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Do Fundo do Baú - Anderson Nunes

NSU Ro 80, sedã de luxo alemão, foi o pioneiro a oferecer o motor rotativo Wankel de série

Há 50 anos era lançado o NSU Ro 80, avançado em desenho e na mecânica, o modelo tinha predicados para fazer sucesso, mas seu motor rotativo esbarrou na falta de confiabilidade

A NSU foi fundada em 1873 na pequena cidade de Neckarsulm, nome dado à união dos rios Neckar e Sulm, localizada ao sudoeste do estado alemão de Baden-Württemberg. Como muitos fabricantes de automóveis daquela época, a companhia atuava em uma área bem diferente: neste caso, máquinas de costura. O nome NSU era originalmente um acrônimo para Neckarsulm Strickmachinen Union ou (Fábrica de Máquinas de Costura de Neckarsul). Na virada do século, em 1901, a NSU começava a construir motocicletas, mercado em que se tornaria líder em 1955. Em 1905 iniciava a produção de automóveis.

Embora a empresa tenha produzido alguns carros bem sucedidos no segmento de esportivos na década de 1920, o início da Grande Depressão levou a NSU a ter que vender seu negócio automotivo para o Grupo Fiat (que usou marca NSU-Fiat) e se concentrar exclusivamente na produção de motos. Após o fim da Segunda Guerra Mundial e o mercado ávido por um meio de transporte pequeno, barato e econômico, encorajou a NSU voltar a sua atenção para os automóveis, ao introduzir o NSU Prinz em 1957. O Prinz era um pequeno sedã de duas portas dotado de motor traseiro de dois cilindros refrigerado a ar de 600 cm³.

Em 1964 a NSU lançou o Prinz 1000, seu primeiro automóvel de quatro cilindros do pós-guerra, o modelo lembrava um Chevrolet Corvair em escala reduzida. Embora as vendas estivessem a contento o diretor Gerd Stieler von Heydekampf queria algo mais grandioso para a empresa. A economia da Alemanha Ocidental havia melhorado consideravelmente nos últimos anos e os compradores estavam tendo um melhor poder de renda e deixando de lado os carros modelos bolha para sedãs de luxo. A quota de mercado da NSU ainda era modesta, logo se a empresa não evoluísse, seu futuro parecia sombrio.

Uma das grandes apostas da NSU para se destacar no mercado seria no projeto do motor rotativo, criado pelo Dr. Felix Wankel e que fora batizado com seu sobrenome. O contato para tal empreitada começou ainda no longínquo ano de 1951, por sugestão do diretor de competição Walter Froede, que havia se tornado líder em pesquisada e desenvolvimento da NSU. Apesar da desaprovação da diretoria, o plano foi adiante e, em 1957, um motor rotativo era apresentado pela NSU. Seis anos depois chegava o modelo Spider, pequeno conversível com motor de um rotor e 497 cm³ posicionado na traseira: era o primeiro automóvel do planeta a adotar o motor Wankel.

DESENHO À FRENTE DO TEMPO

No final de 1962, NSU começou a trabalhar em um novo modelo conhecido internamente como Typ 80. Foi concebido para estar na mesma classe que os compatriotas Mercedes-Benz W110 (atual Classe E), BMW Série 5, Ford Taunus, além do modelo inglês Rover P6 3500. Um diferencial seria a tração dianteira, desenvolvida pelo engenheiro chefe Ewald Praxl. O estilo do novo modelo, por sua vez, era de responsabilidade do designer interno Claus Luthe, que havia se juntado à NSU em 1956.

O resultado de cinco anos de estudos apareceu ao público no Salão do Automóvel de Frankfurt em setembro de 1967 com o nome de Ro 80, e no ano seguinte, foi eleito o Carro do Ano por jornalistas europeus, era a primeira vez que carro alemão ganhava tal título. O Ro 80 era muito superior ao padrão de automóveis feitos na época, era um daqueles veículos que nascem à frente do seu tempo. O impacto causado pelo modelo da NSU era igual ao protagonizado pelo Citroën DS em 1955.

Sua modernidade era notada já em seu desenho. Os traços que começariam a ser incorporados a partir da década de 1970 e, em algumas marcas, só seriam padrão lá na industrial mundial em 1980 já estavam presentes no Ro 80: linhas retas em contraste com cantos arredondados, faróis e lanternas retangulares, para-choques envolventes que se estendiam até as caixas de rodas, área envidraçada bem ampla e colunas estreitas e a traseira com tampa do porta-malas elevada.

