para desmontagem e montagens de algumas peças mais específicas você irá sempre necessitar de ferramentais especiais, mas nada que seja do outro mundo”, explica Luiz Paulo.

TRANSMISSÃO E EMBREAGEM

Se o motor Ti-VCT é o ponto alto do Ka Trail 1.0 3 cilindros, a transmissão manual de 5 marchas, com tração dianteira, e a embreagem monodisco a seco, não são unanimidades entre os reparadores. A transmissão até que dialoga bem com o motor. Com as primeiras marchas bem curtas é fácil fazer o carrinho ganhar velocidade, o que torna possível rodar no plano com um giro baixo. O condutor só precisará mesmo fazer subir o giro do motor e lançar mão de marchas menores, ou de intercalar a 2ª com a 3ª marcha, quando o Ka enfrenta ladeiras, mesmo as mais amenas. Afinal, por melhor que seja seu desempenho, estamos falando de um motor 1.0 aspirado.

Ricardo Marques, da Firecar, registrou uma vibração atípica nas arrancadas e nas subidas e a atribuiu à embreagem ou ao coxim do motor mal dimensionado. “Não é algo agradável nem muito normal, mas que precisa ser investigado mais a fundo. Talvez seja de fácil solução”, apontou. O principal testemunho a respeito dos contratempos com a transmissão do Ka ficou por conta do reparador Luiz Paulo, da Luna Car, e de suas experiências com as frotas desses veículos. “É fácil substituir a embreagem desse carro, o que temos feito aí por volta dos 40 mil quilômetros. O ponto mais a suspeitar, no entanto, é em relação à transmissão. Já precisei abrir o câmbio de uns seis carros como esse, principalmente quando eles chegam aos 50 mil quilômetros. As marchas, em particular a 1ª e 2ª começam a escapar e pedem um reparo. O defeito, geralmente, está nos anéis e nas luvas sincronizadoras”, explica o reparador. O problema tende a se repetir no modelo Ka Trail? “Não dá para afirmar. Minha primeira impressão do câmbio dessa versão Trail é boa. Ele aplica bem as marchas. Acho que só o tempo dirá se o problema é crônico ou resultado do mal uso por parte dos condutores”, projeta o reparador.

FREIO, SUSPENSÃO E DIREÇÃO

Dotado de uma direção com assistência elétrica, o Ford Ka Trail 1.0 3 cilindros dispõe de freios com discos ventilados à frente (foto 17) e tambores na traseira, além dos recursos ABS e EBD (antitravamento com distribuição de força entre as rodas). O conjunto de suspensão emprega o sistema McPherson, independente, à frente (foto 18), e eixo de torção, na traseira. E é aí por baixo que o carro mostra sua identidade. Porque os três centímetros a mais de elevação na suspensão – 20 centímetros no total – devido a molas e amortecedores dianteiros e traseiros novos (foto 19), barra estabilizadora (foto 20) maior e o eixo traseiro mais rígido, tudo completado por um conjunto de pneus de uso misto com maior diâmetro – 185/65 R15 –, conferiram a ele um comportamento próprio. Se não é o suficiente para enfrentar trilhas e estradas de terra e lama ele não deu a mínima bola para os buracos de São Paulo. “Você nem se preocupa com as valetas, lombadas e crateras”, afirma Ricardo Marques.

Os reparadores foram unânimes em destacar que a maior altura em relação ao solo não comprometeu a estabilidade do veículo, o conforto de sua suspensão e o trabalho de dirigi-lo, em parte devido ao acerto de sua direção elétrica, bem calibrada e que, na verdade, conta com uma caixa mecânica (foto 21). “Certamente a Ford optou em não pôr uma caixa hidráulica pelo fator custo-benefício. Com o piso de São Paulo não há caixa hidráulica que aguente, depois de três ou quatro anos a troca é inevitável. E já que é assim fica bem mais em conta repor uma caixa mecânica do que uma caixa elétrica”, compara o reparador Cláudio Marinho, para quem o quadro da suspensão passa uma ideia de robustez. “O carro conta com uma barra estabilizadora, algo não muito comum nos primeiros 1.0. Mas seu toque evolutivo é esse disco ventilado. Seria um luxo para um carro 1.0 se não fosse, também, um item que reforça a segurança da frenagem. Agora, quanto à maior altura da suspensão ela foi ganha principalmente na altura das molas e na recalibragem dos amortecedores”, completa Cláudio Marinho.

Uma inovação apresentada nas partes inferiores do Ford Ka Trail foi um limitador de torção (foto 22). “Sua colocação junto ao quadro da suspensão serve para evitar a torção excessiva do conjunto motriz. Ele é bem reforçado, de fácil manutenção e ajuda na estabilidade do veículo”, explica o reparador Ricardo Marques.

Coube a Luiz Paulo, da Luna Car, acionar um sinal amarelo sobre a qualidade do módulo ABS (foto 23) do Ka. “Espero que a montadora, já a partir desse modelo, tenha melhorado o seu sistema ABS. Nas outras versões temos notado pequenas falhas como um barulho ao pisar no pedal do freio. Tivemos algumas dores de cabeça com os sensores do ABS que podem ter acontecido mais devido à qualidade das pastilhas do que devido ao carro”, alerta o reparador. Em tempo: a Ford informou que o ABS do Ka Trail foi recalibrado.

