Avaliação do Reparador - Fernando Naccari e Paulo Handa

Honda City possui defeitos recorrentes, mas principal reclamação são as informações técnicas

Com falhas nos sistemas de alimentação de combustível e suspensão, modelo costuma visitar as oficinas independentes, porém reparador critica postura fechada da marca com a política pós-vendas

Foto 1O Honda City tem uma história muito extensa fora do nosso país. Esta na verdade iniciou-se no começo dos anos 80, no Japão (FOTO 1) e, somente em sua quinta geração no ano de 2009, chegou ao nosso país.

Seu principal objetivo era preencher uma grande lacuna de mercado de compradores da marca, onde encontravam um abismo muito grande entre o Fit e o Civic. Para compensar essa falta, o City chegou e fez sucesso imediato já que, em janeiro de 2010 já apresentava 2.593 unidades emplacadas, contra apenas 1.809 do Civic, segundo dados da Fenabrave.

Com mecânica compartilhada com seu irmão menor, o Fit, mas com visual que remetia ao seu irmão maior, o New Civic, o modelo rapidamente ganhou as ruas e uma legião de fãs.

A frente vinha com um visual agressivo, com faróis finos e alongados (FOTO 2) (lembrando as utilizadas no New Civic), mas com traseira mais conservadora (FOTO 2A), ganhou o coração do público masculino. Com interior espaçoso e com posição de dirigir elevada quando comparada também ao Civic, ganhou boa parte do público feminino que havia adotado o Fit como seu modelo.

Foto 2 e 2A

Porém, com o tempo, o modelo não recebeu nenhum facelift, enquanto seus irmãos já evoluíram, deixando este sedã da marca para trás. A única “novidade” foi a chegada da versão esportiva no segundo semestre de 2013 (FOTOS 3 E 3A). Mas como a maioria dos esportivos nacionais, trouxe um pacote visual que o dava caráter mais jovial e agressivo, mas mecanicamente o modelo não mudou nada.

O City, basicamente, oferecia nível de conforto e desempenho semelhantes aos do Fit, mas com espaço e porta-malas para quem não tinha condições de ter um New Civic. Atualmente, quem adquire um City opta pelo modelo apenas por precisar de um veículo maior que o Fit.

 Foto 3 e 3A

NAS OFICINAS

Mas como todo veículo, apesar do partilhamento de componentes, o City tem seus próprios defeitos. Para sabermos como o Honda City se comporta em suas visitas às oficinas independentes, conversamos com o reparador Rodrigo de Souza Masso de 31 anos de idade. Destes, 15 anos são dedicados à profissão, sendo sete deles na empresa H Office de São Paulo-SP

Em sua oficina, estava um Honda City 1.5 16V Flex 2011 (FOTO 4) automático. O veículo estava com 39.560km rodados e o motivo de sua ida à oficina foi explicado por Rodrigo: “A cliente bateu o cárter do motor em uma valeta e não reparou que isso causou um dano sério, provocando o escoamento do óleo do motor. Não notando este problema, só parou o veículo quando o motor fundiu”.

Curioso é que mesmo com os veículos atuais possuindo diversos alertas para prevenir que problemas como estes aconteçam, muitos clientes não se atentam a isso e acabam tendo problemas que poderiam evitar. É o que comentou Rodrigo: “A cliente não percebeu que a luz de advertência do óleo do motor estava acesa no painel e continuou andando até o problema acontecer. É bem provável que ela nem soubesse o que aquela luz significava, pois se soubesse evitaria um dano desta extensão”.

Rodrigo ainda acrescentou o motivo da ida da cliente à sua oficina para realizar o serviço, ao invés de optar pela concessionária: “Simples, o reparo deste motor (FOTO 5) na concessionária ficaria em torno de R$30.000,00, mas conosco o serviço saiu com a mesma qualidade, por R$8.960,00”.

Foto 4 e 5

Nesta falha, Rodrigou frisou o que mais sofreu com a falta de lubrificação: “As partes mais afetadas foram o virabrequim que fundiu, as bronzinas de mancal e de biela também. As bielas também tiveram de ser substituídas. Tivemos então que retificar o virabrequim que, mesmo com o ocorrido, foi para 0,25mm ainda dentro da tolerância de retífica. Em seguida, retificamos o cabeçote e brunimos os cilindros do bloco. Neste, temos que ter o cuidado de observar e cobrar que a retífica seja feita da maneira correta, pois isso diferenciará o perfeito assentamento dos anéis de segmento. Se isso não ocorrer, o desgaste será acentuado, a vida útil do óleo cairá e poderá ocorrer deficiência na compressão do motor”.