A carroceria era marcada por vincos, um dava a volta completa na carroceria, passando pelas maçanetas, os faróis e a tampa do compartimento de bagagem; outros dois vincos estavam presentes na seção central do capô o que sugeria ser mais um pouco mais baixo que as laterais; e as colunas eram revestidas por fora de aço inoxidável. Outra característica inovadora era a enorme distância entre-eixos de 2,86 metros, que surpreendia pelo comprimento total de 4,78 m. As rodas ficavam posicionadas bem nas extremidades, isso favorecia a amplitude interna. 

Seu coeficiente aerodinâmico (Cx) era excepcional para época: 0,35. O cuidado com deslocamento de ar foi bastante estudado no túnel de vento da escola de engenheira de Stuttgart. Isso se refletia ao dirigir sob chuva, em que os vidros laterais e o traseira conservavam-se limpos. Essa característica também favorecia o silêncio a bordo mesmo em alta velocidade, além da completa renovação de ar interna. A verdade foi que o Ro80 passou a ser um carro contemplado pela maioria dos desenhistas automotivos, o mais emblemático a tecer um elogio ao modelo da NSU foi o designer Bruno Sacco, da Mercedes-Benz, ao ter afirmado que “o NSU Ro 80 era o carro que ele queria ter desenhado”.

Internamente, além da claridade trazida pelos grandes vidros, o Ro 80 oferecia um ambiente espaçoso e bem aproveitado, como o piso dianteiro praticamente plano (sem ressalto central), a não ser por uma saliência ao lado dos pedais. O painel trazia amplos conta-giros e velocímetro em destaque e o volante de três raios de grande diâmetro típico de carros alemães, pois torna a direção menos sensível a pequenos movimentos.

Para competir no segmento de luxo o modelo vinha bem equipado de série, além de poder ter opcionais de luxo como teto-solar com controle elétrico, rádio também com antena elétrica, revestimentos dos bancos em couro (de série em veludo) e rodas de alumínio. Destaque para a grande capacidade do porta-malas, com 590 litros, e ainda podia ser ampliado com o rebatimento do encosto, algo incomum para os sedãs da época.

AVANÇADO DE CORPO E ALMA

O NSU Ro 80 foi o primeiro automóvel a oferecer em larga escala o motor rotativo Wankel. O sedã da NSU tinha dois rotores de 497 cm³ cada, o que resultava um deslocamento volumétrico de 995 cm³. Porém, as normas da Federação Internacional do Automóvel (FIA) duplicavam sua cilindrada quando comparado com motores convencionais. Mesmo assim, a potência surpreendia para época já que um diminuto motor de quase 1,0 litro oferecia 115 cv a 5.500 rpm e torque máximo de 15,5 m.kgf a 4.500 rpm, alimentação era feita por dois carburadores Solex 18/32 HHD, havia duas velas por rotor. Apesar do peso elevado (1.350 kg), o carro fazia de 0 a 100 km/h em 12,8 segundos e atingia a velocidade máxima de 180 km/h.

A caixa de marchas era outro destaque do Ro 80, seu câmbio era um percursor do semiautomático tão utilizado nos dias de hoje: produzido pelo Sachs contava com conversor de torque, o que dispensava o pedal de embreagem, mas com mudanças manuais das três marchas em uma alavanca tradicional. A embreagem era acionada assim que se começasse a operar a alavanca para a troca de marcha. As suspensões eram independentes nas quatro rodas, a dianteira era do tipo McPherson e a traseira usava braço semiarrasado.

Os freios a disco nas quatro rodas (os dianteiros do tipo interno, montados distantes da roda, para menor massa não-suspensa) eram dotados de servo e duplo circuito hidráulico. A direção de pinhão e cremalheira tinha assistência hidráulica. O tanque de combustível dispunha de 85 litros, ficava instalado à frente do eixo traseiro, posição bem protegida contra impactos. O resultado era um carro muito estável e seguro em altas velocidades. Um dos motes das propagandas era: A beautiful piece of engineering, ou uma bela peça de engenharia. 

