Do Fundo do Baú - Anderson Nunes

Porsche 911 Turbo: o esportivo que nasceu das pistas de corrida e tornou-se uma lenda

O mítico 911 Turbo surgiu das experiências da Porsche nas pistas de competição e hoje é objeto de culto entre

Foi na segunda metade da década de 1950 que a Porsche começou a esboçar os primeiros projetos do modelo 911. Nessa época Ferdinand “Ferry” Porsche passou a delinear o sucessor do 356, primeiro modelo da marca, produzido desde 1947, e que deu ao fabricante reputação internacional na arte de fazer carros esportivos leves, rápidos, estáveis e robustos. Mesmo mantendo-se um sucesso comercial a concorrência ao modelo 356 já estava mais acirrada. Prudente, Ferry não queria que o novo modelo fosse apenas uma simples evolução do 356, mas sim um produto que expressasse a alma Porsche. 


A primeira proposta colocado a mesa foi do projeto 695, um esportivo que teria mais espaço para os ocupantes que o 356 e também um aspecto mais urbano. Esse esboço ficou a cargo do projetista Albrecht Goertz, autor do BMW 507, um dos roadster mais belos dos anos 50. Entretanto a Porsche achou o projeto convencional e sem apelo para substituir o bem-sucedido 356 e o andamento do projeto cessou ali. Ferry Porsche mal sabia que a solução para a estética poderia ser bem mais “sanguínea” e estava ao seu lado. Tratava-se de seu filho mais velho, Ferdinand Alexander. Apelidado de Butzi, então com 24 anos, havia acabado de se formar na Escola de Desenhos de Ulm. Na maquete de Goertz o esportivo tinha quatro faróis, mas Butzi fez questão de manter os dois faróis circulares do 356. Ele também insistiu em mais espaço para os ocupantes do banco traseiro. 

O grande aerofólio conjugado com a tampa do motor revela que esse 911 é especial, devido ao formato recebeu o apelido de “bandeja de chá”
Nome Porsche vem em destaque no refletor
O protótipo T7, que havia ficado pronto em meados de 1961, já antecipava as futuras linhas do novo esportivo. O carro tinha motor traseiro de quatro cilindros opostos oriundo do modelo 356 Carrera e distância entre-eixos de 2,40 metros. Mas Ferry Porsche não gostou do estilo proposto na traseira e autorizou a redução de 20 centímetros nas medidas de entre-eixos e no comprimento total no protótipo. Com os devidos ajustes efetuados, no início de 1962, o futuro esportivo da Porsche ganhava suas linhas definitivas.    

Em movimento o Porsche 911 mostra toda sua vivacidade em acelerar e arrancar sorrisos
Formas básicas do 911 são mantidas até hoje mesmo depois de 52 anos de mercado
Em setembro de 1963, no Salão de Frankfurt, era apresentado o modelo 901. O esportivo de 2+2 lugares trazia linhas curvas, bonitas, com aproveitamento aerodinâmico e ampla área envidraçada. Algumas semanas após o lançamento do modelo 901, a Peugeot entrou com uma interpelação judicial contra a Porsche, alegando que ela detinha desde 1929 os direitos internacionais para o uso da combinação de três números com o zero no meio. Assim só restou a Porsche rebatizar o modelo como 911, tornando-se o número sagrado do esportivo mais carismático do planeta. 

911, UM ICÔNICO ESPORTIVO 

Desde o início o 911 marcou seu nome na história, em parte pelo seu desenho único e que acabou se tornando referência para os outros futuros modelos da casa de Stuttgart. Na dianteira sobressaiam os dois faróis circulares, fixados nos para-lamas. O capô descia de forma suave até os para-choques de lâminas únicas e rentes à carroceria. Nas laterais destaque para a grande área envidraçada e colunas estreitas que ajudavam na visibilidade. A traseira de caída reta tinha saídas de ar fixadas na tampa do motor e lanternas simétricas que invadiam parte da lateral. A carroceria de linhas fluidas em aço estampado tinha estrutura monobloco. As medidas eram 4,16 metros de comprimento, 1,61 m de largura, 1,32 m de altura e 2,21 m de entre-eixos. O 911 seguia a receita do antecessor, era leve, pesava apenas 1.080 kg.

Motor de 3,3 litros com intercooler dispõe de 300 cv e ímpeto para levar o modelo à velocidade
Os grandes retrovisores conferem boa visibilidade, embora fosse quase impossível ver alguém na cola do 911 turbo
No interior, os bancos eram confortáveis e com aspecto esportivo. Já os assentos traseiros, em caso de emergência poderiam transportar duas pessoas já que o espaço era bem restrito. O painel de instrumentos completos exibia cinco mostradores: o maior, ao centro, o conta-giros, que acabaria tornando-se marca registrada do modelo – e ao lado trazia velocímetro, marcadores de temperatura e nível de combustível, manômetro de óleo, voltímetro e relógio. Detalhe curioso era a chave de contato posicionada à esquerda. 