RECOMENDAÇÕES

Com relação à manutenção periódica deste modelo da Honda, a oficina toma como base o que é prescrito pelo manual do proprietário, porém, com a experiência que adquirem com a rotina reparos, se dão a liberdade de completá-lo. Sobre os detalhes, Rodrigo comentou: “Como este veículo é flex, a cada 10.000km é necessária à substituição do óleo do motor, filtro de óleo, filtro de combustível. Já a cada 20.000km é necessário acrescentar à troca os filtros de cabine e de ar. A cada 40.000km temos uma manutenção mais severa, onde recomenda-se remover o coletor de admissão para regular as válvulas e  trocar as juntas e o’ring referente a este reparo. Junto às peças de revisão, a cada 10.000km acrescentamos a substituição das velas de ignição”.

 DEFEITOS RECORRENTES

Sobre as falhas mais presentes nos modelos, o reparador comentou: “Tenho reparado pouco estes motores 1.5 Flex, a não ser em casos como este em que houve descuido por parte do usuário. Quando o condutor também não faz a revisão dos 40.000km, quando vamos retirar as velas, estas costumam apresentar certa rigidez e não saem com facilidade, principalmente quando ele usa muito etanol como combustível principal. Se forçarmos a sua saída podemos danificar o cabeçote”.

Quando isso ocorrer, Rodrigo orienta seguir o seguinte procedimento:

1. Deixe o motor aquecer até a temperatura de trabalho, ou seja, acima dos 90°;

2. Com o motor ainda quente, dê um torque adicional nas velas em torno de 30Nm;

3. Adicione desengripante em abundância e aguarde para este penetrar na rosca das velas;

4. Aqueça o motor novamente e, em seguida, tente retirar as vela com um torquímetro ajustado para os mesmos 30Nm;

5. Quando o torquímetro ‘estalar’ não force mas volte e refaça os procedimentos anteriores até conseguir remover as velas por completo.

Dando sequência à avaliação do modelo, Rodrigo disse: “Os espaços internos no vão do motor são mais generosos (FOTO 6) no City do que no Fit. Isso nos facilita no momento da reparação e colocação de ferramentas no cofre do motor para qualquer tipo de reparo”.

Foto 6

Também há outro tipo de problema que geralmente ocorre com a falta de manutenção correta: “Quando o condutor é descuidado com a manutenção preventiva do veículo, principalmente com o óleo do motor, geralmente isso provoca borras internas que danificam as partes móveis do motor, causando também falta de lubrificação. Quando isso ocorre, quase sempre é necessário remover as partes afetadas para limpá-las, por conta disso, oriento os meus clientes a ter muita disciplina para esta questão e se atentar quanto às especificações do óleo, que são o 0W30 mineral, ou como a Honda utiliza atualmente, o 0W20 sintético”.

Geralmente motores com quilometragem mais alta têm a recomendação de aplicar óleo de viscosidade mais elevada. Porém, Rodrigo afirmou que isso não é necessário para este motor: “Acompanhei vários veículos que colocam a mesma especificação recomendada pela montadora, o 0W30 mineral, sem que o motor apresentasse qualquer modificação em relação ao desgaste prematuro ou ruídos internos com quilometragem elevada. Inclusive, efetuo manutenções em veículos com mais de 150.000km que sempre utilizaram a mesma especificação e estão funcionando muito bem”.

Segundo Rodrigo, há outro item no sistema que merece cuidado especial: “O filtro de combustível é um item muito importante, mas que o condutor não dá a devida importância. Tenho várias queixas de motor sem força e até de casos de o veículo ‘deixar o cliente na mão’, tendo que guinchar o veículo até a oficina e, quando vamos diagnosticar, observamos que o filtro de combustível (FOTO 7) não foi trocado no período correto e está totalmente entupido. Este tipo de falha é mais comum em veículos que rodam apenas com Etanol”.

Foto 7

Questionamos Rodrigo para entender o motivo desta postura dos proprietários, deixando um item tão importante longe dos cuidados necessários. Assim, o reparador explicou: “Isso ocorre, principalmente com clientes que já tiveram o Fit da versão antiga movido à gasolina, onde a recomendação da troca deste filtro era apenas aos 40.000km e, devido aos motores serem praticamente iguais, a especificação para o motor flex é a cada 10.000km. Não fazendo esta substituição, até a bomba de combustível fica prejudicada, pois trabalhará um longo tempo em alta carga para compensar o entupimento do componente, diminuindo sua vida útil consideravelmente”.