WANKEL, UMA APOSTA ARRISCADA

No conjunto geral, o Ro 80 estava predestinado ao sucesso, mas não demorou para que as primeiros dificuldades começassem a aparecer justamente no cartão de visitas do modelo, o motor Wankel, o que gerou problemas de confiabilidade. Além do alto consumo, o motor Wankel apresentava desgaste prematuro da vedação dos rotores, o que motivava uma perda gradual na potência e no torque, além de queima de óleo. Isso exigia uma ampla reforma nos motores em curtos intervalos de tempo,  veículos com menos de 50 mil quilômetros já apresentavam avarias mecânicas. A NSU trabalhou extensivamente para sanar os problemas e, na linha 1970, apresentou uma versão aprimorada dos rotores com centros de Ferrotic, ou carboneto de titânio, um material cerâmico muito resistente o que praticamente anulou os problemas mecânicos. Mas o dano à imagem de um carro de luxo, destinado a clientes exigentes, já estava feito. 

Com todos esses percalços, o fato é que a NSU teve grandes despesas com a reparação dos motores durante a garantia e isso acabou por custar caro à marca. Em 1969, já debilitada financeiramente, foi resgatada pela Volkswagen, a empresa mãe uniu a NSU com a Audi criando a Audi NSU Auto Union AG, e que continuou a fazer melhoras e prestar garantia ao Ro 80. Em 1970, o modelo adotava grade dianteira em alumínio, em vez de plástico, e faróis com duplo defletor. Dois anos depois, ganhava novos carburadores com afogador automático. Em 1973 os dois carburadores eram substituídos por um só, havia novos sistema de freios e os bancos dianteiros agora eram comuns a modelos da Audi e ganhavam apoio de cabeça. A alteração de estilo mais abrangente ocorreu em 1975, quando o modelo ganhou lanternas traseiras maiores e a placa de licença foi fixada acima do para-choque.

Seu ciclo de vida perdurou por 10 anos, com uma produção total de pouco mais de 33 mil unidades até abril de 1977 – sendo que última unidade foi entregue ainda 0 km, ao museu de tecnologia de Munique. O fato é que o Ro 80 mostrou-se ser um veículo pioneiro e muito à frente do seu tempo seja na concepção mecânica ou características técnicas. Não fosse a má reputação ocasionada por problemas mecânicos, poderia ter alcançado êxito comercial por mais um longo período.

O Ro 80 não teve um sucessor direto, embora a NSU tenha feitos estudos para lançar um modelo de luxo com motor convencional o projeto não foi adiante. Porém outro projeto da NSU, de um moderno sedã médio com motor a pistões, foi concluído pela Volkswagen e lançado como K70, o primeiro VW com motor refrigerado a água, mas não obteve êxito comercial, talvez por ser um modelo não tão inovador como era o espírito da NSU. Fato é que assim que o Ro 80 disse adeus à linha de produção levou consigo todo a alma de vanguarda da NSU. 

AMANTES DO NSU RO 80

Para realizarmos essa reportagem sobre a história do NSU Ro 80 contamos com a colaboração dos amigos alemães do clube Ro80 Club. Fundado em 1979, dois anos depois que a produção seriada foi finalizada, a organização conta com cerca de 700 membros em 16 países, além disso o clube é tido como a maior congregação de associados do modelo Ro 80 em todo o mundo.

Uma das características dos sócios é que eles conduzem diariamente com seus Ro 80, seja para trabalho, lazer ou mesmo reunião dos membros que muitas vezes acontecem em diversos países do continente europeu.

O clube oferece muitas opções para quem tem ou deseja ter um Ro 80 na garagem. Eles mantêm uma ampla biblioteca com literatura diversa referente a manutenção e reparação, tais como manuais de oficina, catálogos de peças sobressalentes e documentos para manutenção e reparação de carroçarias. Há também diversas brochuras com dicas e sugestões (apenas em alemão), além de revistas editadas nos últimos 30 anos. Além disso, há um fórum com perguntas técnicas.

Para manter os carros em condição de uso eles mantêm um armazém de peças novas e recuperadas. O estoque conta com amortecedores, bombas d’água, kits de vedação, discos de freio, vedação de porta, entre outros itens. E por fim o clube edita um jornal em alemão e parcialmente em inglês com quatro edições ao ano. A publicação contempla temas como dicas para manter o Ro 80, informações técnicas, relatórios de experiência, datas e relatórios sobre a vida do clube, bem como pequenos anúncios. Além disso, há informações e histórias sobre a tecnologia do motor rotativo.

Nós agradecemos ao presidente do Ro80 Club, o senhor Gunter Olsowski, todo o suporte para a realização desse trabalho bem com a autorização para o uso das imagens para ilustrar a reportagem.

Veja uma galeria completa de fotos do NSU Ro 80:

 

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