Já o trem de força ficava atrás, com seis cilindros opostos (boxer) e arrefecido a ar. Com bloco e cabeçotes em ferro fundido era chamado internamente de Tipo 745. Com cilindrada de 1.991 cm³ (diâmetro de 80 mm x curso de 66 mm), era alimentado por dois carburadores Solex e potência de 130 cv e torque máximo de 17,9 m.kgf. O ponto forte era o desempenho: aceleração de 0 a 100 km/h em 7,5 segundos e velocidade máxima de 210 km/h. A novidade técnica era lubrificação por cárter a seco e radiador de óleo. O câmbio manual de cinco marchas tinha uma disposição de troca diferente, com a primeira para trás e à esquerda. Era uma maneira prática para o uso esportivo, mas causava estranheza aos iniciantes que por vezes engrenavam a segunda marcha sem querer. As vendas começaram em maio de 1964, mas as entregas tiveram início apenas em setembro. 

Comparado ao modelo 356, o 911 trazia uma evolução no sistema de suspensão. Na frente era independente tipo McPherson, com barra de torção longitudinal, e atrás tinha braços semiarrasados e barra de torção transversal. A direção era do tipo pinhão e cremalheira e os sistema de freios era a disco nas quatro rodas, sendo que os freios traseiros eram de maior diâmetro devido ao maior peso concentrado na parte posterior. As rodas eram dotadas de calotas cobertas com pneus de medida 165/15.  

O interior refinado com direito a bancos de couro, vidros elétricos e rádio toca-fitas, em nada o 911 turbo lembra as origens das pistas de corrida
Conceito 2+2 é característica do 911, o espaço é suficiente para levar duas criançasNos anos que se seguiram o Porsche 911 manteve sua trajetória de sucesso, com mais de 12 mil unidades deixando a unidade de Zuffenhausen. Um dos segredos para o sucesso do 911 foi a constante política de atualização do modelo promovida pela Porsche. A estratégia era aprimorar e lançar novas versões, assim o catálogo era constantemente ampliado, podendo atender aos mais variados tipos de clientes e também era uma forma de manter-se em evidência perante a mídia especializada. Foi assim que surgiu o modelo Targa em 1965, uma espécie de conversível com destaque para o arco fixo. Em 1966 era apresentado o 911S. Mantendo o mesmo motor de 2 litros trazia os novos carburadores Weber, pistões forjados, comandos de válvulas mais bravos, taxa de compressão aumentada para fornecer potência de 160 cv e 18,5 m.kgf de torque. Com essa receita o 911S atingia velocidade máxima de 225 km/h. Foi nesse modelo que as famosas rodas Fuchs em liga-leve fizeram sua estreia. 

Em 1973 era apresentado o Porsche 911 Carrera RS, com produção de apenas 500 exemplares para obter homologação junto à FIA para competir no mundial GT do grupo 3. Trazia motor de 2,7 litros alimentado por injeção mecânica Bosch K-Jetronic dispondo de 210 cv e 26 m.kgf de torque. A velocidade máxima era de 243 km/h e fazia de 0 a 100 em 6,3 segundos. Chamava a atenção a ventoinha dourada. O sucesso do 911 Carrera RS foi tamanho que a Porsche precisou fabricar mais 1 mil carros para atender os pedidos. 

TURBO, A PALAVRA MÁGICA

No Salão de Paris de 1974 a Porsche apresentava o seu modelo topo de linha: o 911 Turbo, código 930. O visual imponente tinha como destaque o contorno das saias dianteira e traseira em borracha preta. Chamava a atenção o grande aerofólio. Os para-lamas traseiros eram bastante largos para abrigar as rodas aro 15 pol. com pneus medida 205/50 na dianteira e 225/50, como curiosidade coube ao 911 Turbo inaugurar o uso dos pneus esportivos Pirelli P7, os melhores das pistas naquele momento. Atrás, o visual era realçado pela seção central das lanternas na mesma cor vermelha, com a inscrição em preto do nome Porsche. Já a palavra Turbo vinha de forma discreta em uma pequena plaqueta fixada na tampa do motor.  

Painel de instrumentos completo é algo raro em esportivos, já o conta-giros ao centro tornou-se marca registrada do modelo 911
O uso de turbocompressor não era novidade na linha Porsche: tal recurso foi aplicado nos modelos 917 que foram disputar o campeonato Can-Am (Canadian-American Challenger Cup), que fazia frente ao propulsores de 8 litros da Chevrolet que equipavam os McLarens. Nas ruas a primazia do uso do turbo coube ao Chevrolet Corvair com seu motor de seis cilindros boxer refrigerado a ar e Oldsmobile Jetfire dotado de um pequeno motor V8 de 3,5 litros todo feito em alumínio. Na Europa, o recurso era praticamente desconhecido - a BMW lançou em 1973 o modelo 2002 Turbo, mas suas reações imprevisíveis acabaram arranhando a imagem do modelo. O 911 é considerado hoje o primeiro carro com turbo, no mundo, a ser bem-sucedido.    