ELÉTRICA, ELETRÔNICA E CONECTIVIDADE

  • Ka Trail vem de fábrica com uma bateria de 52 ampères que, segundo os reparadores, está bem protegida e localizada em um nicho de fácil acesso (foto 24). “É amperagem suficiente para dar conta da demanda. Se o veículo tivesse o sistema start-stop aí sim seria preciso uma bateria mais potente. Em geral, estamos acostumados a ver baterias menores por aí”, comenta Cláudio Marinho, que elogiou a disposição da fiação e dos chicotes. “Parecem preparados para enfrentar nosso clima quente”, comenta. Tanto as lâmpadas do conjunto ótico dianteiro (foto 25) quanto traseiro (foto 26) são de fácil reposição. “Se em alguns carros a gente precisa remover grade e farol para trocar uma simples lâmpada nesse caso não teremos dificuldade”, informa Ricardo Marques. Luiz Paulo só lançou um alerta para a máquina do vidro elétrico das portas – nesse caso, as dianteiras, pois as traseiras têm acionamento por manivela. “Com o tempo, costuma apresentar problemas, talvez porque alguns usuários apoiam demais os braços no vidro”, observa.

De resto, o Ka Trail é um veículo que não tem muito mais a oferecer em recursos elétricos ou eletrônicos: sem ajustes dos retrovisores e do banco do motorista, sem computador de bordo sofisticado e com o sistema de som MyConnection (foto 27), o mais elementar na linha Ford. Vem com rádio, Bluetooth com streaming, entradas USB e auxiliar, além de telefonia. Menos mal que o painel vem equipado com o MyFord Dock, um compartimento que oferece suporte para o smartphone (foto 28) ser melhor visualizado pelo motorista que, assim, poderá usar seus próprios aplicativos de navegação e parear o aparelho com o MyConnection.

INFORMAÇÕES TÉCNICAS

Em meio às montadoras que não investem em uma política de relacionamento com os reparadores independentes a Ford talvez seja exceção. Em 2014 criou o premio Reparador Motorcraft , que prestigia a categoria dos profissionais da mecânica independente, também apresentou um portal e usa a mídia segmentada para divulgar informações técnicas e ofertas de peças. Além dessas percepções dos reparadores entrevistados, a montadora do oval azul promoveu, em São Paulo, um encontro com esses profissionais para valorizar o trabalho desenvolvido por eles. “Outro canal utilizado pela Ford é a internet”, aponta o reparador Ricardo Marques. Ele se refere ao, entre outros, site reparadormotorcraft.com.br criado pela empresa para oferecer conteúdo técnico sobre os modelos da marca que se encontram já fora do período de garantia e, assim, capacitar os reparadores independentes a realizar serviços nesses veículos.

A realidade do dia a dia, porém, mesmo em relação aos modelos mais populares da Ford, como o Ka, e que em tese dependeriam menos de informações técnicas mais apuradas em seus reparos, é que essa política de portas abertas ainda não foi estendida às concessionárias. E se o foi seu público não a compreendeu, pois algumas ainda se negam a fornecer informações aos reparadores independentes. “Fisicamente, as concessionárias são as representantes da montadora que estão mais próximas de nós e, em muitos casos, elas ainda sonegam informações e precisamos nos valer do nosso relacionamento pessoal com seus profissionais técnicos. É a maior prova que nunca podemos deixar de lado a network que, na verdade, é a rede mais importante de todas”, relata Ricardo.

Para Luiz Paulo e Cláudio Marinho essa colaboração das montadoras, via concessionárias ou internet, é fundamental no trabalho dos reparadores independentes devido à crescente complexidade do mercado da reparação automotiva. “A eletrônica embarcada cresce dia a dia nos automóveis e, no futuro, mesmo para os modelos que já estiverem fora da cobertura das concessionárias, será muito difícil o reparador independente preocupado em trabalhar com excelência realizar seu trabalho se ele não tiver acesso a toda programação dos veículos. As montadoras precisam entender isso porque suas redes de concessionárias não dão conta de atender toda a demanda”, projeta Cláudio Marinho. Recado dado, resta saber, agora, se as montadoras o entenderão.

PEÇAS DE REPOSIÇÃO

Os reparadores entrevistados enfatizaram o fator custo-benefício para justificar a preferência pelas peças originais Ford que, entre muitos profissionais, gozam da fama de não serem as mais baratas do mercado da reposição. “O custo mais elevado, no entanto, vale a pena pela qualidade e durabilidade dessas peças. Sempre que possível dou preferência a elas, principalmente quando precisamos de peças específicas como sensores, caixas de direção, engrenagens de câmbio etc. Mas isso não quer dizer que ficamos dependentes das concessionárias em 100% dos casos, pois há distribuidores independentes especializados que trabalham com peças originais da linha Ford e, assim, suprem a necessidade. Em se tratando de peças genuínas de reposição esporádica, porém, nem sempre as encontramos para pronta-entrega e o mais comum é fazer o pedido e esperar pela encomenda. Já quanto às peças de alto giro como velas, amortecedores, pastilhas e filtros essas são facilmente encontradas no mercado alternativo, com boa qualidade e preço competitivo”, avalia Ricardo Marques.

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