Quando falamos em transmissão, Rodrigo relatou: “Em transmissões automáticas (FOTO 8) e mecânicas ainda não efetuei reparos internos. No geral, o serviço que mais pego é a troca de embreagem em veículos com baixa quilometragem. A grande maioria é por excesso de desgaste causado por má condução, mas tenho reparado que este defeito tem acontecido com os mais variados tipos de condutores. É uma falha frequente”.

Segundo Rodrigo, os modelos automáticos, assim como ocorrem em outros modelos, incluindo os de outras marcas, têm a vida útil dos componentes do freio reduzidos. Já os traseiros têm durabilidade prolongada: “Em modelos automáticos efetuo intervenções nos freios dianteiros já aos 20.000km. Nos modelos de transmissão manual, as manutenções ocorrem com aproximadamente 30.000km. Já nos freios traseiros, que neste veículo são à tambor (FOTO 9), cheguei a fazer revisões em modelos com 80.000km em que foi necessário somente limpeza para se retirar o pó resultante do desgaste da lona, mas com material para rodar bastante ainda. Nem vazamento tinham”.

Foto 8 e 9

Agora, quando falamos em suspensão (FOTOS 10 E 10A), o City sofre bastante: “Os coxins superiores dos amortecedores não aguentam e tenho trocado com frequência. Os amortecedores, principalmente os traseiros, perdem a ação devido a vazamentos provocados pelos danos causados por ruas muito irregulares, danificando o componente. Já as buchas da bandeja, com aproximadamente 70.000km, começam a rachar, necessitando sua troca”, explicou Rodrigo.

Foto 10 e 10A

Entramos em contato com diversos reparadores para sabermos quanto a falhas recorrentes no sistema de ar condicionado (FOTOS 11 E 11A) do modelo, inclusive nosso consultor técnico sobre o assunto Mario Meier Ishiguro, mas este nos comunicou que desde o lançamento do veículo, jamais recebeu qualquer versão para realizar reparos.

Foto 11 e 11A

 PEÇAS E INFORMAÇÕES

Assim como temos acompanhado em outras matérias, estamos observando um enorme declínio na qualidade das peças do mercado de reposição independente para praticamente todas as marcas de veículos comercializadas em nosso mercado. E, conforme nos conta Rodrigo, com a Honda este cenário não é diferente: “Para os modelos Honda não sei o motivo, mas não encontro peças de boa qualidade no mercado independente. São peças que não têm o layout adequado, não possuem as características necessárias para um bom funcionamento do componente, têm material de péssima qualidade, e só tem o preço inferior, mas utilizá-las não compensa”.

Rodrigo ainda acrescentou: “Por conta disso, só tenho colocado peças genuínas, assim não corro riscos. Alguns itens como filtros, posso até arriscar, inclusive coloquei outro dia um filtro de óleo do motor de uma marca renomada e ele estourou. Por sorte, isso aconteceu dentro da oficina, onde o substituí por um original e o defeito não aconteceu mais. Até agora não entendi porque aquilo aconteceu”.

Baseado neste cenário, Rodrigo afirmou: “Com isso, que para os modelos City, 90% das peças que uso são peças genuínas adquiridas em concessionárias, os outros 10% adquiro entre importadores e mercado independente”.

Já sobre as informações técnicas, a Honda demonstra a mesma falta de atenção ao mercado independente: “Observo que as montadoras japonesas não tem a mínima preocupação em repassar as suas informações ao mercado independente. É um mundo fechadíssimo! Trabalhei muitos anos em concessionária e, mesmo assim, tenho dificuldades em adquirir informações da fonte quando necessito. Felizmente, o mercado internacional não pensa assim, mas o mais difícil é disponibilizar tempo para filtrarmos estas informações e canalizá-las de forma ordenada para que, quando tivermos que acessá-las, não seja de uma forma traumática. Acredito que, para nós reparadores, o nosso maior desafio hoje é realmente a informação técnica. Como adquiri-la, como armazená-la e como acessá-la rapidamente quando necessário é bem complicado. Não adianta só termos a informação se no momento em que tivermos que acessá-la, não tenhamos a organização necessária para saber onde ela está, pois toda perda de tempo hoje é dinheiro que perdemos”, finalizou Rodrigo.

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