As linhas curvas atravessam gerações, ao lado da dupla saída de escape há uma pequena e discreta luz de neblina
A versão turbo era dotada de motor com 2.993 cm³ (diâmetro de 95mm x curso 70mm), potência de 260 cv 5.500 rpm e torque de 35 m.kgf a 4.400 rpm, da série RSR, muito bem-sucedido na Targa Florio e em Le Mans. Acoplado ao motor estava o câmbio de quatro marchas. O turbo era da marca KKK e tinha 0,8 bar de pressão e o sistema de alimentação era injeção mecânica Bosch K-Jetronic. Já os freios a disco nas quatro rodas eram todos ventilados. Apesar do maior peso (1.195 kg), acelerava de 0 a 100 km/h em 6,1 segundos e a velocidade máxima ficava em 250 km/h. A versatilidade desse motor era tamanha que ele poderia correr, dependendo do volume de produção, nos grupos 3,4 e 5 da FIA. Internamente chamava a atenção o grande volante de quatro raios, os instrumentos que tinham outro grafismo e o bancos forrados em couros de largas abas laterais. É dos modelos mais raros, já que foram produzidas 2.850 unidades. 

Os limpadores de para-brisa repousam unidos e a varredura se dá pelo lado do passageiro, tudo para melhorar a visibilidade do piloto
Surpresa com o sucesso imediato do 911 turbo, a Porsche acelera as mudanças para atender à clientela ávida por mais desempenho. Em agosto de 1977, o motor teve seu tamanho aumentado para 3.299 cm³ (diâmetro 97mm e curso 74,4mm), com potência de 300 cv e robusto torque de 42 m.kgf. Entre as modificações feitas no motor estavam o acrescimento do intercooler e uma nova turbina KKK, devido à adição do resfriador de ar o aerofólio ganhou um novo desenho de perfil mais reto, que gerou o apelido de “bandeja de chá”. O peso aumentou para 1300 kg, mas isso não interferiu no desempenho, que agora atingia velocidade final de 264 km/h e fazia de 0 a 100 km/h em 5 segundos. 


Esteticamente o 911 turbo 3,3 litros acrescenta luz de neblina no canto inferior esquerdo, lavador de pressão dos faróis dianteiros. Internamente havia a opção de bancos em couro com regulagem elétrica e ar-condicionado. Sempre seguindo a política de atualização em 1986 a Porsche acrescentou a injeção eletrônica Bosch LE-Jetronic, rodas traseiras 9 polegadas com pneus 225/45 na dianteira e 245/50 na traseira. Em 1988 finalmente o 911 turbo ganha a caixa de cinco marchas da marca Getrag.

A carreira comercial do Porsche 911 turbo de 3,3 litros chegou ao fim em setembro de 1989. Durante esse tempo em que permaneceu em produção foram vendidas pouco mais de 14 mil unidades. Já os modelos Targa Turbo e Cabriolet Turbo venderam 193 e 918 unidades respectivamente.   

UNIVERSO DE RARIDADES

O colecionador e restaurador de carros antigos Mauricio Augusto Marx tem o antigomobilismo correndo em suas veias desde criança. Esta paixão foi herdada de seu pai, Flavio Augusto Marx, um dos pioneiros e maiores colecionadores de carros antigos do país. Mauricio Marx é reconhecido por suas restaurações em carros raros e acumula diversos prêmios nos mais importantes concursos de elegância do país. 

Os duplos faróis dianteiros tornaram-se identidade do 911 e servem até como padrão para os demais modelos da Porsche
Os mais de 15 anos de experiência em comercialização e restauro de carros antigos fizeram com que Marx pudesse transpor sua habilidade, usada até então em suas próprias negociações, para empreender no ramo de comércio de carros antigos e que ao mesmo tempo propiciasse uma nova experiência de compra e venda a outros apaixonados por carros antigos. Nasceu aí a loja Universo Marx, localizada no bairro de Moema. 

“Aqui nós somos mais do que uma loja, somos um espaço dirigido aos aficionados pelos carros clássicos. Procuramos atender ao desejo do cliente que busca não só um carro, mas um sonho de uma forma agradável e descontraída, afinal somos movidos pela mesma paixão, o universo dos carros clássicos”, explica.

Maurício Marx tem como carro de uso diário um Porsche 356 1951, apelidado de véio Zuza. Como apreciador dos carros da casa de Stuttgart, ele também possui um Porsche 911 turbo 1978 que ilustra essa reportagem e exemplifica muito bem essa paixão pelos ícones da indústria automotiva. O modelo já traz o motor de 3,3 litros de 300 cv e o grande aerofólio. A cor vermelha deixa mais evidente as formas musculosas da versão turbinada. Nesse modelo já encontramos os itens como a luz de neblina na traseira e os lavadores de faróis. O interior mantém o padrão original dos bancos de encostos altos e revestidos de couro, rádio toca-fitas Blaupunkt.

Quanto ao motor turbo chama a atenção o som abafado, diferente dos esportivos italianos que urram. “Esse Porsche turbo é uma delícia para acelerar. Depois que a turbina enche ele dá uma estilingada e a velocidade aumenta num piscar de olhos”, diz sorridente Marx.

comentários
Avaliar:

Comentários